JOSE PATRICIO/ESTADÃO
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Vanessa Barbara lança ‘Operação Impensável’, livro sobre amor, traição e guerra

Romance venceu o Prêmio Paraná de Literatura 2014, para obras inéditas, e chega agora às livrarias em edição ilustrada

Entrevista com

Vanessa Barbara

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2015 | 04h00

Usar a ficção como catarse é prática corriqueira. Como vingança, há alguns casos – mas não tão frequentes.

Lia e Tito viviam um casamento aparentemente feliz até o momento em que ele passa a noite em um hotel com a amante e pede nota fiscal. Como Lia havia cadastrado o CPF dele no sistema, é ela quem recebe o e-mail com o documento-bomba. O que se segue é uma avalanche de mentiras, e é a “tentativa de absorver o que houve”, nas palavras de Lia, que acompanhamos em Operação Impensável.

Vencedor do Prêmio Paraná de Literatura para obras inéditas e lançado, à época, em pequena tiragem, o romance de Vanessa Barbara, 33 anos, um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea e cronista do Caderno 2, chega esta semana às livrarias pela Intrínseca. E a história da separação da protagonista se confunde um pouco com a da autora – embora o desfecho real, o fim de seu casamento com um editor de livros, tenha sido mais público.

“Toda ficção tem elementos biográficos, seja nos temas, nos personagens, em detalhes aleatórios ou em reviravoltas. Vários personagens da minha ficção possuem traços de pessoas reais, mas tudo misturado: do meu carteiro, da minha vizinha, de uma amiga de uma amiga, do porteiro, etc. No Impensável, há elementos da minha separação misturados em meio à invenção. Há também traços de histórias de divórcios que ouvi ou li por aí. Foi uma ideia ótima pegar temas reais e criar em cima deles, e enxergar alguns eventos sob a ótica de personagens inventados – foi como se eu saísse totalmente de mim e das outras histórias, e reescrevesse a realidade com outro tipo de foco”, explica.

Ao enredo de amor e traição que envolve Lia, uma historiadora, e Tito, um programador, a autora acrescentou o plano de ataque-surpresa à União Soviética logo após o fim da Segunda Guerra, que dá título ao livro, várias tentativas reais de fuga da Alemanha oriental e de vingança (por parte de homens e mulheres traídos) e diversas referências literárias e cinematográficas. Ela falou ao Estado sobre a obra.

Não é seu primeiro romance sobre separação. O que a interesse nesse tema?

Gosto da ideia de vazio. De tirar um personagem da cena (por morte, divórcio) e de ao mesmo tempo mantê-lo em campo, substituindo-o por uma ausência quase palpável. O personagem continua a existir, mas de outra forma. Gosto também de ver como essa ausência evolui nos personagens que restaram e como eles fazem para lidar com isso. Acho que é o que mais me atrai: não a separação em si, mas como lidar com ela. Otto (em Noites de Alface) se rendeu aos documentários sobre a vida dos baiacus. Lia, que é historiadora, resgata o passado sob a forma de livro, a fim de se libertar dele.

No livro, estratégias de guerra são narradas paralelamente a estratégias de vingança. Planos de fuga, ao lado de tentativas de despistar a mulher. Como surgiu a ideia de relacionar traição/divórcio com a Operação Impensável?

Não sei dizer como apareceu a ideia. A história da separação de um casal pode se prestar a uma comparação com a guerra, mas, nesse caso em particular, teria que ser necessariamente uma guerra fria. Pois a parte central do livro, aquela em que as mentiras começam a se insinuar, é toda tensão e manipulação, sem que nenhuma revelação efetivamente aconteça. Fui perambulando pela Guerra Fria e encontrei duas coisas incríveis que encaixavam perfeitamente na história: primeiro, a canalhice dos líderes da época, que é muito similar ao modo de agir da turminha de Tito (Nixon com suas mentiras e os comunistas com aqueles episódios de machismo e perversidade), e por fim esse plano praticamente suicida do Churchill que entrou para o rodapé da história, mas que é muito surreal: a Operação Impensável. Na esteira do Impensável, vieram também todos aqueles outros planos tolos e ridículos, como o Projeto Pombo, o Pavão Azul, a Bomba Atômica Cacarejante e o Projeto Gato Acústico. É exatamente o que Lia faz para descobrir o que está acontecendo: ela planeja uma operação impensável, suicida e desesperada. O tema histórico foi sendo tecido junto à trama do casamento. Os planos de fuga também se encaixam nessas tentativas de Lia de arrumar uma saída para a situação dela.

Há tristeza na história, e há humor. Pode comentar a oscilação?

