Veja a íntegra do discurso de Mario Vargas Llosa em Estocolmo

Aprendi a ler aos cinco anos, na classe do irmão Justiniano, no Colégio de la Salle, em Cochabamba, na Bolívia. Foi a coisa mais importante da minha vida. Quase 70 anos depois, lembro-me com nitidez como essa magia - transformar as palavras dos livros em imagens - enriqueceu a minha vida, quebrando as barreiras do tempo e do espaço e permitindo-me viajar com o capitão Nemo 20 mil léguas abaixo do nível do mar, lutar junto com d'Artagnan, Athos, Portos e Aramís contra as intrigas que ameaçavam a rainha nos tempos do sinuoso Richelieu, ou arrastar-me pelas entranhas de Paris com o corpo inerte de Marius às costas.

Mario Vargas Llosa,

08 de dezembro de 2010 | 21h31

 

A leitura convertia o sonho em vida e a vida em sonho e punha ao alcance do pedacinho de homem que eu era o universo da literatura. Minha mãe me disse que as primeiras coisas que escrevi foram continuações das histórias que lia, pois me aborrecia quando elas terminavam ou queria mudar seu final. E talvez seja isso que acabei fazendo na vida sem perceber: prolongar no tempo, enquanto crescia, amadurecia e envelhecia, as histórias que encheram minha infância de exaltação e de aventuras.

 

Gostaria que a minha mãe estivesse aqui, ela que costumava se emocionar e chorar ao ler os poemas de Amado Nervo e Pablo Neruda, e também meu avô Pedro, de nariz grande e calva reluzente, que elogiava os meus versos, e o tio Lucho que tanto me animou a dedicar-me de corpo e alma a escrever, embora a literatura, naquele tempo e naquele local, alimentasse tão mal os seus cultores. Toda a vida tive ao meu lado gente assim, que gostava de mim e me animava, e me contagiava com a sua fé quando eu duvidava. Graças a eles e, sem dúvida, também à minha insistência e um pouco de sorte, pude dedicar boa parte do meu tempo a essa paixão, vício e maravilha que é escrever, criar uma vida paralela onde nos refugiamos contra a adversidade, que torna natural o extraordinário e o extraordinário natural, que dissipa o caos, embeleza o feio, eterniza o instante e torna a morte um espetáculo passageiro.

 

Não era fácil escrever histórias. Ao se transformarem em palavras, os projetos passeavam pelo papel e as ideias e imagens morriam. Como reanimá-los ? Por sorte, ali estavam os mestres para que eu aprendesse com eles e seguisse seu exemplo. Flaubert me ensinou que o talento é uma disciplina tenaz e uma longa paciência. Faulkner, que é a forma - o texto e a estrutura - que engrandece ou empobrece os temas. Martorell, Cervantes, Dickens, Balzac, Tolstoi, Conrad, Thomas Mann, que o número e a ambição são tão importantes numa novela quanto a destreza estilística e a estratégia narrativa. Sartre, que as palavras são atos e que uma novela, uma peça de teatro, um ensaio, comprometidos com a atualidade e as melhores opções, podem mudar o curso da História. Camus e Orwell, que uma literatura desprovida de moral é desumana, e Malraux que o heroísmo e o épico cabiam na atualidade tanto quanto no tempo dos argonautas, da Odisséia e da Ilíada.

 

Se eu mencionasse neste discurso todos os escritores aos quais devo um pouco ou muito as suas sombras nos deixariam na escuridão. São inumeráveis. Além de me revelarem os segredos do ofício de contar, eles me fizeram explorar os abismos do humano, admirar seus feitos e horrorizar-me com os seus desvarios. Foram os amigos mais serviçais, os estimuladores da minha vocação, em cujos livros descobri que, mesmo nas piores circunstâncias, há esperança, e que vale a pena viver, nem que seja só porque sem a vida não poderíamos ler nem fantasiar histórias.

