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Vincent Monadé, do Centro do Livro francês, enumera as vantagens do Brasil no Salão de Paris

Em entrevista exclusiva ao 'Estado', diretor comentou que há um forte potencial de desenvolvimento econômico no setor

Andrei Netto, Correspondente - O Estado de S. Paulo

07 Março 2015 | 03h00

PARIS - Para 48 autores convidados, para editores e para a literatura brasileira, o Salão do Livro de Paris de 2015 é uma chance de desbravar fronteiras e abrir um mercado exterior em um momento de crise generalizada no setor. A avaliação é feita por Vincent Monadé, presidente do Centro Nacional do Livro (CNL) da França, um dos organizadores do evento que abrirá as portas entre 20 e 23 de março para a descoberta, ou a redescoberta do Brasil, país convidado. 

Impactado pela turbulência no setor editorial, o Salão do Livro de Paris encolheu em área de exposição neste ano e, para enfrentar o espectro da crise, os organizadores se voltam ao mercado externo, tanto para a ampliação das vendas de autores franceses, quanto para a descoberta de escritores de outros países que possam despertar a curiosidade e a atenção do público local. É nesse contexto que o Brasil é considerado um mercado promissor. De uma literatura rica, mas mal conhecida, o país e seus autores estarão no centro das atenções dos 200 mil visitantes e 30 mil profissionais, que se reunirão em torno de 4,7 mil sessões de autógrafo, 1,2 mil expositores e 400 debates. 

Até aqui, para o público leitor da França e da Europa, a literatura brasileira é sobretudo Paulo Coelho e seus 165 milhões de exemplares vendidos em 170 países. Convidado ao salão, o autor de O Alquimista será um dos puxadores de venda e de mídia do evento. Mas outros escritores também são aguardados pelo público. É o caso de Ana Maria Machado ou de Paulo Lins, cuja obra mais famosa, Cidade de Deus, publicada pela editora Gallimard, é hoje uma verdadeira referência cultural sobre Brasil. Também é mencionada em Paris a curiosidade crescente por nomes menos conhecidos no exterior, mas que despertam interesse, como Ana Paula Maia. 

Para o mundo literário francês, o Salão do Livro é um encontro cultural de referência, ao mesmo tempo em que é um evento comercial maior para o setor, no qual são firmados contratos de publicação e tradução. É isso que Monadé chama de “vitrine” para a literatura brasileira em Paris, depois do acordo ser selado entre os presidentes dos dois países, François Hollande e Dilma Rousseff, para que o Brasil fosse o país homenageado pela segunda vez – a primeira foi em 1998. 

“Há duas razões maiores para o Brasil ser o país convidado de novo: o fato de o país ter uma literatura maior e porque economicamente é interessante para o mercado de edição da França nos dois sentidos: de livros franceses traduzidos no Brasil, e livros brasileiros traduzidos na França”, explicou Monadé, em entrevista exclusiva ao Estado. “Há um forte potencial de desenvolvimento econômico.”

Essa ambivalência do evento, ao mesmo tempo cultural e econômico, é considerada pelo presidente do CNL a maior oportunidade para os escritores. “A França segue sendo um dos grandes países da literatura no mundo, uma nação com muitos leitores”, argumenta. “Para um país estrangeiro, é uma grande visibilidade ser o convidado.”

Crise. Essa visibilidade, entende o presidente do centro, é estratégica para enfrentar a crise do setor editorial, que afeta os dois mercados, o brasileiro e o francês. Na França, editores perdem cerca de 3% das vendas todos os anos há quatro anos, o que preocupa o Ministério da Cultura. Uma das formas de enfrentar a turbulência é divulgar autores e desbravar novos mercados. Essa receita, entende Monadé, serve também para o Brasil. “Estamos em crise, que não é dramática ou terrificante, mas é uma crise. O salão é uma oportunidade incrível porque abre espaço aos autores, permite aos editores e ao público descobri-los, interagir com eles, trocar ideias e divulgá-los”, reitera. 

Entre os nomes que são esperados a partir do dia 20, estão Milton Hatoum, Ana Maria Machado, Paulo Lins, Michel Laub, Fernando Morais, Nélida Piñon, Luiz Ruffato, Edney Silvestre e Fernanda Torres, em uma lista que mescla ficção, não ficção, ensaio, poesia, teatro, literatura infantil e quadrinhos. Mas a notoriedade na França é um privilégio quase exclusivo de Paulo Coelho, que desta vez não se excluiu da lista – ao contrário do que aconteceu em Frankfurt em 2013. “Há um problema de penetração da literatura brasileira na França. Claro, há Paulo Coelho e também temos contratos de tradução bem regulares com o Brasil”, diz Monadé. “Mas talvez ainda faltem uma ou duas locomotivas de venda entre os autores brasileiros. E a vocação do salão é essa, a descoberta, é motivar que a imprensa fale dos autores e que os autores sejam mais conhecidos e lidos.” 

Cancelamento de autores provoca constrangimento

Em 9 de dezembro, uma lista de 48 autores convidados a comparecer ao Salão do Livro de 2015 foi apresentada com orgulho pela embaixada do Brasil em Paris. Mas, três meses mais tarde, o número de escritores de fato esperados na capital francesa pode se limitar a 43 ou 44. Pelo menos quatro cancelamentos já foram registrados, causando um constrangimento entre os organizadores do evento na França.

Os nomes escolhidos haviam sido definidos a partir de um consenso entre os curadores Guiomar de Grammont, idealizadora do Fórum das Letras de Ouro Preto, e Leonardo Tonus, docente brasileiro da Sorbonne. Deveriam ser 30, financiados pelo Centro Nacional do Livro da França. O governo brasileiro decidiu então ampliar a lista em 18 nomes, apostando no evento para divulgar a cultura e a literatura do País no exterior e dispondo-se a investir um total R$ 4 milhões, dos quais R$ 3 milhões pela Lei Rouanet e R$ 1 milhão do Ministério da Cultura.

Para surpresa dos franceses, porém, quatro autores (Davi Kopenawa, Patrícia Melo, Roger Melo e Alberto Mussa) já anularam suas participações alegando motivos pessoais. Em Paris, os organizadores temem novas defecções, em especial entre os imortais da Academia Brasileira de Letras (Nélida Piñon, Ana Maria Machado ou Antônio Torres), que ajudam a puxar o interesse do público. 

Vincent Monadé, presidente do Centro Nacional do Livro, diz que a relação com a embaixada do Brasil é excelente. Membros da organização, porém, não estão tão satisfeitos, segundo confidenciaram ao ‘Estado’. “A relação com os escritores está complicada. As duas câmaras brasileiras do livro envolvidas me parecem em concorrência”, disse o envolvido, que pediu para não ser identificado. / A.N.

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