NELSON D. AIRES/DIVULGAÇÃO
NELSON D. AIRES/DIVULGAÇÃO

Valter Hugo Mãe faz palestra e participa da Fliaraxá para ressaltar o valor da liberdade

Escritor angolano radicado em Portugal lança três livros novos pela Biblioteca Azul: 'As Mais Belas Coisas do Mundo', 'Contos de Cães e Maus Lobos' e 'O Nosso Reino'

Entrevista com

Valter Hugo Mãe

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2019 | 03h00

Um dos mais amados escritores em língua portugueses da atualidade, Valter Hugo Mãe participa de uma tour brasileira para lançar três livros novos, editados pela Biblioteca Azul: As Mais Belas Coisas do Mundo, Contos de Cães e Maus Lobos e O Nosso Reino. Depois de passar pelo Rio, ele chega a São Paulo hoje e, em seguida, segue para o interior de Minas, como convidado da Fliaraxá.

Voz tranquila, prosa bem cuidada, olhar acolhedor e, principalmente, uma literatura contundente tornam Mãe (angolano radicado em Portugal) em um homem encantador. Por e-mail, ele respondeu às questões.

Você vai falar sobre literatura portuguesa contemporânea, o que nos leva a Agustina Bessa-Luís, que morreu recentemente. Agustina é uma das principais escritoras portuguesas de sempre. A par de Maria Gabriela Llansol e Maria Velho da Costa, ela compõe a grande trindade do século 20 e destaca-se por sua inteligência austera e aristocrata, por ser uma conservadora feroz, ácida, que retrata as pessoas e o país sem pingo de piedade. Julgo que nos deixa um testemunho do quanto a Literatura é meditação espontânea, um debate sem limites acerca do que são emoções. Atravessar os seus livros é passar por uma radiografia do inquinado da humanidade. Do quanto sonhamos e falhamos. Há gênios de outro modo, outras razões, mas ela via tudo por um prisma desolador e acusador. Sua pulsão, as mais das vezes, era para expor o ridículo.

Você revela um cuidado com a estética dos livros. Como explica o fascínio pelas artes plásticas?

O que distingue as artes em mim é a habilidade para me dedicar a umas e outras não. No plano íntimo, da apreciação, ou pressentimento de que algo se pode revelar, não sou diviso e não há divisão nas expressões. Quero dizer, se fosse feliz, saberia pintura e desenho, saberia música e fotografia, saberia literatura, poesia, dramaturgia, até culinária. Meu fascínio é, como dizia, por esse pressentimento de que existe algo conservado enquanto certo mistério e que saberemos apenas através da intuição da arte. A arte existe para que nos auscultemos onde disciplina alguma tem ciência para auscultar. Toda a arte. Meu fascínio vem dessa constatação.

O Nosso Reino ganha nova edição. Qual o desafio de ver o autoritarismo filtrado pela perspectiva infantil?

Foi minha experiência. Nasci na ditadura, cresci em democracia. No entanto, passei a infância vendo como as ideias totalitárias resistiam, indo embora lenta e grotescamente. Não tolero qualquer ditadura, à esquerda ou à direita. A vocação da humanidade é a da liberdade. As pessoas que anseiam por dominar ou ser dominadas, no que à política diz respeito, vivem uma incapacidade de se completarem pelo conhecimento e pela imaginação. No meu livro, que é uma ficção, crio uma memória cândida de como foi fugir das várias opressões vigentes em Portugal, uma política e outra moral. Infelizmente, voltamos a urgir neste combate. O mundo abeira-se demencialmente das piores ideias. O coletivo aprende muito pouco. Levaremos milênios a depurar, isto se não destruirmos o planeta antes.

Seus livros têm a qualidade de expor as nossas falhas por meio de seus personagens. Você acredita ter alguma responsabilidade, como artista, para fazer isso?

Acredito ter responsabilidade enquanto cidadão, e o cidadão que sou não se ausenta dos meus livros, embora não esteja obrigado a comparecer. Não poderia descurar a utilidade que um livro pode ter. Odiaria dedicar a minha vida a algo inútil. Ainda que não queira instrumentalizar o que escrevo a uma causa específica, até porque a humanidade se define por muito paradoxo e incoerência, e eu quero estar livre para pensar de outro modo em qualquer altura, a verdade é que os meus livros acontecem sempre com gana de protesto, incomodados e numa folia por meditar. Meditando, talvez possa decidir melhor acerca de uma qualquer questão.

Aliás, qual seria a função da arte: nos tornar pessoas melhores, nos dar instrução moral, trabalhar para o bem social ou apenas existir para nosso prazer?

Não é exatamente na moral que encontro justificação para a arte. É na solicitação de cidadania. Para mim, a arte é uma intensificação da pessoa tendente a perturbar e exigir opinião. Lidar com a arte é permanentemente fazer uma escolha. Isso é educação para a cidadania.

VALTER HUGO MÃE. Centro de Pesquisa e Formação do Sesc. R. Dr. Plínio Barreto, 285, 4º. Tel.: 3254-5600. 6ª (14/6), 19h30. Grátis, mediante inscrição Angariar informação, meditar, votar. Escolher melhor, ser responsável. 

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