Acervo Pessoal
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Universo fantástico de Raphael Draccon ganha novo livro 

Escritor celebrado nos versos de Emicida e como personagem da DC Comics, Draccon lança quarto volume da saga, agora atingido pela modernidade

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2021 | 05h12

Se o ditado “Você só é realmente famoso quando seu nome vira letra de rap” for verdadeiro, o escritor Raphael Draccon já entrou para a história. 

Foi com surpresa que o carioca ouviu seu nome nos versos da música 8, de Emicida: “Cicatriz, Doctor Doom, gibi/Criei meu mundo tipo Raphael Draccon e sumi”. O mundo criado por Draccon, de que fala Emicida, chega agora em uma nova aventura, com o lançamento do volume 4 de Dragões de Éter – Estandartes de Névoa, da editora Melhoramentos. 

Vivendo em Los Angeles há cinco anos com a parceira de vida e trabalho Carolina Munhóz, o escritor – nascido Rafael Albuquerque Pereira – falou ao Estadão, em entrevista por videoconferência. De origem simples (seu pai nasceu no Morro do Borel, no Rio), Draccon teve seu interesse capturado pela cultura. Mas o cinema chegou antes da literatura, ele lembra. “Meu avô era projetista de cinema. Com ele, tive a chance de assistir filmes como Casablanca e Meu Ódio Será Tua Herança. Posso dizer que ele foi meu primeiro contador de histórias”, lembra.

O talento para a literatura ainda não tinha tomado conta do jovem Draccon e o cinema foi responsável por apresentar um de seus primeiros ídolos: Bruce Lee. Encantado com os movimentos do Dragão Chinês, o aspirante a escritor foi faixa preta em taekwondo e deu aulas de artes marciais. Aos 25 anos, decidiu se “aposentar” quando assinou seu primeiro contrato como escritor. 

Mesmo assim, a figura do dragão não abandonou Draccon. Símbolo máximo das artes marciais, da espiritualidade e da fantasia, o monstro voador que cospe fogo e captura princesas é figura central no mundo de Dragões de Éter

Neste quarto volume, as personagens que se confundem com os contos de fadas cresceram. O mundo dominado de Nova Ether passou por grandes transformações desde a estreia do primeiro Caçadores de Bruxas, lembra o escritor. “No primeiro volume, o ambiente é medieval, tem reis, rainhas. Ao avançar, com Coração de Neve e Círculos de Chuva, descobrimos os segredos do éter, e no quarto volume essa magia já está mais presente. O novo livro começa com a inauguração do primeiro trem.”

No universo criado por Draccon, a fantasia tem uma face mais mundana, diferente do escritor brasileiro Eduardo Spohr, autor da saga de sucesso da A Batalha do Apocalipse, que aposta em uma conjunção de seres sobrenaturais e uma batalha entre anjos e demônios. Para Draccon, Dragões de Éter une diversas referências, da adolescência, dos games e da animação. “Impossível não falar de Caverna do Dragão, uma história sombria mas que ganhava um tom suave pela perspectiva dos personagens. Eram jovens que só queriam voltar para o shopping para comer hambúrguer”, conta Draccon. 

A franquia Final Fantasy também tem seu eco na obra do escritor. À primeira vista, o amontoado de pixels nos games escondia uma trama mais madura que a tecnologia da época. “Era uma metáfora da vida espiritual”, diz. “Apesar do visual estranho, havia uma história profunda sobre vida e morte.”

Reunir as coisas de que mais gosta fez de Draccon um escritor que reunia fãs da saga em toda edição da Bienal do Livro. Eram inúmeros visitantes fantasiados de seus personagens preferidos. A exceção foi 2020, já que o evento foi realizado virtualmente por causa da pandemia de covid-19. Draccon participou da última edição direto de Los Angeles e lembra que a feira brasileira sempre despertou espanto nos escritores estrangeiros. 

“Durante a Bienal, os autores de outros países se surpreendem com a recepção brasileira”, diz. “Os brasileiros são emotivos, se interessam pelos autores e gostam de contar como aquele livro mudou a vida deles. Fora do Brasil não é assim. No máximo, o autor lê trechos e depois autografa os livros. Aqui, eles se sentem verdadeiras estrelas.”

