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Uma disciplina chamada mentira

A leitura de bons livros de ciências humanas e literatura teria enriquecido a formação dos oficiais diplomados na década de 1970, agora donos do poder

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 03h00

O presidente do Brasil e vários de seus ministros-generais estudaram na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ). A Aman forma profissionais em estratégias de guerra, defesa territorial, teoria e práticas militares, etc. Essa formação inclui também disciplinas de ciências humanas e exatas.

Numa boa reportagem de Júlia Dias Carneiro, publicada pela BBC Brasil em 2 de janeiro de 2019, o coronel João Augusto Vargas Ávila, chefe da divisão de ensino da Aman, declarou que a graduação nessa Academia “soma 8.200 horas de aula, superando cursos como Medicina, Direito e Engenharias”. Em seguida, ressaltou: “Nossos alunos são disponíveis 24 horas por dia e o modelo pedagógico é muito diferente de uma universidade civil. Temos um sistema de avaliação continuada envolvendo a parte cognitiva, psicomotora e afetiva. É o que chamamos de avaliação atitudinal”.

Apesar da alta carga horária, muitos brasileiros se perguntam o que o presidente teria aprendido nas disciplinas de filosofia, psicologia, sociologia, história, língua portuguesa e matemática. São perguntas pertinentes, pois um estudante de 13 anos de idade sabe calcular operações numéricas simples, como (-4) + 5 = 1. No cálculo do presidente, o resultado é 9. Foi assim que ele previu um crescimento anual de 9% do PIB. 

Quanto à sua formação em ciências humanas, não se sabe que livros leu, se é que leu algum, exceto o de seu ídolo, um dos torturadores mais atrozes da ditadura. Mas há outras lacunas graves na formação intelectual e moral de Jair Messias Bolsonaro. Sabe-se que nas academias e colégios militares, a mentira e a indisciplina são consideradas desvios graves, sujeitos à punição. Em abril de 1988, o Conselho de Justificação Militar julgou e condenou por desvios gravíssimos o então capitão Bolsonaro. Meses depois, ele foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar. Mas nas duras acusações do CJM constam “conduta irregular”, “práticas de atos que afetam a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe”, “desvio grave de personalidade e uma deformação profissional”, “falta de coragem moral para sair do Exército” e “ter mentido ao longo de todo o processo”. O jornalista Luiz Maklouf Carvalho analisa minuciosamente esse processo no livro O Cadete e o Capitão (ed. Todavia). 

Tudo indica que a “avaliação atitudinal” do cadete Jair Messias não foi feita com um mínimo de rigor e seriedade. A “parte cognitiva” dele é lamentável; a psicomotora – expressa por escárnios e surtos agressivos constantes – é desastrosa; e a afetiva, nula. Basta mencionar uma de suas deploráveis declarações sobre as vítimas da pandemia: “A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”. 

Sim, a morte é o destino de todos. Mas, em situações ou períodos catastróficos, cabe ao presidente da República prestar solidariedade e expressar compaixão pelos doentes graves e pelas pessoas que perderam familiares e amigos. Nada disso foi feito. Faltou a ele o mínimo de ética ou de consciência moral perante a nação. Uma atitude ética significa, entre outras coisas, assumir um compromisso com a responsabilidade. Dito de outra forma: a irresponsabilidade tem uma relação direta com a falta de ética na política, na vida, nas relações sociais. Fazer uma escolha é um exercício de liberdade; e a liberdade, exercida com responsabilidade, dá dignidade a uma pessoa. 

O presidente tem feito uma escolha que nada tem a ver com liberdade e dignidade. Prova disso são as reiteradas ameaças à realização das eleições de 2022. Não se sabe se ele está blefando, mas ameaçar a democracia já é um exemplo de gravíssima irresponsabilidade.

Algo de errado ocorreu na formação humanista do presidente e de seus ministros-generais. Eles parecem avessos à democracia e às necessidades reais e urgentes dos setores mais fragilizados da nossa sociedade. Talvez desconheçam a biografia do marechal Cândido Rondon, que se relacionou de um modo compreensivo e solidário com os povos originários, e não com o desprezo e a crueldade com que são tratados pelo presidente e pelos atuais dirigentes da Funai. 

A leitura de bons livros de ciências humanas e literatura teria enriquecido a formação dos oficiais diplomados na década de 1970, agora donos do poder. Será que os atuais diretores das divisões de ensino de academias e escolas militares estão interessados numa mínima formação humanista e democrática dos cadetes? 

É uma pergunta legítima para a grande maioria da sociedade civil, que preza a democracia e o Estado de Direito, e rechaça as mentiras superlativas e as ameaças de golpe do presidente e de seus generais. Aliás, essas mentiras, ameaças e pantomimas estão rebaixando o País a uma republiqueta qualquer, e das mais inexpressivas.

É ESCRITOR E ARQUITETO, AUTOR DE ‘DOIS IRMÃOS’ E ‘CINZAS DO NORTE’

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