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Verissimo antológico

Em textos breves, Luís Fernando Verissimo é capaz de armar uma trama, construir bons personagens e dar coerência a assuntos heterogêneos, e mesmo díspares

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 03h00

Quando a realidade é abalada por várias formas de violência e por todo tipo de desvio ético, as artes e a literatura nos ajudam a mitigar o abatimento, a impotência, talvez a desesperança. Para sair da lassidão, passei ótimos momentos na companhia de Luis Fernando Verissimo Antológico – Meio Século de Crônicas, ou Coisa Parecida (Objetiva). Reli, nesta edição caprichada, várias crônicas publicadas na imprensa e em livros, e li outras pela primeira vez.

Em textos breves Verissimo é capaz de armar uma trama, construir bons personagens e dar coerência a assuntos heterogêneos, e mesmo díspares. A linguagem meticulosa e exata desse mestre da síntese aponta para algo grande. Outra singularidade é a combinação de humor e ironia, que resulta numa expressão cômica, sempre crítica, sutil e inteligente. Os assuntos explorados pelo narrador – um caso trivial ou um tema elevado – nunca perdem um ar de naturalidade, que, no entanto, é apenas aparente. 

Não são poucos os contos em que o leitor é atraído por uma atmosfera de suspense, até se surpreender com as viravoltas do enredo, como se lê em O Crime da Rua Tal, A Mancha e O Caso dos Três Pimentas. Neste último, narrado por um amigo de um detetive homossexual, é notável a articulação da política – durante e depois da ditadura – com diferentes camadas sociais de Porto Alegre.

Nesse sofisticado relato policial, o detetive e o amigo dele (e o leitor) são conduzidos ao imbróglio numa família rica, mas decadente, cuja matriarca move e manipula as peças de um jogo insidioso. 

Outro jogo – dessa vez mais intelectualizado – é o assunto da crônica Borgianas. Nela, o narrador e Jorge Luis Borges jogam uma partida de xadrez e conversam sobre alguns temas do escritor argentino: o tempo, o espelho, os tigres, a literatura e, claro, a biblioteca. No fundo, Verissimo glosa, com humor, um dos grandes poemas de Borges: Xadrez, em que a disputa de peças com cores que se odeiam alude à guerra, “cujo anfiteatro é hoje toda a terra”. 

É sempre um prazer – com ou sem desgraça pandêmica, política, social, econômica e cultural – reler O Olhar da Truta, Robespierre e Seu Executor, O Expert, Rio Acima, Borboletas, Sozinhos, Náufragos, Os Crus e os Podres… Parece que todos os seres, coisas e situações narrados nesses textos dão a volta ao mundo: este mundo bárbaro, em mais de um sentido. 

A leitura dessa antologia foi, para mim, um remanso na loucura. É possível pedir algo mais verdadeiro a Verissimo?

*Milton Hatoum é escritor e arquiteto, autor de Dois Irmãos e Cinzas do Norte

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