Fernando Lemos
Fernando Lemos

Um roteiro de leitura para entrar no universo de Hilda Hilst, homenageada da Flip 2018

Veja seis livros essenciais da escritora Hilda Hilst

Wilson Alves-Bezerra, Especial para O Estado de S. Paulo

21 de julho de 2018 | 06h00

Num livro de 1952 chamado Outras Inquisições, o escritor argentino Jorge Luis Borges dizia sobre Francisco de Quevedo que ele, “como nenhum outro escritor, é menos um homem que uma vasta e complexa literatura”. A brasileira Hilda Hilst é também uma vasta, complexa e obscena literatura. 

É certo que teve bons leitores em vida – como Anatol Rosenfeld, Claudio Willer, Renata Pallottini, Nelly Novaes Coelho e Alcir Pécora, entre outros – que ofereceram a seus textos, tão diversos, leituras potentes; e teve ainda editores cientes de sua importância, como Massao Ohno. 

+++ Homenagem na Flip 2018 intensifica a presença de Hilda Hilst nas livrarias

Mas, após quase 20 anos do primeiro lançamento de suas Obras Completas, ainda é uma autora por ser descoberta. 

Os novos lançamentos e relançamentos, por ocasião da Festa Literária Internacional de Paraty, que começa na quarta-feira, 25, e que presta homenagem à autora, são um convite à sua leitura. 

+++ Flip 2018 anuncia programação, com destaques e novidades para esse ano

Entre suas mais de 40 obras, comento brevemente a seguir seis delas, de diferentes gêneros e décadas, para que cada leitor (re)descubra sua Hilda. Com exceção de O Rato no Muro, no prelo, todas estão disponíveis nas livrarias.

6 livros essenciais de Hilda Hilst

O Rato no Muro (1967)

Em 1966, Hilst muda-se para uma fazenda nas cercanias de Campinas e constrói a Casa do Sol, onde viverá até o fim de seus dias. Dá assim por finalizado seu período em São Paulo, onde estudara Direito e desfrutara da vida urbana e noturna. Isolada no campo, sua escritura ganha corpo: passa a escrever teatro. O Rato no Muro é sua segunda peça, e pode ser entendida como uma fantasia em torno à repressão, encarnada pela personagem da Madre Superiora num convento sombrio, onde nove freiras vivem sob culpa, medo e fome. O convento é cercado por um grande muro, sobre o qual não se deve falar. A obra dialoga com A Casa de Bernarda Alba, de Lorca, e com o teatro psicológico de Nelson Rodrigues – sua ação, no entanto, é muito mais concentrada. Uma peça que parece dever muito ao contexto político no qual foi produzida e que, ao final, lúgubre, mostra o triunfo do totalitarismo. 

Júbilo, Memória e Noviciado da Paixão (1974)

Depois de ter passado a escrever teatro (de 1967 a 1970) e prosa narrativa (Fluxo-Floema, 1970), a poesia de Hilst, segundo Nelly 

Novaes Coelho, ganhou “intensidade”. Há poemas de amor realmente intensos no livro, como os dedicados a José Luis Mora Fuentes, que ganham outra dimensão, com a recente publicação da correspondência entre ambos: “Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca / Austera. Toma-me AGORA, ANTES / Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes / da morte, amor, da 

minha morte, toma-me”. O livro traz ainda a série Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé, musicada por Zeca Baleiro em colaboração com a autora, já em seu último ano de vida. Cabe destaque também à seção final do livro, Poemas aos Homens de Nosso Tempo,  com a bela homenagem a Lorca e a outros  personagens insurgentes.

A Obscena Senhora D (1982)

Novela em prosa, radical tanto na forma quanto no conteúdo, e sem paralelos na literatura brasileira. Nela explora-se o que há de fundante na existência humana: a vertigem da morte, do corpo, do sexo e do Absoluto. Não há respiro para o leitor, as cerca de cinquenta páginas que a compõe são uma sucessão de diálogos – sem a intervenção de nenhum narrador – em que uma mulher, Hillé, “a teófaga incestuosa”, e outros personagens, desdobramentos seus, fazem as perguntas mais selvagens: “O que é um homem?”, “de onde vem o Mal, senhor?”, “o que é o corpo?”, “Ai Senhor, tu tens igual a nós o fétido buraco?”. O pungente momento final da narrativa traz o diálogo de Hillé com seu pai agonizante: “A vida toda foi (...) como se eu tocasse sozinho apenas um momento da partitura, mas o concerto todo onde está?”. Hilst lançou mão do fluxo de consciência para transformá-lo em teatro louco, erótico e filosófico. Verdadeiro jato de desamparo.