“O humor é a delicadeza do desespero.” Eu normalmente uso o humor como forma de enxergar as coisas, não só na ficção como também na crônica e no jornalismo. Acho que o humor deve ser all pervading, como disse o Cortázar – deve estar presente em tudo o que se faz. Não digo necessariamente como comédia, mas como forma de enxergar o mundo. E, nos casos mais trágicos – como morte e separação –, é que ele se faz mais necessário. Penso no jornalista Francisco Goldman, que passou pelo luto decorrente da morte súbita da esposa. Ele estava no metrô quando se deu conta que, por um instante, “me pareceu tão plausível e até razoável a ideia de que amanhã eu poderia me vestir de Homem-Aranha que fiquei um tanto assustado”. Isso é lindo, engraçado e triste, tudo ao mesmo tempo. Li muito material sobre luto para escrever Operação Impensável e o que sempre me chamou a atenção foram os momentos agridoces, aqueles em que a pessoa está tão mal, mas tão mal, que só lhe resta rir de si mesma ou ironizar a situação. É um resquício de força que a gente tem, e que convive com o cenário absolutamente depressivo e desolador da situação. Como fez a Joyce Carol Oates, que entrou em depressão depois da morte do marido e, a certa altura, declarou: “Se alguém lhe perguntar: ‘Como vai?’ Não se deve responder: ‘Cada vez mais suicida. E você?’”. Acho esses momentos muito tocantes e muito reveladores da resiliência humana. Às vezes a única coisa que resta é algo tênue que continua vivo dentro de você e que pode se revelar em pequeníssimos detalhes pela autodepreciação, pelo sarcasmo e pela insistência em reparar em bobagens. A própria Elena Ferrante, em Days of Abandonment, escreve que a protagonista, depois de um divórcio, passou a adotar uma forma sarcástica de se expressar. Acho isso positivo, é sinal de que você está reagindo.

Você cita Nora Ephron: “Ao contar a história, não dói tanto. Porque, ao contar a história, posso me livrar dela”. Acha que é possível encontrar esse lugar de conforto na literatura? Ela tem essa função? Ou alguma função? E escrever faz parte do mapeamento da tristeza da perda, de que fala C. S. Lewis e que você também cita?

Sim, é possível. É muito libertador poder criar em cima das suas próprias obsessões, relatar episódios, retrabalhar traumas. Dá para fazer isso com crônicas e com o jornalismo também; para mim, a melhor forma de pensar numa coisa que me interessa e de alimentar minhas obsessões é escrever sobre o assunto. É bom poder contar a sua própria versão das coisas do mundo. Não que a função da literatura seja essa, nem acho que a literatura tenha que ter uma função – mas é um poder que a escrita tem.

Em certo momento, o narrador cita um psicólogo e diz que a vingança ajuda a alocar a dor de forma mais equânime, a restaurar a dignidade e a retomar o controle da situação. Quando descobre a traição de Tito, pesquisar e escrever sobre traição e vingança vira o novo tema de Lia. Para você, qual seria a melhor forma de se vingar e sair de uma situação como essa? Um livro pode ser um objeto de vingança?

Sim. Criar alguma coisa a partir do que se sofreu é uma forma interessante de se “vingar”, ou seja, de trabalhar o luto e deixar tudo para trás. É uma forma de retomar o protagonismo da sua própria história, sobretudo quando alguém faz algo injusto e absolutamente unilateral e você tem que lidar com o que te aconteceu. É uma forma, enfim, de reagir. Nada a ver com esse caso em específico, mas li uma matéria numa New Yorker recente que fala sobre o irmão de uma vítima de um atentado terrorista de 1988 que decide investigar quem foram os responsáveis pelo ato. Ele diz, a certa altura, que o verdadeiro ajuste de contas se daria não numa retribuição física, mas sob a forma de uma mensagem: “Vinte anos atrás, no dia que você escolheu, você colocou uma bomba num avião, e o curso da minha vida mudou. Agora, no dia que eu escolher, irei até a sua casa, baterei à sua porta e direi: ‘Eu estava do outro lado dessa sua ação.’”. É por aí. Escrever um livro e publicá-lo, e de repente até ganhar um prêmio, é uma boa reação.

OPERAÇÃO IMPENSÁVEL

Autora: Vanessa Barbara

Editora: Intrínseca

(224 págs.; R$ 39,90; R$ 19,90 o e-book)

Confira trechos da obra

"Eu queria também que você soubesse - e é tão cedo pra dizer essas coisas, e sou tão burra em fazer isso - a fragilidade do que você tem nas mãos, a enormidade do envolvimento que eu tenho com você, a minha falta de jeito, a vontade que eu tenho de te dizer: cuida de mim, não me deixa abraçar os joelhos e me sentir sozinha, e não vai embora. Não vai embora nunca."

(...)

"O bom de saber o futuro é que podemos selecionar, reinterpretar e editar o passado à luz do que sabemos que veio a ocorrer. Um exemplo: considerar as explosões de raiva de Tito como um prenúncio. Sua facilidade de mentir e se amoldar à expectativa dos outros como pistas para sua verdadeira personalidade."

(...)

"Os dias se passaram e eu não perdia a oportunidade de invocar a amante imaginária do Tito, que bem poderia ir à cozinha pegar água. Ele também fez piadas muito boas que infelizmente nunca poderão ser adequadamente apreciadas por conta da realidade, que insistiu em estragar tudo. (Como escreveu a romancista Elvira Vigna, em Nada a Dizer: 'Essa brincadeira também sumira, junto com todas as outras coisas, porque a graça era justamente sua total impossibilidade (...)"

(...)

"Foram muitas as esposas qie cortaram fora ou colaram o pênis de seus cônjuges após pegá-los no flagra. Uma australiana, posteriormente condenada a sete anos de prisão, cozinhou o membro de seu ex-marido numa mistura fervente de desinfetante, água sanitária, cera e mel. Outras preferiram limpar a privada com suas escovas de dente. Houve uma que costurou camarões crus - prestes a apodrecer - no forro da cortina da sala do ex; uma americana comeu os três peixinhos dourados do marido (....)" 

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