Renato Parada
Renato Parada

'Um grande escritor nunca é uma pessoa medíocre', diz Leyla Perrone-Moisés

Crítica literária publica 'Vivos na Memória', com perfis de autores que ela conheceu, como Haroldo de Campos, Julio Cortázar e José Saramago

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2021 | 05h00

Ao longo de sua carreira, a crítica literária e professora universitária Leyla Perrone-Moisés teve a oportunidade de não apenas avaliar a obra de importantes pensadores, mas também o privilégio de uma convivência próxima com vários deles. E não foram poucos – Samsor Flexor, Décio de Almeida Prado, Antonio Candido, Roland Barthes, Haroldo de Campos, Julio Cortázar, Paulo Leminski, José Saramago, Jacques Derrida, Claude Lévi-Strauss, entre outros, configuram uma distinta lista.

“Eu não tenho nada de especial para contar a meu respeito, mas tenho muito a contar sobre pessoas que conheci”, observa ela no prefácio de Vivos na Memória (Companhia das Letras), saboroso conjunto de perfis de grandes figuras das letras e das artes, que foram essenciais para a sua formação e também para várias gerações de estudiosos. Em cada capítulo, Leyla não apenas discorre o necessário sobre a obra de cada artista, trazendo a postura de cada um diante e dentro da linguagem, mas oferece ainda deliciosas anedotas do cotidiano desses artistas, detalhes que acrescentam mais vigor ao seu perfil.

Pintora quando jovem, Leyla logo trocou os pincéis para escrever sobre literatura francesa no Suplemento Literário do Estadão nos anos 1960. “Ingressei depois no ensino universitário e, à medida que o tempo foi passando, ampliei o meu terreno de atuação para outras literaturas. Essas atividades me proporcionaram muitas viagens, durante as quais fui conhecendo numerosos escritores e professores universitários”, observa ela, ainda na introdução do livro.

Criou, assim, amizades com figuras como o crítico Décio de Almeida Prado (“apesar de minha juventude, Décio me recebeu no Suplemento sem nenhuma restrição. Deixou-me, desde o início, com total liberdade na escolha dos livros de que eu falaria”), o escritor português Almada Negreiros (“era inacreditável que eu pudesse conversar com alguém que fora uma das figuras centrais do modernismo português, alguém que frequentara Pessoa e Mário de Sá-Carneiro”) e o filósofo e sociólogo francês Roland Barthes, talvez aquele que mais admirou, como intelectual e como pessoa e de quem tomou emprestado o neologismo “biografemas” para explicar os perfis de seu livro.

“O que registrei aqui são ‘biografemas’, isto é, traços e gestos de pessoas, lembradas não apenas como personalidades dignas de biografia, mas como indivíduos extraordinários no cotidiano”, escreve, ainda, no prefácio. Sobre o livro, Leyla, que é doutora em Língua e Literatura Francesa e professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, respondeu por e-mail às seguintes questões.

Não existe qualquer obra literária que não seja fruto de uma inteligência coletiva anterior a ela. De que forma, portanto, esses autores relacionados em seu livro deram um grande passo nessa continuidade?

Concordo plenamente com sua afirmação. Todo escritor é, antes de tudo, um leitor. É a leitura de escritores anteriores que desperta o desejo de escrever. Entretanto, nem sempre é uma continuidade. Assim como as respostas a um estímulo podem ser muito variadas, às vezes a resposta a uma leitura pode ser uma contestação e marcar uma ruptura. Os autores que tive a sorte de conhecer pessoalmente deram um grande passo no sentido de buscar manter a qualidade dos autores que leram, de honrar o legado que eles deixaram. Mas muitos deles entenderam que honrar esse legado era modificá-lo, atualizá-lo. Esse é o caso dos autores do nouveau roman francês e, no Brasil, de Osman Lins no romance, de Haroldo de Campos, Leminski e Waly Salomão na poesia.

A partir da amizade com homens e mulheres da escrita, é possível dizer que um grande escritor pode ser também uma pessoa medíocre?

Um grande escritor nunca é uma pessoa medíocre, já que sua obra o eleva à categoria de pessoa extraordinária. Mas, na amizade com escritores, pude observar que, na vida cotidiana, eles eram pessoas comuns. Pior do que uma pessoa medíocre, um grande escritor pode ser uma pessoa ideologicamente detestável, como o fascista Pound ou o antissemita Céline. Felizmente, os escritores dos quais falo em meu livro eram todos libertários e não preconceituosos.

