Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Veronica Stigger autora constrói cenários sombrios que remetem a Kafka

Escritora gaúcha utiliza narrativas que desestabilizam qualquer certeza

Dirce Waltrick do Amarante, ESPECIAL PARA O ESTADO

24 Março 2017 | 18h55

Sul, da escritora gaúcha Veronica Stigger, é um livro híbrido, composto por um conto, uma peça teatral e dois poemas. O título e sua capa, ilustrada por uma foto de Veronica quando criança, induzem o leitor a acreditar que se trata de uma obra, se não autobiográfica, autorreferencial.

Embora o conto 2035 seja narrado em terceira pessoa e o nome da protagonista seja Constância, não há como o leitor não associar a foto da menina da capa com a seguinte descrição da personagem: “Constância se olhou e quase não se reconheceu. A imagem que via era de uma menina loira, de olhos claros, de cabelos bem penteados e cortados na altura dos ombros, com franjinha que lhe chegava perto dos olhos”. 

Já o poema O Coração dos Homens, narrado em primeira pessoa, parece descrever um incidente ocorrido na vida da escritora quando criança, reforçando o porquê de sua foto na capa do livro. No entanto, esse incidente é completamente modificado numa segunda versão desse poema, A Verdade Sobre o Coração dos Homens, de modo que ficção e não ficção, verdade e mentira se confundem nessas narrativas e desestabilizam qualquer certeza criada pela sua leitura.

A peça Mancha ajuda a aumentar ainda mais essa confusão; ela parece deslocada no meio de dois textos autobiográficos ou autorreferenciais, rompendo a concatenação entre o conto e o poema. Carol 1 e Carol 2, as personagens da peça, não têm, a princípio, nenhuma afinidade com a autora.

O fato é que os textos que compõem Sul têm muito em comum. Diria que aquilo que os une é a presença do sangue, que tem nas tramas de Veronica um significado sempre negativo: o sangue remete à morte, à impureza, à tragédia, etc.; e o absurdo das situações narradas contém um pathos que lembra as narrativas de Franz Kafka e de Samuel Beckett, mas que, por vezes, também pode levar ao riso perplexo e leve como acontece no absurdo de Eugène Ionesco. 

Em 2035, Veronica descreve um acontecimento nebuloso numa cidade que vive sob um regime autoritário, onde a protagonista, sem explicação plausível, é levada de sua casa por oficiais. Constância se assemelha, a meu ver, ao personagem K., do romance O processo, que é acusado de algo que ele não imagina o que seja. Há nesse conto também cenários sombrios tais como os corredores obscuros descritos por Kafka no citado livro: “Eram dois os portões que deveriam ser vencidos. O primeiro permitia a passagem para um espaço quadrado parecido com uma jaula, limitado pelo segundo portão ao fundo, por uma grade do lado direito, por uma guarita há muito desocupada”. 

As personagens de 2035 têm algo também das personagens beckttianas: poder-se-ia comparar o civil, que puxa um riquixá e é chicoteado pelos oficiais e por Constância, com a personagem Lucky de Esperando Godot: “Ela estalou novamente o chicote e, impaciente, disse-lhe para levantar-se porque queria ver o parque”. 

Mancha lembra as peças de Ionesco com seus diálogos banais, desconexos e personagens desmemoriadas: “Carol 2: Carol, por Deus, você estava aqui. Por que as poças vão do tapete até a porta e não até o banheiro? / Carol 2: Pois é, eu estava aqui. Estava mesmo. Estava bem aqui. / Carol 2: E então? / Carol 1: Não sei”. 

O poema O Coração dos Homens é uma tragicomédia absurda em torno do tema da menstruação: “Comecei a exalar um cheiro diferente. / Um cheiro desconhecido. / Um cheiro que lembrava podridão”. Já A Verdade Sobre o Coração dos Homens é a antítese do primeiro poema. 

Apesar de o universo retratado em Sul ser impactante, as narrativas, ocasionalmente, perdem a sua potência com descrições desnecessárias: “O pai ia argumentar, mas a mulher, com olhos brilhando porque molhados de lágrimas, não lhe deu chance”. Os textos de Veronica parecem ser mais pungentes quando são concisos como aquele que se lê em Os Anões e Gran Cabaret Demenzial. 

* DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE JAMES JOYCE E SEUS TRADUTORES 

(ILUMINURAS)

SUL

Autora: Veronica Stigger

Editora: 34 (96 págs.,R$ 35) 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.