Uma paixão que vem da infância

Quer ver um marmanjo abrir a guarda e voltar a ser moleque? Faça-o falar de futebol. Provoque o debate em torno da bola e verá como a sisudez cai por terra com mais velocidade do que atacante habilidoso atropelado por zagueiro botinudo. Quer ler tentativas de resgatar a infância? Convide jornalistas, poetas, médicos, historiadores, psicanalistas, advogados, sociólogos a discorrerem sobre esporte tão fascinante e desdenhado, contraditório e único. A maioria vai despir a casaca para mergulhar no passado.

Antero Greco,

10 de junho de 2009 | 10h55

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A prova de que a criança está sempre à espreita para ressurgir no adulto se espalha pelas 164 páginas de A Cabeça do Futebol (Editora Casa das Musas). Carlos Magno Araújo, Samarone Lima e Gustavo de Castro, organizadores (e coautores), convocaram colaboradores de formação variada para escreverem sobre futebol. Tema popular, que aos poucos rompe preconceitos e que nos últimos anos passou a frequentar com destaque estantes de livrarias.

 

Muitos dos 28 textos são intimistas, embora fujam à ficção, e dão tom nostálgico ao livro. Menos do que lugar-comum, a referência à infância confirma o óbvio: é de menino que se aprende a amar o futebol, uma das raras paixões duradouras na vida. Nada mais natural, portanto, que seja tema recorrente - e associado a um jogo especial, àquele momento determinante que fixa a opção clubística.

 

A partida inesquecível em geral não é final de Copa do Mundo, mas vale tanto quanto. Ou mais. Pode ser um Ceub X América-RN disputado em 1975, em Brasília (No Tempo de Jacaré e Pablito Calvo, de Carlos Magno Araújo), ou Santos X Ponte, na despedida de Pelé (O Dia em Que Virei Santista, de José Roberto Torero). Quem sabe um tradicionalíssimo Fla-Flu (O Jogo, de Moacy Cirne), ou um duelo com a carga dramática de Fla X Vasco (Ele Sempre Será, de Rubens Lemos Filho).

 

O cenário pouco importa, porque o encantamento aos olhos do menino sempre é intenso. Forte, também, é a figura paterna. Afinal, reza a lenda que a primeira experiência em um estádio de futebol costuma ser conduzida pelas mãos do pai. Pai que pode também ir ao campo só para proteger o filho da mira de esbirros do autoritarismo ("A ditadura não é mais forte do que o amor de um pai", de Juca Kfouri).

 

A paixão que vem da época das calças curtas é ponto de partida de análises minuciosas de Luiz Zanin Oricchio e Daniel Piza, polivalentes que flutuam pelo Caderno 2, o Cultura e, de quebra, são Boleiros no caderno de Esportes do Estado. Em Bola de Meia, Piza mergulha, dentre outros aspectos, em mudanças táticas, de preparação física e financeiras pelas quais passou o futebol, que no fundo se exprime mesmo com força "naquela bolinha de meia que um menino gosta de ficar rolando e chutando sem parar, marcando golaços imaginários". Zanin constata, em Futebol, que deve ao Santos dos anos 60 "uma certa noção de elegância e beleza" que norteia sua vida. Nesse jogo, ganha quem os lê.

 

Serviço

A Cabeça do Futebol. Vários autores. 166 págs. R$ 25. Livraria Cultura Shopping Villa-Lobos. Av. Nações Unidas, 4.777, 3024-3599. Lançamento hoje, às 19h30

 

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