Uma obra intelectual e popular

Análise da produção do dramaturgo siciliano, Prêmio Nobel de 1937, sublinhou o encontro entre sofisticação e leveza

Sábato Magaldi,

18 Junho 2011 | 06h00

Pirandello popular

 

Não é demagogia, não. Não é querer enquadrar Pirandello num conceito da moda, por equivoco ou calculo. Estamos quase incorrendo numa duvida que poderia pertencer ao anedotario pirandelliano: gostaremos de um autor porque responde aos nossos anseios e o deformamos segundo a nossa verdade ou o autor, quando possui de fato grande riqueza, tem o poder de revelar-se em multiplas faces? A resposta a essa pergunta, eivada de inutilidade, não se modificaria, de qualquer forma. Pirandello, o complexo e cerebral dramaturgo siciliano, filia-se á decantada corrente do teatro popular. Ou, para sermos mais precisos e não admitirmos o erro de falsa generalização: ele é também um autor popular.

 

Quando a "filosofia" de Pirandello foi digerida deixou de chocar o publico e se definiu quase como um facil lugar-comum, suas peças não fugiram dos cartazes nem se empoeiram nas estantes, para delicia dos dissecadores. Não interessaram aos conjuntos, também, porque eram assimilaveis pela platéia burguesa, estimulada pelo possivel simulacro de inteligencia, tipico dos jogos intelectuais. Continuaram a ser representadas por causa de sua clarissima teatralidade. Ou, o que não é muito diverso, pela extraordinaria seiva de vida.

 

E' certo que, na obra pirandelliana, observa-se uma gradação dos motivos cerebrais e populares; alguns textos mostraram-se mais representativos do emaranhado intelectual em que se lançou, enquanto outros estão mais presos á chamada realidade objetiva. Seis personagens á procura de um autor e Henrique IV, entre tantas outros peças, seriam exemplos do delirio pirandelliano do raciocinio e da abstração. A talha quebrada (La giara) e O homem, a besta e a virtude (L'uomo, la bestia e la virtù) distinguem-se, ao lado de outros textos, pelo apego instintivo á terra e ao concreto.

 

Sabe-se, porém, como essas supostas antinomias são enganosas, e escondem apenas a incapacidade critica de vislumbrar a sintese pirandelliana, feita de contraditorios elementos. A sintese confere á sua dramaturgia a importante dimensão que a faz uma das mais expressivas do nosso seculo.

 

L'uomo, la bestia e la virtù, que o "Teatro Stabile della Città di Torino" incluiu no repertorio da excursão á America Latina, ilustrando muito bem o titulo generico "II sentimento popolare nel teatro italiano", ressalta como uma das obras em que Pirandello melhor fundiu os esquemas tradicionais do palco com as sugestões imediatas do mundo á volta, naturalmente filtrado pela sua perspectiva pessoal. A dinamica da burla, que remonta á Comedia Nova grega, passando pelo teatro latino e renascentista, aplica-se aqui a uma situação escolhida na sociedade italiana de hoje. No quadro, que é sem duvida menos ambicioso que o de outros trabalhos pirandellianos, sobressai no fim de contas uma intriga muito bem urdida, animada pelo estilo proprio do autor.

 

Pirandello sempre se moveu com inteira liberdade no terreno do grotesco e tudo desemboca no grotesco, em O homem, a besta e a virtude. Nas comedias tradicionais de burla, incidia-se na farsa ou na satira, ou nas duas, simultaneamente. A simples alegria vital de dar ganho de causa aos jovens amorosos, com o ridiculo do vilão, animava o teatro de um otimismo franco, chegando quase ás raias da inconsequencia. O pessimismo basico do sistema pirandelliano não poderia levar o dramaturgo por esse caminho, esvaziando-o da amarga substancia. Na comicidade espontanea ele inoculou, por isso, o esgar do grotesco, e prosseguiu fiel a si mesmo.

 

As situações constrangedoras de amor, resolvidas depois a contento, parecem, no correr da hitoria teatral, a materia-prima da mocidade. Desconfiado e impertinente, Pirandello instila o virus sentimental num solteirão, que por todos os titulos deveria estar empedernido. Paolino, o homem ás voltas com uma paternidade ilegitima, é professor; e professor de latim. Seu mundo habitual confina-se nas aulas prosaicas, em que os alunos procuram apenas safar-se de um dever penoso. O retrato do cotidiano do professor está-se desenhando, no gabinete de trabalho, e vem visitá-lo a sra. Perella, virtuosa mãe de outro aluno, desesperada pela certeza de estar esperando um filho dele. em outras circunstancias, a nova maternidade não teria, talvez, consequencias. Mas, nesse caso, anunciava-se a possibilidade de uma tragedia, porque o marido, o violento capitão Parella, ausente quase sempre nas lides maritimas, há três anos não mantinha relações com a mulher. Como legitimar, então, aquele novo ser? O unico meio era conseguir que o capitão não recusasse, naquela noite, a sra. Perella, porque na manhã seguinte se despediria para uma ausencia de mais dois meses. Encontra-se o professor, assim, na contingencia de colaborar para que o marido, seu rival, se reconcilie, ao menos momentaneamente, com a mulher. O receituario popular preceitua, para essas dificuldades, poções e filtros magicos. O amigo medico, irmão de um farmaceutico, prescreverá a "mandragora" milagrosa, capaz de despertar o capitão para os encantos da sra. Perella. O proprio professor incumbe-se de tornar esses encantos, normalmente acobertados num véu de recato e pudor, visiveis para o apetite pouco sutil do marido. Há angustia, provocada pela longa espera (na comedia tradicional opõe-se sempre um obstaculos ao herói, que acaba por transpô-lo), mas no final prevalece a certeza de que a criança poderá nascer, sob a tranquilizadora custodia do capitão.