 

Algumas vezes me perguntei se em países como o meu, com poucos leitores e tantos pobres, analfabetos e injustiças, onde a cultura era privilégio de tão poucos, escrever não era um luxo escapista. Mas essas dúvidas nunca asfixiaram minha vocação, e continuei sempre escrevendo, mesmo naqueles períodos em que o trabalho de subsistência absorvia quase todo o meu tempo. Acho que fiz a coisa certa, pois, se para a literatura florescer numa sociedade fosse preciso lançar primeiro a alta cultura, a liberdade, a prosperidade e a justiça, isso não teria existido nunca. Ao contrário, graças à literatura, às consciências que ela formou, aos desejos e anseios que inspirou, ao desencanto do real com que retornamos da viagem a uma bela fantasia, a civilização é agora menos cruel do que quando os contadores de contos começaram a humanizar a vida com suas fábulas. Seríamos piores do que somos sem os bons livros que lemos, mais conformistas, menos inquietos e insubmissos, e o espírito crítico, o motor do progresso, nem sequer existiria. A exemplo de escrever, ler é protestar contra as insuficiências da vida. Quem procura na ficção o que não tem, diz, sem necessidade de dizer, e nem de saber, que a vida tal como é não nos basta para apagar a nossa sede de absoluto, fundamento da condição humana, e que deveria ser melhor. Inventamos as ficções para podermos viver de, alguma maneira, as muitas vidas que queríamos ter, quando apenas dispomos de uma só.

 

Sem as ficções seríamos menos conscientes da importância da liberdade para que a vida seja suportável e do inferno em que ela se converte quando dominada por um tirano, uma ideologia ou uma religião. Quem duvida que a literatura, além de nos levar ao sonho da beleza e da felicidade, nos alerta contra toda forma de opressão, pergunte por que todos os regimes empenhados em controlar a conduta dos cidadãos, do berço ao túmulo, a temem tanto a ponto de estabelecerem regras de censura para reprimi-la, e vigiam com tanta suspeita os escritores independentes. Fazem isso porque sabem o risco que correm ao deixarem que a imaginação flua pelos livros, como quão sediciosas se tornam as ficções quando o leitor compara a liberdade que as torna possíveis e que nelas se exerce, com o obscurantismo e o medo que o pressionam no mundo real. Queiram ou não, saibam disso ou não, os criadores de fábulas, ao inventar histórias, propagam a insatisfação, mostrando que o mundo é mal feito, que a vida da fantasia é mais rica que a rotina cotidiana. Essa constatação cria raízes na sensibilidade e na consciência, torna os cidadãos mais difíceis de manipular, de aceitar as mentiras que querem fazer com que aceite, de que entre cassetetes, inquisidores e carcereiros vivem mais seguros e melhor. A boa literatura cria pontes entre pessoas diferentes, fazendo-nos gozar, sofrer ou nos surpreendermos, nos une sobre as barreiras das línguas, crenças, usos, costumes e preconceitos que nos separam. Quando a grande baleia branca sepulta o capitão Ahab no mar, o coração dos leitores se oprime do mesmo modo em Tóquio, Lima ou Tombuctu. Quando Emma Bovary toma arsênico, Anna Karênina se joga do trem e Julien Sorel sobe ao patíbulo; e quando, em El Sur, o urbano doutor Juan Dahlmann sai daquela vendinha do pampa para enfrentar o punhal de um matador; ou percebemos que todos os moradores de Comala, o povoado de Pedro Páramo, estão mortos, o abalo é semelhante no leitor que adora Buda, Confúcio, Cristo, Alá ou é agnóstico, vista terno e gravata, túnica, quimono ou bombachas. A literatura cria uma fraternidade dentro da diversidade humana e apaga as fronteiras que erguem entre os homens e mulheres a ignorância, as ideologias, as religiões, os idiomas e a estupidez.

 

Como todas as épocas tiveram os seus espantos, a nossa é a dos fanáticos, dos terroristas suicidas, antiga espécie convencida de que matando se chega ao paraíso, de que o sangue dos inocentes lava as afrontas coletivas, corrige as injustiças e impõe a verdade sobre as falsas crenças. Inumeráveis vítimas são imoladas todos os dias em diversos locais do mundo por aqueles que se sentem donos de verdades absolutas. Acreditávamos que com a queda dos impérios totalitários a convivência, a paz, o pluralismo, os direitos humanos se imporiam e o mundo deixaria para trás os holocaustos, genocídios, invasões e guerras de extermínio. Nada disso ocorreu. Novas formas de barbárie proliferam estimuladas pelo fanatismo, e com a multiplicação das armas de destruição em massa não se pode excluir que algum grupelho de redentores enlouquecidos provoque um dia um cataclismo nuclear. É preciso ir atrás deles, enfrentá-los e derrotá-los. Não são muitos, embora o estrondo dos seus crimes ecoe por todo o planeta e nos encham de horror os pesadelos que provocam. Não devemos nos intimidar ante os que querem tirar a liberdade que conquistamos na longa façanha da civilização. Defendamos a democracia liberal que, com todas as suas limitações, ainda significa o pluralismo político, a convivência, a tolerância, os direitos humanos, o respeito à crítica, a legalidade, as eleições livres, a alternância de poder, tudo aquilo que nos tirou da vida selvagem e nos faz aproximar - embora nunca cheguemos a alcançá-la - da formosa e perfeita vida fingida pela literatura, aquela que só inventando, escrevendo e lendo podemos merecer. Ao enfrentarmos os fanáticos homicidas defendemos o nosso direito de sonhar e de tornar nossos sonhos realidade.

