Andrea Barbiroli/Estadão
Andrea Barbiroli/Estadão

Umberto Eco apresenta suas ideias sobre o sagrado, o fascismo e outros temas em dois lançamentos

'Nos Ombros dos Gigantes' e 'O Fascismo Eterno' reúnem palestras proferidas pelo escritor e semiólogo italiano Umberto Eco nos anos 1990 e 2000; 'O Nome da Rosa' ganha nova edição

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2018 | 03h00

Foi a partir de um aforismo do genial matemático Isaac Newton (“Se eu vi mais longe, é por estar nos ombros de gigantes”) que outro artista não menos notável, o escritor e semiólogo italiano Umberto Eco (1932-2016), criou uma bela cena para seu romance O Nome da Rosa em que ressalta o dom do artista de vislumbrar o futuro. Pois é justamente Nos Ombros dos Gigantes o título de um volume agora lançado pela editora Record, que reúne palestras proferidas pelo autor no festival La Milanesiana, em Milão, entre 2001 e 2015.

São textos em que Eco, como poucos, sabia unir erudição e clareza para tratar de temas aparentemente banais como beleza, feiura, invisível e segredo. Complementando o que chama de a essência de Umberto Eco, a Record lança ainda outro volume, O Fascismo Eterno, que traz a íntegra de uma palestra proferida nos anos 1990, nos EUA. E, para fechar uma trinca respeitável, a editora oferece uma edição de colecionador de seu principal best-seller, O Nome da Rosa, com tradução revista por Ivone Benedetti – esse volume terá venda exclusiva pelo site da Amazon.

O festival La Milanesiana foi criado em 2000 pela escritora e cineasta italiana Elisabetta Sgarbi com a intenção de discutir literatura, música, cinema, ciência, arte, filosofia e teatro. Em pouco tempo, as palestras de Eco se tornaram o ponto alto do evento, atraindo pequenas multidões. Logo no texto que abre a antologia, justamente o que dá título ao volume, Nos Ombros dos Gigantes, Eco traça uma linha cronológica dos grandes pensadores que influenciaram uns aos outros, uma relação semelhante à de pais e filhos: conflitantes e, ao mesmo tempo, estimulantes.

“Estamos entrando em uma nova era”, escreve ele, em 2001, “na qual, com o ocaso das ideologias, o desvanecimento das divisões tradicionais entre direita e esquerda, progressistas e conservadores, se atenua definitivamente qualquer conflito geracional”. E questiona: “Mas seria biologicamente recomendável que a revolta dos filhos representasse apenas uma adequação superficial aos modelos de revolta oferecidos pelos pais, e que os pais devorassem os filhos presenteando-os simplesmente com espaços de marginalização multifacetada?”.

Em seus colóquios, Eco costumava apresentar slides com reproduções de obras de arte que exemplificavam seus conceitos. O livro traz, portanto, entre os 12 textos, quase 150 imagens de quadros, esculturas e outros grandes momentos da criação artística ao longo de cinco séculos. O trabalho iconográfico é especialmente interessante no último capítulo que trata sobre o sagrado. É quando Eco se deleita (e também o leitor) ao apresentar uma vasta iconografia sacra com criações de Caravaggio, Tintoretto, Giorgione, Lorenzo Lotto e Carlo Maratta. 

A própria capa do livro traz como imagem o retrato que William Blake pintou de um Isaac Newton jovem – musculoso, portanto –, uma surpresa diante do habitual senhor, com ar de pensador, com que o público se acostumou a identificar o físico e matemático. A ilustração refere-se à palestra dedicada ao Absoluto e Relativo, especialmente na passagem em que Eco confronta a visão do mundo dos holistas.

Eco é hábil em sua argumentação, pela qual transmite definições que, se parecem definitivas, servem na verdade para abrir debates. Em seu entendimento, por exemplo, a beleza e a feiura devem ser entendidas segundo o momento histórico e os cânones estéticos dominantes. Eco reflete também sobre como o ato de se montar uma lista com preferências muda com o decorrer dos séculos, o que acaba expressando o seu próprio tempo.

Em sua última participação no festival, em 2015, o intelectual italiano se apoia no pensamento do filósofo austríaco Karl Popper (considerado um dos mais influentes do século 20 a tematizar a ciência) e do historiador americano Daniel Pipes (figura midiática do neoconservadorismo nos EUA) para investigar a fixação da humanidade por teorias conspiratórias. “De fato, se estou convencido de que a história do mundo é dirigida por sociedades secretas que estão prestes a instaurar uma nova ordem mundial, o que posso eu fazer? Só me render e me angustiar. Portanto, as teorias da conspiração direcionam a imaginação pública para perigos inexistentes, distraindo-a das ameaças autênticas”, alerta.

O Fascismo Eterno traz uma conferência pronunciada em um simpósio organizado pela Columbia University, em 1995, para celebrar a libertação da Europa na 2.ª Guerra Mundial. “É importante lembrar que o texto foi pensado para um público de estudantes americanos e que a conferência ocorreu naqueles dias em que a América havia sido sacudida pelo atentado de Oklahoma e pela descoberta do fato (nem um pouco secreto, aliás) de que existiam organizações militares de extrema direita nos EUA”, escreve Eco, no prólogo. “Naquelas circunstâncias, o tema do antifascismo assumia contornos particulares, e a reflexão histórica pretendia estimular uma reflexão sobre problemas da atualidade de diversos países.”

NOS OMBROS DOS GIGANTES

Autor: Umberto Eco

Tradução: Eliana Aguiar

Editora: Record 

(444 págs., R$ 199,90)

O FASCISMO ETERNO

Autor: Umberto Eco

Tradução: Eliana Aguiar

Editora: Record (64 págs., R$ 29,90)

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.