Setur Maranhão
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Um Livro por Semana: Passado, presente, futuro ('O 13 de Maio e Outras Estórias do Pós-Abolição')

Livro traz contos de Astolfo Marques, filho de uma família negra livre do Maranhão, que nos levam para a São Luís do fim do século 19 e começo do 20

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2021 | 03h00

Astolfo Marques tinha 12 anos quando a escravidão foi oficialmente abolida no Brasil. Maranhense de São Luís, filho de uma família negra livre, ele viveu pouco, até os 42 anos, mas deixou um testemunho importante de seu tempo – um tempo de mudanças e recomeços, em que a vida ganhava novo ânimo com a promessa de liberdade e igualdade. 

Astolfo, seus textos e essas promessas foram caindo no esquecimento. Dois lançamentos, porém, um de abril e outro de agora, buscam recuperar a literatura deste menino que ajudava a mãe a entregar a roupa que ela lavava e que contava que aprendeu a ler sozinho, deste garoto que aos 20 anos se tornou contínuo da Biblioteca Pública do Maranhão e foi um dos fundadores do grupo de intelectuais Oficina dos Novos, que daria origem à Academia Maranhense de Letras, da qual ele também foi membro.

O 13 de Maio e Outras Estórias do pós-Abolição, o primeiro dele publicado este ano, pela Fósforo, traz 17 contos, um ensaio do pesquisador Matheus Gato, que é o organizador da obra, e prefácio do escritor Paulo Lins. Todos os contos foram publicados em periódicos locais entre 1902 e 1916. São textos que nos levam para a São Luís do fim do século 19 e começo do 20. O fim da escravidão, seus significados e sua herança, e o início da República. Impasses sociais e políticos. 

Com eles (alguns são inspirados em histórias reais), entreouvimos conversas dos que “foram treze” ou que não foram, dos que sentiam orgulho da liberdade e faziam questão de festejar a data da abolição, e dos que escondiam que haviam sido escravizados. Dos que sabiam que aquele horror tinha sido “história de homem” e não de Deus, e que, por isso, não tinham motivo para se envergonhar, como ouvimos na conversa entre Eleutéria e Raimunda em Ser Treze, o conto que abre o livro. 

Somos levados ao chão da fábrica, onde muitos foram trabalhar. Acompanhamos esses personagens anônimos no trabalho e em seus dias de folga e de festa. Em suas conversas sobre o passado e sobre possibilidades de revoluções. Presenciamos sua força, coragem e medo – do governo, da repressão militar. E vemos seus olhos “sondando o futuro”. Aquele futuro de igualdade e respeito pelo qual ainda tanto se luta.

A Nova Aurora: Novela Maranhense, publicada originalmente em 1913 e relançada esta semana pela Chão Editora, com posfácio também de Matheus Gato, resgata o que ficou conhecido como o Massacre de 17 de Novembro, um grande protesto popular em São Luís, dois dias depois da Proclamação da República.

O 13 de Maio e Outras Estórias do pós-Abolição

Autor: Astolfo Marques

Editora: Fósforo (208 págs.; R$ 54,90; R$ 34,90 o e-book)

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