 

Quando jovem, como muitos escritores da minha geração, fui marxista e acreditava que o socialismo seria o remédio para a exploração e as injustiças sociais que dominavam o meu país, a América Latina e o resto do Terceiro Mundo. Minha decepção com o estatismo e o coletivismo e a minha passagem para o democrata e liberal que sou - que tento ser - foi longa, difícil e ocorreu aos poucos por causa de episódios como a conversão da Revolução Cubana, que me entusiasmou de início, ao modelo autoritário e vertical da União Soviética, dos testemunhos dos dissidentes que conseguiam vazar dos muros do gulag, da invasão da Tchecoslováquia pelos países do Pacto de Varsóvia e graças a pensadores como Raymond Aron, Jean-François Revel, Isaiah Berlin e Karl Popper, aos quais devo a minha revalorização da cultura democrática e das sociedades abertas. Esses mestres foram um exemplo de lucidez e galhardia quando a intelligentsia ocidental parecia, por frivolidade ou oportunismo, ter sucumbido ao feitiço do socialismo soviético, ou pior ainda, à diabólica e sanguinária revolução cultural chinesa.

 

Quando criança, sonhava chegar um dia a Paris porque, deslumbrado com a literatura francesa, acreditava que viver ali e respirar o ar que respiraram Balzac, Stendhal, Baudelaire, Proust me ajudaria a tornar-me um verdadeiro escritor, que se eu não saísse do Peru seria um pseudo-escritor de fins-de-semana e feriados. E a verdade é que devo à França, à cultura francesa, lições inesquecíveis, como a de que a literatura é tanto vocação qunto disciplina, um trabalho e uma perseverança. Vivi ali quando Sartre e Camus estavam vivos e escrevendo, nos anos de Ionesco, Becket, Bataille e Cioran, da descoberta do teatro de Brecht e do cinema de Ingmar Bergman, o TNP de Jean Vilar e o Odéon de Jean Louis Barrault, da Nouvelle Vague e do Nouveau Roman e dos discursos, belíssimas peças literárias, de André Malraux, e talvez o espetáculo mais teatral da Europa daquele tempo, as entrevistas coletivas e os estrondos vocais olímpicos do general De Gaulle.

Mas talvez o que mais agradeço à França seja a descoberta da América Latina. Ali descobri que o Peru fazia parte de uma vasta comunidade irmanada pela história, geografia, problemática social e política, por uma certa maneira de ser e pela saborosa língua que eu falava e na qual escrevia. E que nessa mesma época produzia uma literatura nova e pujante. Foi lá que li Borges, Octavio Paz, Cortazar, García Márquez, Fuentes, Cabrera Infante, Rulfo, Onetti, Carpentier, Edwards, Donoso e muitos outros, cujos textos estavam revolucionando a narrativa em língua espanhola, e graças aos quais a Europa e boa parte do mundo descobriram que a América Latina não era só o continente dos golpes de Estado, dos caudilhos de opereta, dos guerrilheiros barbudos e das maracas do mambo e do cha-cha-cha, mas também das idéias, formas artísticas e fantasias lieterárias que transcendiam o pitoresco e falavam uma linguagem universal.

