Sotheby's via The New York Times
Sotheby's via The New York Times

Uma biblioteca perdida da família Brontë aparece

Um tesouro de manuscritos da família no século 19 não vistos no século passado será colocado em leilão na Sotheby’s

Jennifer Schuessler, The New York Times

27 de maio de 2021 | 15h52

Em 2011, um livro miniatura criado por Charlotte Brontë, então com 14 anos, levou a uma guerra de lances que passaram de 1 milhão de dólares. E em 2016, o Brontë Parsonage Museum anunciou ter localizado um livro repleto de rabiscos e inscrições das crianças Brontë (incluindo um poema desconhecido de Charlotte) que sobreviveu a um naufrágio.



E agora, uma coleção valiosa de manuscritos da família Brontë – invisíveis durante um século – será colocada em leilão pela Sotheby's, como parte do que a casa está promovendo como  venda de uma lendária “biblioteca perdida” de tesouros da literatura britânica.

A Honresfield Library, uma coleção privada reunida por dois industriais vitorianos na década de 1930, contém mais de 500 manuscritos, cartas, primeiras edições raras e outros itens de inúmeros autores canônicos, incluindo os manuscritos de Rob Roy, de Walter Scott, e First Commonplace Books de Robert Burns.

Mas este material agora – baseado no alvoroço que envolveu leilões passados de obras de Brontë, e as estimativas no caso presente, provavelmente causará a maior sensação. Entre os pontos altos dos itens no leilão da Sotheby 's em Nova York entre cinco e nove de junho estão um manuscrito à mão de poemas de Emily Brontë, com correções feitas a lápis por Charlotte. O valor estimado é de 1,3 milhão de dólares a 1,8 milhão de dólares.

Esse tesouro inclui ainda cartas, primeiras edições e outras relíquias que oferecem um vislumbre da vida da família Brontë, como um exemplar com muitas anotações de History Of British Birds (História dos Pássaros Britânicos) de Bewick (que aparece nas cenas que abrem Jane Eyre).

Gabriel Heaton, especialista em literatura e manuscritos históricos ingleses, na Sotheby 's, qualificou a Honresfield Library como a de maior qualidade já vista em 20 anos e a obra oculta das irmãs Brontë a mais importante a vir à luz em uma geração.

“A vida dessas irmãs é simplesmente extraordinária”, disse ele durante uma entrevista por vídeo. Ler esses manuscritos “leva você ao momento incrível em que as irmãs faziam seus rabiscos na casa paroquial”.

Claire Harman, autora de Charlotte Brontë: a Fiery Heart, disse ter ficado muito empolgada quando soube do leilão que será realizado online em julho, depois de eventos preliminares em Londres e Edinburgh.

“É incrível”, disse ela. “Estudiosos e leitores sabiam que esses manuscritos existiam, mas você esquece quando estão em mãos privadas”.

A Honresfield Library não ficava muito longe da casa paroquial na extremidade de West Yorkshire, onde Charlotte, Emily, Anne e seu irmão Branwell (nascido entre 1816 e 1820) cresceram criando mundos imaginários elaborados que compartilhavam. A biblioteca foi montada no começo dos anos 1890 por Alfred e William Law, dois proprietários de fábricas e viviam a menos de 30 quilômetros distantes da residência da família Brontë em Haworth (que hoje é o Brontë Parsonage Museum).



A coleção dos irmãos Law, mantida na biblioteca de sua casa, a Honresfield House, incluía o que Heaton chamou de “livros das grandes casas de campo inglesas”, como um primeiro folio de Shakespeare (vendido há muito tempo). Mas os irmãos eram também ávidos colecionadores de manuscritos, tendo adquirido a obra oculta dos Brontë de um marchand que tinha adquirido os trabalhos diretamente do viúvo de Charlotte. William Law também fez visitas frequentes à Haworth para comprar relíquias da família salvas por vizinhos e parentes.

Após a morte dos irmãos Law, a coleção passou para um sobrinho deles que deu a estudiosos o acesso a ela e tinha fac-símiles de alguns itens. Mas após sua morte, em 1939, os originais foram perdidos de vista.

