Arcaion/Pixabay
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Um livro por semana: Civilização, barbárie e literatura ('Do Amor e de Outras Tristezas')

Livro de contos de Rodrigo Novaes de Almeida foi publicado pela Urutau em 2021

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

06 de abril de 2022 | 03h00

Uma frase dita a certa altura do conto Breve Trilogia das Enfermidades expõe um pouco o desconforto do mais recente livro de Rodrigo Novaes de Almeida, Do Amor e de Outras Tristezas (Urutau): “Havia muito tempo que não vivíamos em ordem natural de coisa alguma”. Neste volume de 2021, o autor persegue e aprofunda temas de sua obra anterior, Das Pequenas Corrupções Cotidianas Que Nos Levam à Barbárie e Outros Contos (Patuá), finalista do Jabuti 2019. 

São histórias de violência e morte, como diz o subtítulo. Histórias escritas no contexto deste país que às vezes não reconhecemos mais e que em outras reconhecemos até demais. Engavetado depois que a pandemia começou (que foi também quando o autor descobriu “um câncer implacável”) porque, como ele coloca no prefácio, não havia como “escrever sobre nada que não fosse a realidade que se impunha sobre nós”, o livro foi retomado em outro momento delicado: um ano depois da primeira fase de seu tratamento. 

Neste último conto, então, Rodrigo fala da violência da doença, da vida. “Temas trabalhados antes na ficção agora se encontravam inexoravelmente na realidade e o único modo de lidar com esta realidade era escrever sobre ela”, ele explica ao contar sobre a decisão de encerrar a obra com um texto autobiográfico. 

De resto, o livro traça, por meio dos 13 contos, o retrato de um país onde seus cidadãos morrem um pouquinho todo dia, de forma lenta ou violenta. O retrato de um mundo brutal e derrotado onde tudo sempre pode piorar. Entre seus personagens, há ricos e pobres, gente inocente, corruptos, bandidos e milicianos. Três contos têm crianças em seu centro.

Em Carta para a Vovó, uma menina que perdeu a mãe e foi levada, aos 11, por uma família para viver na cidade, senta em seu quartinho sem janela na área de serviço de um apartamento para escrever uma carta que nunca chegará ao sítio onde vivia. Delação é um conto em primeira pessoa em que o narrador relembra, 30 anos depois, conversas que, aos 12, ouvia despretensiosamente à mesa do clube – conversas que revelariam o funcionamento das engrenagens públicas e privadas que movem o País. A Necromante, Os Lobos e As Ovelhas é de uma violência física assustadora – vista também nos textos em que personagens de outros contos voltam para matar e torturar. 

Há ainda textos sobre feminicídio, família e fuga. E sobre o amor – sobre encontros e desencontros, sobre a redescoberta da vontade de viver e de amar, sobre juntar nossos cacos e, talvez, recomeçar.

Mesmo em meio à dor e ao caos, a literatura segue como um farol de compreensão do mundo.

Do Amor e de Outras Tristezas: Histórias de Violência e Morte

Autor: Rodrigo Novaes de Almeida

Editora: Urutau (60 págs.; R$ 40)

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