 

De lá para cá, não sem alguns tropeços, a América Latina foi progredindo, embora, como dizia o verso de César Vallejo, ainda "Há, irmãos, muitíssimo a fazer". Padecemos sob menos ditaduras do que então, apenas Cuba e a candidata a secundá-la, a Venezuela, e algumas pseudo-democracias populistas e caricatas, como a Bolívia e a Nicarágua. Mas no resto do continente, bem ou mal, a democracia está funcionando, apoiada em amplos consensos populares, e pela primeira vez em nossa História, temos uma esquerda e uma direita que, como no Brasil, Chile, Uruguai, Peru, Colômbia, República Dominicana e quase toda a América Central, respeitam a legalidade, a liberdade de expressão, as eleições e a renovação no poder. Esse é o caminho certo, e se persistir nele, se combater a insidiosa corrupção e continuar integrando-se ao mundo, a América Latina deixará, por fim, de ser o continente do futuro e passará a ser o continente do presente. (...)

 

Eu levo o Peru nas minhas entranhas, porque nele nasci, cresci, formei-me e vivi aquelas experiências da infância e da juventude que modelaram minha personalidade e que forjaram minha vocação; e porque lá amei, odiei, gozei, sofri e sonhei. O que nele acontece me afeta mais e me comove e irrita mais do que o que acontece em outros lugares. Não busquei nem me impus isso: foi assim, simplesmente. Alguns compatriotas me acusaram de traidor, e cheguei a ponto de quase perder a cidadania quando, durante a última ditadura, pedi que os governos democráticos do mundo punissem o regime com sanções diplomáticas e econômicas, como sempre fiz com relação a todas as ditaduras, as de qualquer espécie: a de Pinochet, a de Fidel Castro, a dos talebães no Afeganistão, a dos aiatolás no Irã, a do apartheid na África do Sul, a dos sátrapas uniformizados na Birmânia (hoje Myanmar). E voltaria a fazer isso amanhã -não queira o destino, nem o permitam os peruanos, se o Peru fosse vítima, mais uma vez, de um golpe de Estado que aniquilasse a nossa frágil democracia. Não foi aquela uma ação precipitada e passional de um ressentido, como escreveram alguns polímatas, acostumados a julgarem os outros a partir da própria pequenez. Foi um ato coerente com a minha convicção de que uma ditadura representa o mal absoluto para um país, uma fonte de brutalidade e corrupção, e de feridas profundas, que demoram muito para se fecharem, envenenam seu futuro e criam hábitos e práticas prejudiciais que se estendem ao longo de gerações, adiando a reconstrução democrática. Por isso as ditaduras devem ser combatidas sem contemplações, por todos os meios ao nosso alcance, incluindo as sanções econômicas. É lamentável que os governos democráticos, ao invés de darem o exemplo, solidarizando-se com aqueles - como as Damas de Branco em Cuba, os resistentes venezuelanos, Aung San Suu Kyi e Liu Xiaobo - que enfrentam com temeridade as ditaduras que sofrem, freqüentemente tenham se mostrado complacentes não com eles, mas com seus carrascos. Aqueles corajosos, ao lutar pela sua liberdade, lutam também pela nossa. (...)

 

A conquista da América foi cruel e violenta, como todas as conquistas, sem dúvida, e deve ser criticada, porém sem esquecermos, ao criticarmos, que os que cometeram aqueles despojos e crimes foram, em grande número, nossos bisavós e tataravós, os espanhóis que foram à América e aí se adaptaram, não os que ficaram na sua terra. As críticas, para serem justas, devem ser uma autocrítica. Porque, ao nos emanciparmos da Espanha, há duzentos anos, os que tomaram posse nas antigas colônias, ao invés de redimir os índios e fazerem justiça pelos antigos agravos, continuaram a explorá-los, com tanta cobiça e ferocidade quanto os conquistadores, e, em alguns países, dizimando-os e exterminando-os. Digamos com total clareza: há dois séculos, a emancipação dos indígenas é de responsabilidade exclusivamente nossa, e não temos cumprido com ela, que continua a ser uma matéria pendente em toda a América Latina. Não há uma exceção a essa afronta e essa vergonha. (...)

De todos os anos que eu vivi em solo espanhol, lembro com fulgor dos cinco que passei na querida Barcelona, a começo dos anos '70. A ditadura de Franco ainda estava em pé e fuzilava, mas era um fóssil em fiapos, e, sobretudo no campo da cultura, era incapaz de manter os controles de outrora. Abriam-se fendas e resquícios que a censura não conseguia sanar e, por eles, a sociedade espanhola absorvia novas ideias, livros, correntes de pensamento, valores e formas artísticas até então proibidos por serem subversivos. Nenhuma cidade aproveitou tanto e tão bem quanto Barcelona esse começo da abertura, nem viveu uma efervescência semelhante em todos os campos das ideias e da criação. Tornou-se a capital cultural da Espanha, o local onde se devia ficar para respirar a antecipação da liberdade por vir. E, de certa forma, foi também a capital cultural da América Latina, dada a quantidade de pintores, escritores, editores e artistas oriundos dos países latino-americanos que lá se instalaram, ou iam e vinham de Barcelona, porque era lá que havia que estar, se a gente queria ser um poeta, romancista, pintor ou compositor do nosso tempo.