Há cinco anos vivendo nos EUA, Draccon teve seu mundo recriado mais uma vez. Como se não bastasse virar versos de Emicida, o escritor agora também é personagem da DC Comics. No livro Batman – Criaturas da Noite (Editora Arqueiro), a escritora Mary Lu, colega de Draccon, e Carolina, imagina a vida de Bruce Wayne prestes a fazer 18 anos. Na época, James Gordon ainda não era membro da famosa comissão da polícia de Gotham City, então, a autora inventou uma personagem especial. Seu nome? Carolina Draccon. “Eu achando que já tinha ficado famoso com a música do Emicida, agora entrei para a cultura pop americana”, celebra o escritor.

Draccon usa sua experiência na invenção de novos mundos em séries como O Escolhido e Cidade Invisível

A experiência de Raphael Draccon na invenção de novos mundos proporcionou a ele diferentes estilos de criação. A série O Escolhido, lançada em 2019 na Netflix, foi uma das primeiras apostas do escritor na adaptação de uma produção para o streaming. 

Na trama de seis episódios, três jovens médicos viajam até uma aldeia no Pantanal para vacinar moradores contra o vírus zika. Os profissionais acabam presos na comunidade e precisam enfrentar o líder de um estranho culto capaz de curar doenças de maneira sobrenatural. 

A história é inspirada na série mexicana Niño Santo (2015), produzida por Gael Garcia Bernal e Diego Luna. O roteiro semelhante se confunde com o clima tropical da nossa região e a forte religiosidade brasileira, elementos que despertaram o interesse da Netflix na adaptação, tocada por Draccon e Carolina Munhóz. 

Para criar O Escolhido, ele explica que precisou ressaltar as raízes brasileiras. “Na época, a zika estava aterrorizando o Brasil, preocupando muita gente. Esse clima sombrio foi trazido, além de reforçar um povo com espiritualidade desenvolvida. O Brasil é um país mais espírita que a França, onde surgiu a doutrina.”

Ainda no streaming, um trabalho diverso se deu na série Cidade Invisível, que estreia em 5 de fevereiro. Capitaneada pelo diretor e animador Carlos Saldanha, a produção original da Netflix reúne figuras famosas do folclore brasileiro – o Saci-Pererê, a Cuca e o Curupira – em uma trama de investigação. Na série, a contribuição de Draccon foi com a chamada “bíblia” da produção, um guia com as principais informações a respeito das personagens, os lugares em que a história acontece e os conflitos enfrentados. 

Entre a produção original e o material de Draccon, há algumas diferenças. Na série, Pigossi interpreta um fiscal ambiental que busca explicações sobre a misteriosa morte de sua mulher. “Inicialmente, ele foi criado como um detetive da polícia civil”, aponta o escritor. E algumas surpresas. “O nome do personagem que faz o Saci veio de um anagrama, ao embaralhar as letras. Ele se chama Isaac.” 

Três perguntas para Raphael Draccon 

Você vive em Los Angeles. Quais foram os efeitos da pandemia no ano passado na região? 

A confirmação de que se tratava de algo série veio quando soubemos que Las Vegas tinha fechado. Algumas pessoas se mudaram para outras cidades e passaram a trabalhar remotamente. Eu planejava uma visita ao Brasil para participar da Bienal, mas a edição foi realizada virtualmente.

Estandartes de Névoa é o quarto volume da saga Dragões de Éter. Qual a principal mudança nessa fase final da história? 

Em Caçadores de Bruxas, o ambiente era medieval, com reis e rainhas. Com a descoberta do éter e seu uso na magia, o mundo passou a se desenvolver. O novo livro se passa cinco anos depois do terceiro e começa com um grande momento para a tecnologia com a inauguração da primeira estação de trem. Os personagens também cresceram, com seus 20 anos. O que sinto de muitos leitores é que eles amadureceram.

Você já trabalhou em adaptações de histórias em séries. O público pode aguardar uma adaptação sua de Dragões de Éter para o streaming?

Quando morava no Brasil, apresentei um projeto para uma série inspirada na saga, mas sempre havia impedimentos que afetavam o roteiro. É uma história de fantasia, por isso, o orçamento é um desafio. Aqui nos EUA, já tivemos reuniões e conversas com plataformas conhecidas, como a Netflix, na Espanha. Nossos agentes já enviaram algumas propostas. A possibilidade existe. 

 

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