Uma reflexão sobre a verdade existencial do Holocausto

Livro dá voz a judeus que sobreviveram ao genocídio para negar que eles tenham sido passivos ante os nazistas

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2014 | 03h00

Depois da Segunda Guerra, Fritz Stangl, ex-comandante do campo de concentração de Treblinka, comparou os passivos prisioneiros judeus a lemingues, pequenos roedores que, de tão dóceis, são usados como cobaias em laboratórios. A imagem de judeus deixando-se conduzir para as câmaras de gás como o gado que vai para o matadouro cristalizou-se na historiografia do Holocausto, sobretudo diante dos raros exemplos de resistência. Mas o recém-lançado livro Holocausto – Vivência e Retransmissão, da psicóloga Sofia Débora Levy, pretende questionar essa ideia – e o faz dando voz às próprias vítimas.

Para seus propósitos, Levy recorre à negação do que ela chama de “história tradicional”, responsável em parte, segundo seu raciocínio, pelo “aviltamento” da memória dos que sofreram a barbárie nazista. A autora faz uma aposta arriscada: joga todas as suas fichas nas lembranças de alguns sobreviventes, cujos relatos seriam, em suas palavras, o “registro fiel” do que aconteceu. Sua intenção declarada é resgatar os judeus como vítimas, e não como colaboradores de seus algozes.

O trabalho de Levy responde diretamente a Hannah Arendt, pensadora alemã que procurou demonstrar como os judeus, em especial sua liderança comunitária, aceitaram o jogo proposto pelos nazistas – em grande medida porque o regime totalitário não lhes dava outra opção.

Levy argumenta que procurar sobreviver em meio ao colapso da civilização era uma forma de resistência. Seria, como ela definiu, “frustrar os planos genocidas dos nazistas”. Assim, por meio de entrevistas com sobreviventes hoje residentes no Brasil, a psicóloga buscou “repensar conjunturas”, para acabar com o que ela chama de “estigma” dos que não enfrentaram o inimigo.

O método da autora é controverso. Ao construir seu argumento baseando-se em relatos certamente impregnados de lacunas e distorções, Levy não quer conhecer a história em si, mas o processo pelo qual seus atores apreenderam a realidade e como eles rememoram sua tragédia. Quer entender como um ser humano, quando submetido à violência extrema e à desintegração dos valores morais, ainda consegue guardar um fiapo de humanidade que o faz ter esperança.

Para a autora, essa dimensão da história – em que a abordagem factual, “distanciada e fria”, fica em segundo plano ante a “verdade existencial” das vítimas – não está, mas deveria estar, na historiografia “formal”. De acordo com essa visão, que Levy chama de “compreensivista”, os judeus não podem ser julgados “dentro dos parâmetros da normalidade”, pois “aquela não era uma situação normal”. A autora parece dizer que, ao problematizar o comportamento das vítimas à luz de padrões racionais, Arendt e outros estariam ignorando a experiência singular pela qual elas passaram.

E essa experiência traz mais perguntas que respostas. Questionado sobre o dramático esgarçamento da solidariedade entre os judeus em meio ao pesadelo nazista, um dos sobreviventes entrevistados por Levy diz, simplesmente: “Não tenho explicação para isso”.

HOLOCAUSTO:VIVÊNCIA E RETRANSMISSÃO

Autora: Sofia Débora Levy

Editora: Perspectiva (216 págs., R$ 49)

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