Embora não tenha ocorrido exatamente assim, a transição espanhola da ditadura para a democracia foi uma das melhores históricas dos tempos modernos, um exemplo de como, quando a sensatez e a racionalidade prevalecem, e os adversários políticos deixam de lado o sectarismo em favor do bem comum, podem ocorrer fatos tão prodigiosos como os dos romances do realismo mágico. A transição espanhola do autoritarismo para a liberdade, do subdesenvolvimento para a prosperidade, de uma sociedade de contrastes econômicos e desigualdades terceiro-mundistas para um país de classes médias, a sua integração à Europa e a sua adoção em poucos anos de uma cultura democrática, surpreendeu o mundo e disparou a modernização da Espanha. Foi para mim uma experiência emocionante e instrutiva vivê-la de muito perto e por dentro em alguns momentos. Tomara que os nacionalismos, a praga incurável do mundo moderno e também na Espanha, não estraguem essa história feliz. (...)

 

O Peru é para mim a Arequipa onde nasci, mas onde nunca morei, a cidade que minha mãe, meus avós e meus tios me ensinaram a conhecer através das suas lembranças e nostalgias, porque toda minha tribo familiar, como costumam fazer os arequipenses, sempre levou consigo para a Cidade Branca em sua andarilha existência. É a Piura do deserto, o algarobeira e o sofrido jumentozinho ao que os habitantes de Piura de minha juventude chamavam de "o pé alheio"- lindo e triste epíteto - onde descobri que não eram as cegonhas que traziam os bebês ao mundo, mas eram os casais que os fabricavam fazendo umas barbaridades que eram pecado mortal. É o Colégio San Miguel e o Teatro Variedades, onde pela primeira vez vi encenada uma obrinha escrita por mim. É a esquina de Diego Ferré e Colón, no bairro de Miraflores, em Lima, - o chamávamos de o Bairro Alegre, onde troquei as calças curtas pelas compridas, fumei meu primeiro cigarro, aprendi a dançar, a namorar e a fazer declarações de amor às moças. É a empoeirada e arrepiante redação do jornal a La Crónica onde, nos meus dezesseis anos, fiz minhas primeiras armas como jornalista, ofício que, com a literatura, ocupou quase toda a minha vida e me fez, como os livros, viver mais, conhecer melhor o mundo e frequentar pessoas de todas as partes e de todos os tipos, pessoas excelentes, boas, más e execráveis. É o Colégio Militar Leoncio Prado, onde aprendi que o Peru não era o pequeno reduto de classe média que eu havia vivido até então confinado e protegido, mas um país grande, antigo, exasperado, desigual e sacudido por todo tipo de tormentas sociais. São as células clandestinas de Cahuide nas quais com um punhado da Universidade de San Marcos preparávamos a revolução mundial. E o Peru são os meus amigos e as minhas amigas do Movimiento Libertad, com os quais por três anos, entre bombas, apagões e assassinatos do terrorismo, trabalhamos em defesa da democracia e da cultura da liberdade.

 

O Peru é Patrícia, a prima de narizinho arrebitado e caráter indomável com a qual tive a ventura de me casar há 45 anos, e que ainda suporta as minhas manias, neuroses e meus chiliques que me ajudam a escrever. Sem ela, minha vida teria se dissolvido há muito tempo em um turbilhão caótico, e não houvessem nascido Álvaro, Gonzalo e Morgana, nem os seis netos que nos prolongam e alegram a existência. Ela faz tudo e faz tudo bem. Resolve os problemas, administra a economia, põe ordem no caos, mantém os limites para os jornalistas e intrusos, defende meu tempo dos compromissos e das viagens, faz e desfaz as malas, e é tão generosa que até quando acha que está me desafiando, faz o melhor dos elogios. "Mario, para a única coisa que você serve é para escrever."

 

Tradução: Damian Kraus e Antonio Alberto Dias Castro.

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