Juan Carlos Rojas/Notimex
Juan Carlos Rojas/Notimex

Umberto Eco lança 'Numero Zero', seu sétimo romance

História é uma espécie de manual do mau jornalismo, ambientada em uma redação imaginária

Kelly Velasquez, AFP

19 Janeiro 2015 | 03h00

ROMA-O famoso escritor e ensaísta italiano Umberto Eco lança esta semana na Itália seu último romance, Numero Zero, uma espécie de manual do mau jornalismo, ambientado na redação de um jornal imaginário.

A nova obra do influente intelectual italiano, autor do célebre romance O Nome da Rosa, de 1980, e de importantes tratados de semiótica, é uma história de ficção, que se passa em 1992, um ano peculiar para a Itália contemporânea, marcado pelos escândalos de corrupção e pela investigação Mani Pulite (Mãos Limpas) que arrasou com boa parte da classe política de então.

O livro se concentra principalmente nos mistérios não resolvidos que abalaram a Itália daquela época, como o que teve como protagonista a loja maçônica Propaganda 2 (P2) do temido Lucio Gelli, que aspirava a dar um “golpe branco”.


“É o primeiro romance de Eco que fala de uma época tão recente”, diz Elisabetta Sgarbi, diretora da editora Bompiani.

Eco, que acaba de completar 83 anos, descreve a redação imaginária de um jornal, criado naquele ano, para “desinformar”, “difamar adversários”, “chantagear”, “manipular”, elaborar “dossiês” e documentos secretos.

“Para mim é um manual de comunicação dos nossos dias”, afirma Roberto Saviano, famoso jornalista italiano que escreveu sobre a máfia, e hoje anda com guarda-costas por causa das ameaças de morte que recebe das organizações criminosas.

Numa conversa entre Eco e Saviano, publicada pela revista L’Espresso, Eco reafirma que não quis escrever um “tratado de jornalismo”, mas contar uma história sobre “os limites da informação”, sobre o funcionamento de uma “máquina para enlamear” e não tanto sobre o ofício de informar.

“Escolhi o pior caso. Quis dar uma imagem grotesca do mundo, embora a engrenagem da máquina de enlamear, de lançar insinuações já fosse usada durante a Inquisição”, disse Eco.

Saviano, que considera que as redes sociais multiplicaram a maneira de enlamear produzindo verdadeiros “monstros”, acredita que o magnata das comunicações e ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi marcou o início desta era, entre fofocas e informação, vida e vícios tanto privados quanto públicos.

“Escolhi 1992 porque acho que este ano marca o momento de um declínio da sociedade italiana”, afirmou Eco em uma entrevista ao Corriere della Sera.

No livro, ele se diverte citando frases célebres ou lugares-comuns do jornalismo como “no olho do furacão”, “sair do túnel, “um duro revés” ou “com a água até o pescoço”.

“Não é necessário estrangular a avó para perder a credibilidade. Basta contar que o juiz usa meias alaranjadas. Por que será?”, questionou Eco, citando um caso verídico em entrevista à RAI.

Graças aos delírios de um redator paranoico, ele narra fatos reais, mas reconstruídos com base em teorias estrambóticas ou que se entrelaçam estranhamente com outras e terminam por criar uma nova notícia.

É o caso da loja maçônica P2, do suposto assassinato do papa Luciani, João Paulo I, dos cúmplices das brigadas vermelhas que trabalhavam para os serviços secretos, dos tentáculos da CIA, dos atentados e até de um falso cadáver de Benito Mussolini com o qual foi possível salvá-lo e enviá-lo para a Argentina.

São todas histórias e o leitor não conseguirá determinar se são fatos inventados ou da descrição da realidade, segundo o escritor.

Numero Zero é o sétimo romance de Umberto Eco, que já publicou, entre outros, O Cemitério de Praga, de 2010, e O Pêndulo de Foucault, de 1988. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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