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Um livro por semana: Mapa do esquecimento e da dor

‘Eu estaria mentindo se dissesse que o sofrimento de minha mãe nunca me deu prazer’, escreve a narradora de 'Açúcar Queimado', livro de Avni Doshi

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2021 | 03h00

O começo é forte: “Eu estaria mentindo se dissesse que o sofrimento de minha mãe nunca me deu prazer”. Antara, autora do desabafo, é a narradora de Açúcar Queimado, romance de estreia de Avni Doshi que foi um dos seis finalistas do Booker Prize em 2020, ganhou tradução para 20 idiomas e chega agora ao País pela Dublinense.

Nascida em New Jersey em 1982, filha de imigrantes indianos e vivendo hoje em Dubai, Avni situa este drama familiar em Pune, na Índia, onde vive parte de sua família materna. Antara está às voltas com a mãe, que começa a se esquecer das coisas – menos como humilhar a filha. Durante as idas e vindas ao médico, diante dos acidentes, primeiro os pequenos, depois os maiores, e enquanto tenta contornar a doença e busca uma forma de assimilar a nova realidade, a jovem rememora seu passado de abandono e desamparo, revisita lacunas que nunca serão preenchidas e tenta encontrar um lugar para si em meio a tanto caos – também em sua cabeça.

Esta é a versão da história pelo olhar da filha. Antara apresenta a mãe, Tara, como uma mulher egoísta que “só pensa em termos de liberdade e paixão”. Uma mulher que não se adaptou ao casamento, deixou o marido para trás e fugiu de tudo o que a oprimia (levando a menina). Foi numa comunidade mística, por exemplo, entre adultos e longe dos olhos da mãe, ocupada no seu posto de amante do guru líder do grupo, que ela cresceu e conheceu a solidão. Na rua, para onde foram depois que o caso acabou, ela conheceu a degradação. No internato, para onde é mandada algum tempo após terem sido retiradas da mendicância, ela descobriu outros tipos de humilhação.

Quando a encontramos, no começo dessa história, ela é uma artista de 30 e tantos anos que ainda carrega as marcas, físicas inclusive, dessa infância, além de um rancor muito grande por nunca ter sido amada pela mãe, por nunca ter sido uma prioridade – sem contar alguns transtornos obsessivos que assumem diferentes sintomas ao longo da vida.

Um vazio une mãe e filha – e também uma invisibilidade, uma competição e uma mágoa, que é a recíproca. Um segredo as afasta. São, afinal, duas mulheres em sofrimento, que foram rejeitadas por homens que amaram e que, com uma memória errante, tentam conviver.

Mas há sempre mais e mais, e os outros lados de uma mesma história. E há também uma mãe que veio antes e uma nova criança para ser criada e amada. Ciclos. Há fatos e lembranças, e nem sempre eles coincidem. Há coisas para serem lembradas e elaboradas, e outras para serem esquecidas – custe o que custar.

JORNALISTA ESPECIALIZADA EM LITERATURA

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