Acervo Instituto Moreira Salles
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Um livro por semana: Saber viver nos dias que correm

Em artigos assinados por pseudônimos, Clarice Lispector escrevia para a mulher que começava a ingressar no mercado de trabalho

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2021 | 03h00

Você pode pensar nesse livro como uma literatura menor de Clarice Lispector (1920-1977). Ou procurar, nas entrelinhas, sua ironia, o embrião de alguns outros textos mais literários e os recados que ela gostaria de transmitir para suas leitoras, mulheres dos anos 1950 e 1960, de classe média alta, que acompanhavam as páginas femininas de periódicos e as colunas que ela assumiu em tempos de aperto financeiro.

Reunidas em Correio Para Mulheres por Aparecida Maria Nunes, as cerca de 450 colunas trazem, sim, trivialidades como receitas de como tirar mancha de tecido e matar baratas ou o que servir para uma visita inesperada numa situação em que só botar mais água no feijão não vai funcionar (porque a visita pode não ser acostumada a comer arroz e feijão). E ainda dicas de moda e conselhos para se tornarem boas mães e boas esposas.

Mas Clarice é Clarice, e, quando quer, ela vai além.

O convite para assumir a primeira coluna, Entre Mulheres, no Comício, veio de Rubem Braga e, entre maio e setembro de 1952, ela escreve para uma leitora que ainda não trabalha fora. Nesse espaço, em meio a receitas e coisas do gênero e outros textos mais literários, Clarice, ou melhor, Tereza Quadros, porque ela sempre escrevia esses textos com pseudônimo, até traduziu um trecho de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, novidade na França.

Mais tarde, usando o nome de Helen Palmer, ela começa a fazer a coluna Feira de Utilidades, no Correio da Manhã. E entre 1960 e 1961, por convite de Alberto Dines, foi ghost writer da atriz Ilka Soares no Diário da Noite. Precisava, mais aqui do que em sua primeira experiência, do dinheiro – nesta época, ela estava separada e com dois filhos para criar. Nesses artigos, a autora escreve para uma mulher que começa a ingressar no mercado de trabalho e se interessa por assuntos de moda e da beleza, mas que continua às voltas com a casa e a família.

No livro, os textos não são organizados de forma cronológica, mas por temas – são oito, que vão de Saber viver nos dias que correm a Aulas de sedução, Conselhos e Segredos. Havia, em alguns casos, mensagens discretas – uma tentativa de, talvez, despertar a consciência dessas mulheres. E havia recados mais firmes, como quando fala sobre leitura em Para Não Bobear e diz que ler é um hábito que todo mundo deveria ter para não se tornar uma jovem que diz bobagens com os “lábios perfeitamente maquiados”. Ou em Eva e a Leitura: “A leitura instrui e educa, eleva os pensamentos e faz com que pessoas se irmanem melhor, compreendendo que vivem em comunidade”. 

*JORNALISTA ESPECIALIZADA EM LITERATURA

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