Universidade dos EUA faz ‘Copa do Mundo’ em favor da literatura estrangeira

Rochester University promove competição entre livros para divulgar obras traduzidas no mercado americano

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

13 Junho 2014 | 02h00

Chico Buarque entrou em campo nesta quinta-feira e conquistou, para o Brasil, a primeira vitória na Copa do Mundo: bem, pelo menos a primeira na World Cup of Literature (WCL), realizada pelo Three Percent, um programa da Universidade de Rochester, nos EUA, voltado à divulgação da literatura estrangeira.

A competição funciona assim: dois livros – cada um representando um país – são colocados frente a frente, um “juiz” elabora um jogo (em formato de resenha) e define um placar final e o vencedor. O sistema é eliminatório e cada país que joga a Copa do Mundo tem um representante no projeto (veja abaixo alguns dos candidatos). Os "jogos" acontecem no site do projeto na web.

Na medida em que a competição avança, mais juízes são envolvidos em um mesmo jogo. O perfil dos “árbitros” é variado, mas envolve pessoas ligadas ao mercado editorial, aos estudos acadêmicos, tradutores, livreiros e leitores de maneira geral.

“Por que não usar o maior espetáculo do futebol para atrair atenção para a literatura internacional?”, diz o organizador do projeto e diretor da editora da Universidade de Rochester, Chad W. Post. Ele ainda tentou, na medida do possível, coincidir características da literatura de cada autor com o estilo da seleção atual de cada país. 

Ele cita The Pale King, de David Foster Wallace, que “joga” como a seleção americana. “Assim como o USMNT (sigla pela qual o time americano é conhecido), é algo incompleto”, brinca. “É um monte de partes tentando formar um conjunto, uma defesa vacilante, e trata do tédio, que é como muitos norte-americanos veem o futebol.”

“Por outro lado, Javier Marías, com Seu Rosto Amanhã, dá corpo à seleção espanhola na medida em que sua literatura tem tantos passes/sentenças ‘de lado’, o jeito que ele controla ‘a bola’, sua ambição, a construção até o ‘gol’”, continua.

O projeto que Post lidera é batizado “Three Percent” em uma referência à quantidade de traduções no mercado editorial americano (3% do total de publicações) – quando o assunto é ficção e poesia estrangeira, esse número passa a 0,7%. Número estranho ao leitor acostumado ao mercado brasileiro.

“Para explicar, seria necessário um livro”, diz Post, autor de The Three Percent Problem, sua própria tentativa. “Mas em poucas palavras, é uma questão de lucros. É mais barato publicar livros em inglês, e mais provável que se venda mais unidades, já que os autores estão disponíveis para turnês, lançamentos, etc.” Com literatura em outras línguas, as grandes editoras não lucram com direitos autorais.

“Se mais livros traduzidos são publicados, toda a estrutura de grandes adiantamentos, o volumoso trabalho de marketing, as vendas de seis dígitos para as editoras estrangeiras, tudo isso vai por água abaixo.”

No Brasil. A Copa de Literatura Brasileira já realizou cinco edições desde 2007. Em 2013, o campeão foi Diário da Queda, de Michel Laub, em uma decisão equilibrada contra O Sonâmbulo Amador, de José Luiz Passos.

“O objetivo verdadeiro é falar (e fazer falar) de literatura brasileira – para o bem ou para o mal”, diz Lucas Murtinho, um dos organizadores. Para 2014 não está prevista uma edição.

Também no ano passado, a “competição” ganhou destaque quando o autor de um dos livros selecionados – Paulo Scott, de O Habitante Irreal – não viu a brincadeira com bons olhos e pediu para o seu livro ser retirado, alegando que não queria um de seus livros nesse tipo de disputa. O pedido foi negado pela organização.

“Lamento que a Organização do evento sustente esse equívoco tremendo, lamento profundamente que o sustente de maneira impositiva, tributária, afrontando os direitos autorais morais de um escritor”, escreveu Scott em seu Facebook. 

Para Murtinho, as críticas sobre a superficialidade da Copa são válidas até certo ponto. “Para quem acha que ‘literatura é coisa séria’, a Copa pode ser até meio ofensiva. Somos um torneiozinho online, organizado com pouco tempo. Quem não gosta da ideia pode ignorá-la com bastante facilidade.”

Em campo – confira alguns dos livros que entram em campo na WCL:

Noturno do Chile

Embora o futebol chileno até hoje não tenha reunido um time campeão, Bolaño é um verdadeiro fenômeno. As poucas mais de 100 páginas desse Noturno vão assustar os adversários.

Seu Rosto Amanhã

No futebol atual, não há dúvidas: a Espanha montou uma equipe mais do que respeitável. Não é diferente com Javier Marías, autor de romances aclamados pela crítica e representado aqui pela trilogia com mais de mil páginas.

Budapeste

Vá lá: o romance de Chico Buarque pode não ser o mais representativo da literatura brasileira contemporânea, mas só o nome do grande compositor já desperta a simpatia para a amarelinha.

The Pale King

O negócio dos EUA definitivamente não é futebol, mas é difícil torcer o nariz para a “América” quando o assunto é literatura. David Foster Wallace representa bem os americanos.

Memórias de Minhas Putas Tristes

Esse também não é o melhor romance de García Márquez, mas o colombiano é o único Prêmio Nobel na lista, que tem, apenas, livros publicados a partir de 2000. A camisa não vai pesar.

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