O Caderno Rosa de Lori Lamby (1990)

Eis a provocação maior de Hilda Hilst à moral de seus leitores: uma obra licenciosa narrada por uma menina de 8 anos, que relata com detalhes suas relações sexuais, em troca de dinheiro, com homens adultos. A naturalidade da narradora Lori Lamby e sua desenvoltura em relação aos prazeres do sexo são desconcertantes. O fato de a protagonista ser filha de um escritor em crise acrescenta outra dimensão à obra: está em jogo a demanda do público leitor e a sobrevivência do escritor. A escritora filia-se com mestria à literatura licenciosa do século 18, a autores como Sade, tirando porém a protagonista do lugar de vítima. No contexto da abertura democrática brasileira, com o fim da censura, quando os corpos eram expostos desbragadamente na mídia e apresentadoras de programas infantis exibiam seu sex-appeal, a crítica de Hilst foi um tiro certeiro. A primeira edição, a cargo de Massao Ohno, era ilustrada por Millôr Fernandes e trazia a foto da autora, aos 6 anos, na contracapa.

Do Desejo (1992)

Em 1992, Hilst colhia os frutos modestos de seu maior êxito popular: havia lançado já seus primeiros livros licenciosos e publicava crônicas no jornal de Campinas. Foi então que a editora Pontes, da própria cidade, lançou Do Desejo, uma coleção de dez poemas eróticos seguida do relançamento de outros seis livros seus lançados desde 1986, cuja temática é também o desejo. Imagens corporais, como as do poema de abertura, dão conta de uma lírica que desiste da cavilação e investe no corpo como via ao Absoluto: “Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. / Antes, o cotidiano era um pensar nas alturas / Buscando Aquele Outro decantado / Surdo à minha humana ladradura. / Visgo e suor, pois nunca se faziam. / Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo / Tomas-me o corpo. E que descanso me dás / Depois das lidas. Sonhei penhascos / Quando havia o jardim aqui do lado. / Pensei subidas onde não havia rastros. / Extasiada, fodo contigo / Ao invés de ganir diante do Nada”.

Cascos & Carícias (1998)

Entre os anos de 1992 e 1995 – no conturbado período político entre os governos de Collor, Itamar e FHC – os domingos campineiros agitam-se, nas páginas do Correio Popular: Hilst estreia como cronista. A política é tema frequente. Mas Hilda é inquieta e aborda outros temas, chegando por vezes a rebelar-se e substituir a crônica semanal por um poema seu. Assim, com a plasticidade que permite o gênero, a escritora vai do lirismo à imprecação e chega a sugerir que gostaria de lançar a crônica-envelope: uma forma de preservar o leitor mais sensível do conteúdo de seus “textos sórdidos, coléricos, cínicos, degradantes ou estufados de um humor cruel” (7/11/1993). Noutros textos, Hilst interpela o leitor de modo provocativo e contundente: dirigindo-se à boa família burguesa, não é raro fechar uma crônica desejando bom domingo, boa missa, boa morte. 

Onde ler os livros de Hilda Hilst indicados

TEATRO COMPLETO VOL. 3 – O RATO NO MURO E O AUTO DA BARCA DO CAMIRI

Autora: Hilda Hilst

Editora: L&PM

(No prelo)

DA PROSA

Autora: Hilda Hilst

Editora: Companhia das Letras

(Dois volumes; 888 págs.; R$ 89,90)

DA POESIA

Autora: Hilda Hilst

Editora: Companhia das Letras

(Dois volumes; 616 págs.; R$ 69,90)

132 CRÔNICAS: CASCOS & CARÍCIAS E OUTROS ESCRITOS

Autora: Hilda Hilst 

Editora: Nova Fronteira

(336 págs.; R$ 69,90)


WILSON ALVES-BEZERRA É ESCRITOR, TRADUTOR E PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UFSCAR

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.