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Viúva dá detalhes da criação literária de Jorge Luis Borges

Quando o autor levantava seu dedo indicador, era sinal de que escrevia um poema, segundo lembra María Kodama

Felipe Franco Munhoz - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

03 Janeiro 2015 | 03h00

“Se ele começava a apontar o indicador no ar, eu já sabia que era um poema; se não, era prosa.” Em qualquer lugar. A qualquer hora. Quando Jorge Luis Borges cerrava os olhos, concentrado, logo ditaria um novo trabalho para María Kodama - sua amiga, sua companheira e, depois, sua esposa. “Era como se não lhe bastasse não ver, como se ele precisasse apertar forte os olhos para entrar ainda mais dentro de si mesmo.”

María Kodama, viúva desde 1986 e presidente da Fundación Internacional Jorge Luis Borges, recebeu-me em Buenos Aires para conversarmos sobre o grande escritor argentino. A primeira vez que María viu Borges foi da plateia: ela, uma criança, muy chica; ele, autor consagrado, cego e tranquilo. A menina Kodama desejava tornar-se professora no futuro, mas, para tal, haveria de superar a jaula da timidez.

Como falar diante dos alunos? E aquele senhor - tão inibido quanto ela - falava e falava, para uma sala repleta, com segurança e tranquilidade. “As pessoas tímidas se reconhecem, são como os animais da selva.” Kodama pensou que se aquele senhor conseguia, ela também conseguiria; a voz de Borges, macia, suave, portanto, abriu-lhe a mente. Foi marcante.


Certa vez, aos dezesseis anos, encontrou-o por acaso; María Kodama - narrando, agora, de forma solta, descontraída - reproduziu o diálogo:

“No que trabalha?”, disse Borges.

“Na verdade, estou no quarto ano do liceu.”

“Ah, e você gostaria, por acaso, de estudar anglo-saxão?”

“O que é isso?”

“Bem, isso é inglês antigo.”

“Que maravilha, Shakespeare?”

“Não, muito mais antigo: século 9, 10.”

“Mas, então, deve ser muito difícil.”

“Eu também não sei, vamos estudar juntos.”

Desde então, jamais perderam contato; jamais perderam a proximidade. Borges, ávido leitor-ouvinte, levava dicionários e gramáticas para cafés, bares, restaurantes. 

Do anglo-saxão, passaram para o islandês - e assim foram expandindo conhecimento, foram descobrindo línguas, trocando experiências. Apesar de poliglota, Borges - que lamentava nunca ter aprendido a ler em braile - não traduzia a própria obra; tampouco lia as traduções ou relia seus livros no idioma original. Somente antes de cada nova edição, o autor de O Aleph fazia “correções infinitas”; diversas palavras eram alteradas, sobretudo em poesia. Um longo processo detalhista, que envolvia, em dezenas de repetições, ditar e anotar e ler.

“Se pegarmos, por exemplo, O Fervor de Buenos Aires (publicado em 1923), seu livro de estreia, e seguirmos através das distintas edições até que cheguemos na segunda edição de suas Obras Completas, encontramos - praticamente - outro livro. Mantêm-se os títulos, mantém-se a essência, mas mudam os termos”, explica María.

A primeira edição de O Fervor de Buenos Aires, é claro, está fora de circulação há décadas. De modo que é quase impossível realizarmos essa comparação. No entanto, o Colegio de México está organizando uma edição crítica das obras completas de Jorge Luis Borges - com o propósito de apresentar variantes de texto. Será publicado para melhor compreensão do universo borgiano, o passo a passo criativo de contos e poemas.

México, Alemanha, Brasil; Kodama viaja bastante em função de conferências e debates literários. O mesmo que, outrora, fez acompanhando o gênio portenho. Ela recorda, especialmente, uma conferência em São Paulo: com o espaço lotado, pessoas aglomeravam-se do lado externo tentando enxergar Borges - e sacudiam as portas querendo entrar. O que ela define como demonstração de afeto e carinho.

Enquanto viajava o mundo - viagens que estão registradas em Atlas -, o casal lia sobre religiões e lia os filósofos. Dentre os ficcionistas favoritos de Borges, segundo María, destacam-se Kipling e Stevenson. Além de literatura, adoravam o cinema. Sabiam Lawrence das Arábias de cor. “Ele também amava o filme The Wall; dizia que havia músicas que tinham força interior e despertavam, nele, a criação.” 

Bem como jazz ou música erudita barroca ou gospel. Mas, acima de tudo, não é curioso imaginarmos Jorge Luis Borges inspirado por rock psicodélico? Imaginarmos Borges frente a María Kodama, apaixonado, apoiado em sua bengala, após ouvir Pink Floyd, apontando o indicador no ar - porque estava contando sílabas -, com os cegos olhos cerrados, prestes a criar uma brilhante poesia; não é maravilhoso? E quem sabe, logo, ele não ditaria alguma nova obra-prima? Talvez On His Blindness, talvez Poema dos Dons, talvez Os Conjurados. 

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