 

Torna-se superfluo verificar se o exito do ardil se deve aos efeitos da droga ou á beleza da mulher subitamente redescoberta pelo marido. Pirandello começa a introduzir, nesse passo, o seu processo de caracterização das personagens. O professor tinha sensibilidade para compreender o drama da sra. Perella e ver-se atraido pelos seus encantos. A virtude, o recato e o sofrimento silencioso representavam para ele a personalidade da amante. Essas qualidades nada podiam dizer ao primario capitão. Por isso, o professor pinta-a com exagero, abre-lhe ostensivos decotes, para que ela se assemelhe a uma mulher vulgar. "Você está como deve ser para ele!" e "você dará essa mascara á sua bestialidade!" - argumenta Paolino. Sempre, na analise pirandelliana, esse conceito, segundo o qual a criatura humana se desdobra nas diversas imagens que oferece aos outros, definindo-se pelas aparencias que os diferentes contempladores vêem nela. O subjetivismo das relações humanas não nos permite ser um, mas tantas quantas são as pessoas que se comunicam conosco.

 

Só no raciocínio que o professor faz para distinguir as duas mulheres que poderia haver na sra. Perella - a que agrada a ele e a que estava em condições de agradar ao capitão - já se percebe, dentro da burla mais popular, a indefectivel formula pirandeliana. A maquina de pensar está presente em todas as atitudes de Paolino. Desde as desculpas par encerrar os dois alunos num recinto irrespiravel e sem luz, ao dialogo com o medico, aos argumentos para diminuir as notas escolares de Nonó e á conclusão de que as suas insuficiencias vinham da circunstancia de ser filho unico, tentando assim convencer o sr. Perella a admitir um segundo filho - tudo comprova, em L'uomo, la bestia e la virtù, que Pirandello não aboliu o raciocinio em favor de uma brincadeira, mas juntou admiravelmente o instinto á sua mais exigente logica.

 

Toda vez que uma peça tem uma intriga dominante, que precisa ser resolvida, as personagens secundárias movem-se em função dela e dificilmente adquirem maior consistencia. O farmaceutico e o medico surgem na trama apenas para propiciar os designios do professor, e, cumprida a missão, desaparecem do cenario. As outras personagens mal superaram a categoria de figurantes: as criadas, o marinheiro, os alunos. Importam ao texto apenas para compor a paisagem cotidiana em que Pirandello nunca deixou de situar as suas mais malabaristicas digressões.

 

A sra. Perella, como tantas criaturas da galeria feminina de Pirandello, existe sobretudo como presença, acionada pela vontade do professor. Ao saber que o marido chegava e a gravidez logo se tornaria visivel, pede socorro a Paolino, e se limita depois a cumprir as determinações dele. Embora a exibição fosse estranha ao seu feitio, ela não se nega a oferecer-se ridiculamente ao marido já que nessa atitude estava a unica possibilidade de salvar-se. Como conciliar o procedimento da sra. Perella com os aparentemente contraditorios elogios que faz de sua virtude o professor? Para responder á pergunta, precisamos sair do ambito estrito da historia, a fim de examinar a situação em que ela decorre. A sra. Perella era, sem duvida, substancialmente honesta. No casamento, cujos moveis não são discutidos na trama, houve apenas um erro de pessoa: o capitão não era o homem que pudesse apreciá-la. Ambos são vitimas da educação convencional; ele, marcado pela impossibilidade de ver na mesma mulher a esposa e a amante; ela, timida e passiva, tendo fracassado na tarefa de unir as duas. Em outra sociedade, mais avançada, a sra. Perella simplesmente se afastaria do capitão, depois que se desfez a vida em comum. O lugarejo provinciano da Italia tolhia-lhe esse caminho, e só lhe restava a resignação ou a entrega ao instinto. Pirandello, apesar de todo o cerebralismo em que pensaram contê-lo, nunca suprimiu, contudo, o instinto, e este impôs-se á virtuosa sra. Perella. Pode-se acusar de imoral o desfecho da comedia? Na verdade, nenhuma etica superior ditou o arranjo da trama. O professor, que deveria assumir o onus da paternidade, preferiu a solução facil, que era deixá-la em nome do pai legal. Conclui-se que há indisfarçavel hipocrisia no exito da burla, mas hipocrisia determinada pela falsidade da organização social.

 

O desencadeamento do instinto acaba aí, como é caracteristico na obra de Pirandello, por aprisionar-se na forma. A indisciplina interna, provocadora de inevitavel quebra dos valores estabelecidos, não pode chegar ás ultimas consequencias, e leva, por ironia, ao aparente fortalecimento da ordem. O matrimonio parece sedimentar-se, na divertida historia do casal Perella. Nessa contradição, cifra-se a amargura do mundo pirandeliano. Mas não se encerra assim o processo do dramaturgo: paradoxalmente, também, como se pode observar até na sua ultima peça - Os gigantes da montanha - a Forma gera a Vida. A aparencia exterior não se alterou, consolidando o irremediavel desentendimento do casal, mas uma criança nascerá, de qualquer modo, do equivoco. Vida incontrolavel que, em pouco tempo, vai estourar. Daí a alegria final dessa parabola sobre o homem, a besta e a virtude.

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