Kyrhian Balmellia
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'Vínculos das famílias tornaram-se frágeis', diz Patrícia Melo, autora de 'Menos Que Um'

Em novo livro, escritora aborda País 'estilhaçado' retratando histórias de desempregados, flanelinhas, camelôs e catadores

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2022 | 05h00

Quando veio ao Brasil em 2019 para o lançamento de seu romance Mulheres Empilhadas, a escritora Patricia Melo, que vive na Suíça desde 2010, ficou impressionada com o que via quando transitava de carro por São Paulo: “Percebi que a quantidade de pessoas em situação de rua tinha aumentado enormemente e, como já pensava em escrever sobre isso, elegi ali o tema do livro seguinte”.

O resultado é Menos que Um, lançado agora pela editora Leya. Trata-se de uma ficção que acompanha uma série de personagens que batalham continuamente pela sobrevivência - figuras como camelôs, flanelinhas, desempregados, bêbados, ladrões, craqueiros e catadores que, além da vida miserável nas ruas, sofrem ainda com a “invisibilidade”, pois são ignorados pela maioria das pessoas que passam por eles.

A escrita consumiu quase dois anos de trabalho baseado em pesquisa (que contou com o precioso apoio da jornalista Emily Sasson Cohen) e também na escolha dos recursos literários para transformar o produto final em uma obra de ficção. É impossível, porém, não observar no livro a profusão de detalhes caçados no cotidiano e que quase o transformam em um trabalho de não ficção.

“Minha literatura tem realmente caminhado para o realismo, muitos leitores já observaram isso. E tenho mesmo a disposição de fazer uma cartografia da violência do Brasil, mas isso não é recente, pois Inferno, de 2000, também traz uma escrita realista ao retratar um traficante dono de morro”, comenta a escritora, que utilizou a valiosa pesquisa de Emily que, apesar dos riscos durante a pandemia, conheceu pessoalmente a realidade dos que estão nas ruas, chegando a se contaminar com o vírus da covid. “Ela foi meus braços, minhas pernas, meus olhos. Emily trouxe informação sobre as ocupações, que são hoje o que as favelas foram no passado. Eu me interessava em saber como funcionavam esses espaços para então descrevê-los como uma fábula, mantendo a sensação de realidade.”

Vida nua

Patricia já havia feito um retrato contundente da tragédia social brasileira no livro anterior, Mulheres Empilhadas, em que trata de um tema delicado: a matança de mulheres. Ali, ela já escreveu sob a inspiração dos conceitos filosóficos do italiano Giorgio Agamben. “Ele fala em ‘vida nua’, ou seja, a existência sem valor, descartável, a vida daqueles que são quase que escolhidos para morrer.”

É o caso dos personagens de Menos que Um, miríade de tipos diversos, como Douglas, que acredita na bondade sem religião, Seno que despreza as pessoas que “procriam como ratos”, Jéssica, que sonha em parir um bebê-futuro, Glenda, que sonha em ser feliz como Glenda, e não como Weverton, Dido, que divide sua comida com um cão, e Regiana, que interpreta a Bíblia, entre outros.

“Há um momento na criação em que forma e conteúdo são uma coisa só. Eu buscava o formato de um caleidoscópio, como Tolstoi fazia com genialidade, com muitos personagens. Mas, até me apropriar dessa condição, leva algum tempo”, comenta Patricia que, inicialmente, planejava titular o livro como Ponto Zero, o momento mínimo para se manter uma sobrevivência diária.

Mas logo veio a lembrança da obra do poeta e dissidente russo Joseph Brodsky que, em um livro também chamado Menos que Um, revisita sua trajetória intelectual sob a tirania soviética. “Ali, ele revela como o regime praticou a supressão do ‘eu’, da individualidade - o que importava era a ‘massa’. É o que vejo que acontece atualmente, especialmente depois da pandemia, que piorou uma situação já crítica, levando mais famílias que antes trabalhavam para a rua.”

Ao falar, Patricia, que fez um périplo por diversas capitais brasileiras para lançar seu novo livro, não esconde seu assombro com a realidade. “Os vínculos estruturais das famílias tornaram-se mais frágeis. O Brasil vive hoje seu momento mais trágico. Em 60 anos de vida e 40 como escritora, nunca vi o País tão estilhaçado. E, mesmo não sendo otimista, encerro o romance com uma tentativa de resistência, uma forma de mostrar que não aceito essa situação. Esse não é o Brasil de fato.” 

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