A senhora observou que a crítica literária de J. M. Coetzee sobre obras alheias passa inevitavelmente pela biografia desses autores avaliados. De que forma alguns dos autores citados em Vivos na Memória foram tão bons teóricos como romancistas e vice-versa?

Os críticos do século 19 davam excessiva importância à biografia e consideravam suas obras como reflexos de suas vidas. Até meados do século 20, a história literária era ensinada dessa forma, e os manuais falavam dos autores nessa ordem: vida e obra. Na segunda metade do século 20, houve uma reação a essa concepção positivista da criação literária, e alguns autores exageraram, como Foucault e Barthes, decretando “a morte do autor”. Na verdade, algumas vidas são indispensáveis para se compreender a obra. E, atualmente, a vida se mescla à obra, na autoficção. Quanto à segunda parte de sua pergunta, eu mesma já escrevi muito sobre os escritores-críticos. Na modernidade, muitos escritores deixaram uma obra teórica e crítica paralela à sua obra de criação. Entre aqueles de que falo nesse livro, Michel Butor, Osman Lins, Julio Cortázar e Haroldo de Campos foram também críticos e teóricos.

A escrita como processo de descoberta foi um tema de suas pesquisas. De que forma esse processo colaborou para que a senhora se aproximasse ou mesmo se afastasse dos escritores?

No meu caso, o processo de descoberta foi a leitura, e a escrita crítica uma forma de conhecer melhor determinadas obras. O contato pessoal com os escritores foi, na maior parte das vezes, uma consequência do que escrevi sobre eles. Ao longo da vida, afastei-me de poucos escritores que conheci, por discordar de suas posturas éticas ou porque eram presunçosos e narcisistas.

As fortes convicções de José Saramago foram, de alguma forma, inspiradoras para as “parábolas críticas que nos fazem desejar um mundo mais justo”, como escreve no capítulo sobre ele?

Sem dúvida. Suas convicções políticas foram mais do que inspiradoras, foram a base de suas ficções. Entretanto, os romances de Saramago não são obras militantes, nem obras de mensagem explícita. Como bom romancista, ele deixa a reflexão e a conclusão para os leitores. Ressalte-se, também, que diferentemente da maioria dos escritores marxistas, Saramago não é realista. Às vezes, seu realismo é até mesmo mágico. Suas histórias são parábolas, isto é, narrativas alegóricas que transmitem uma mensagem indireta. Elas valem pela riqueza de sua imaginação e a beleza de seu estilo.

Como foi seu primeiro contato com a obra de Roland Barthes? Ele era tão fascinante pessoalmente como era na escrita?

Meu primeiro contato com a obra de Barthes foi motivado pela leitura, em 1960, de O Livro por Vir, de Maurice Blanchot, que lhe dedica um capítulo, e por uma carta de Claude Simon, em 1962, recomendando-me que o lesse. Como ocorreu com outros escritores franceses, ao ser apresentada a ele, em 1968, eu lhe dei artigos meus sobre sua obra, publicados no Suplemento Literário do Estadão. Ele gostou e me enviou uma mensagem com seu número de telefone, para combinarmos uma conversa. Foi o começo de uma grande amizade e de meus projetos de traduzi-lo. Pessoalmente, eu não diria que ele era fascinante. Ele era despretensioso, muito gentil e um pouco melancólico. Fascinantes são seus textos.

Barthes acreditava que só se deveria ensinar literatura, porque através dela se poderiam abordar todos os saberes. De que maneira, portanto, a literatura dos autores aqui lembrados, ordena e valoriza o real, recriando o mundo assim como o sujeito falante que o habita?

O que Barthes disse foi: “Se, não sei por que excesso de socialismo ou de barbárie, todas as disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto uma, é a disciplina literária que deveria ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento literário”. Ele pensava em Balzac. Ao analisar uma novela do escritor, em S/Z, ele mostrou a presença de um “código cultural” (fisiológico, psicológico, histórico, sociológico), portador de um saber geral que extrapola a intriga. Quanto à sua pergunta, não posso responder sucintamente, porque cada escritor ordena ou desordena o real à sua maneira.

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