Na década de 1940 a coleção não foi mais localizada, como afirmou um estudioso na época. Nas últimas décadas, alguns artefatos da coleção, como a escrivaninha de Charlotte, foram colocados em leilão. Mas o paradeiro do material restante continuou desconhecido.

“Quando soube pela primeira vez desse material, pensei, “talvez seja essa a coleção? E depois, ao ver que era realmente, foi uma grande emoção”, disse Heaton.

A notícia de que a coleção descoberta seria colocada em leilão em partes separadas não entusiasmou muita gente. Na terça-feira o Brontë Parsonage Museum emitiu declaração pedindo para o material ser “preservado intacto para a nação” e lamentou “a mesquinha comercialização e privatização da herança”.

O material escrito por Emily Brontë é particularmente raro. Não existe nenhum manuscrito de Morro dos Ventos Uivantes, publicado em 1847, um ano antes da morte dela, vítima de tuberculose. Somente duas cartas escritas por ela sobrevivem, disse Heaton.

O material a ser leiloado inclui algumas das “notas diárias'', que Emily e Anne escreviam uma para a outra nos seus aniversários. (Uma delas, de Emily, em 1841, ordena que Anne a leia mais tarde, quando completar 25 anos). Há cartas também de 1840, escritas por Branwell, o Brontë menos conhecido, incluindo uma para Hartley Coleridge, filho de Samuel Taylor Coleridge, com cópias de seus versos e onde descreve suas ambições literárias (nunca realizadas).

Mas o item mais marcante é o manuscrito de 31 poemas escritos à mão por Emily, datado de fevereiro de 1844. Ele não só preserva seus versos como ela os escreveu, disse Harman, mas foi crucial para impulsionar a carreira literária das três irmãs.

Emily escrevia seus poemas em segredo, não tendo intenção de publicá-los. Mas em 1845, é o que se relata, Charlotte se deparou com eles por acaso e os achou extraordinários. Emily, que de início ficou furiosa, concordou em incluí-los num livro de poesia das três irmãs que usaram então o pseudônimo Currer, Ellis e Acton Bell.

Esse volume, publicado em 1846, vendeu apenas dois exemplares. Mas estimulou as irmãs a começarem a escrever seus romances, que se tornaram uma sensação, desencadeando rumores intensos sobre os verdadeiros autores por trás dos pseudônimos – e a obsessão pelas Brontë que continua ainda hoje.

“Se este manuscrito é o que Charlotte leu sub-repticiamente, ele é um testemunho da cena bem intensa entre as irmãs e também uma relíquia literária”, disse Harman.



A coleção em leilão na Sotheby 's inclui outros trabalhos que dão um vislumbre da vida cotidiana na casa paroquial. Durante a entrevista por vídeo, Heaton falou do exemplar em mãos da família do livro History of British Birds, de Bewick, repleto de anotações feitas por Patrick Brontë, pai das irmãs.

Nas primeiras cenas de Jane Eyre, a personagem folheia o livro em busca de um abrigo das tristes circunstâncias em que vive. Na vida real, as irmãs usaram o livro como modelo para suas aulas de desenho, ao passo que o pai o encheu de anotações práticas. (O scoter, uma espécie de pato preto, aparentemente tem um sabor que é uma mistura de carne de vaca e arenque vermelho).

A coleção inclui ainda livros escritos por Charlotte e outros membros da família para Martha Brown, filha de um amigo da família que se mudou quando ela tinha 11 anos de idade, se tornando uma empregada doméstica. Entre esses livros está uma primeira edição de Jane Eyre, e também um guia para cuidados da casa escrito por Charlotte.

Há também primeiras edições do romance de Anne Brontë, Agnes Grey,  e do Morro dos Ventos Uivantes, de Emily. O valor estimado pela Sotheby 's é de 280 mil dólares a 425 mil dólares. Na época, as irmãs teriam se irritado com o trabalho tipográfico da editora.

Heaton apontou outro defeito na cópia de Morro dos Ventos Uivantes: algumas páginas estão fora de ordem.

“O que se insere nas histórias que conhecemos sobre publicações de um romance'', disse ele. “É apenas uma bela prova”.


Tradução de Terezinha Martino.

 

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