Um escritor saudosista

Para o inglês John Gledson, tradutor de Dom Casmurro, Machado desafiava o leitor "com uma dose de agressão, ou um convite a uma espécie de auto-análise"

26 Setembro 2008 | 23h59

Quem ousa dizer algo novo sobre Machado de Assis corre o risco de desafiar velhas convenções. O professor inglês John Gledson, tradutor de Dom Casmurro, vem descobrindo um novo Machado para si e para os leitores, ao analisar sua abordagem de temas espinhosos, como a homossexualidade ou a escravidão. Gledson, autor de alguns livros sobre o escritor, sendo o último Por Um Novo Machado de Assis (Companhia das Letras), concedeu entrevista ao jornalista Antonio Gonçalves Filho, em que falou, entre outros assuntos, do lugar da crônica em sua obra, gênero que revelou como nenhum outro as opiniões de um escritor por muito tempo tido como indiferente à política.  E no início, o teatro Um romance pelo avesso Corpo de pedra sem nenhum rosto 'As casas de Machado não tinham jardim' Concisão com HQ e cordel Diário da loucura Os críticos versus o enigma O pai da prosa brasileira Em Por Um Novo Machado de Assis, o senhor chama a atenção para a necessidade de se examinar trabalhos supostamente menores de Machado em busca de uma visão mais abrangente de sua obra. As crônicas do escritor estariam entre esses trabalhos "menores", que deixaram de ser analisados pelos ensaístas justamente em razão de uma miopia crítica?Sim, é claro que as crônicas estão entre as obras menores - entre elas, talvez sejam as mais interessantes. O próprio autor incluiu meia dúzia delas na coletânea Páginas Recolhidas, de 1899, e mesmo assim cortou trechos que lhe pareciam atrelados a assuntos da época, e que o leitor contemporâneo (de 1899) não reconheceria. Chegou a excluir um poema admirado e até meio famoso, Menina e Moça, das Poesias Completas, de 1900, porque mencionava duas lojas do Rio de 1870. É uma atitude muito compreensível - para 1899. Nós temos outro ponto de vista - essas obrinhas, e diria que principalmente as crônicas, pela própria espontaneidade (relativa...) e a qualidade de imediato que têm, nos deixam ver aspectos inesperados do autor, nos acostumam à sua maneira de ver as coisas, aos autores de que mais gostava, aos seus hábitos de pensar, de gracejar, etc. etc. Mas, arriscando puxar a brasa para minha sardinha, devo insistir que essas crônicas precisam de boas edições, que reduzam a distância entre 1878 (digamos) e 2008 - e isso pede muita pesquisa. Vamos publicar, pela Editora da Unicamp, a Lúcia Granja e eu, a série de 1878, Notas Semanais, que contém algumas surpresas, e minha edição de Bons Dias!, há muito esgotada, saiu agora em nova edição pela mesma editora. Tudo isso está, pouco a pouco, mudando as atitudes e a nossa maneira de ver Machado. O papel do sexo na obra de Machado é ainda pouco estudado pelos ensaístas, como o senhor mesmo observa em seu livro, mencionando um estupro homossexual em Casa Velha. De certo modo, as relações de amizade entre homens nos romances de Machado poderiam igualmente sugerir que essa era, de fato, uma preocupação do escritor. A crítica brasileira seria moralista a ponto de desconsiderar a sexualidade na obra machadiana? Não sei, eu diria que foi simplesmente um pouco míope, o que não é exclusivo do Brasil nem do caso de Machado. Magalhães Júnior, ao topar com o referido estupro homossexual de Casa Velha, confessou honestamente que não sabia por que o autor teve que incluir esse detalhe escabroso na novela. Os tempos eram outros, e as pessoas literalmente não viam o que estava (pensamos nós) diante dos seus olhos. A rainha Vitória não acreditava no lesbianismo, ou assim se diz. Dessa maneira, o lesbianismo escapou de ser proscrito quando a homossexualidade masculina foi proibida na década de 1880. Mas não pensemos que somos tão superiores - recentemente tive que explicar para um colega, aliás nada ingênuo, que a dor de cabeça de Sofia no fim do capítulo 50 de Quincas Borba é uma "dor de cabeça" estratégica (e cômica) - e note bem que nem eu explicito tudo - por moralismo? Por que assim fica mais engraçado? Machado até bate na tecla de novo no capítulo 71, em que a citada senhora se livra da mesma enxaqueca, mas mesmo assim... Tem momentos em que eu titubeio - o conto, muito interessante, de 1903, Pílades e Orestes, trata do homossexualismo? Não sei, mas a explicação que mais me satisfaz é que é sobre um homossexual num mundo em que a homossexualidade "inexiste", se me entendem. Vê como as coisas podem ser complicadas, nesses assuntos. Muitos críticos chamam a atenção para um possível "declínio criativo" de Machado no fim da vida. Sei que essa não é a sua opinião, mas como colocaria o Memorial de Aires em relação às obras anteriores do escritor? Quais são os traços biográficos de Machado que o senhor identifica na figura do conselheiro? Não diria que essa não é minha opinião - apenas argumento que Memorial de Aires é um livro que pode "traicionar" o leitor tanto quanto Dom Casmurro; que é um livro calculado e muito engenhoso, que usa a forma do diário para fazer com que o conselheiro não possa adivinhar o futuro. Sabe Deus o que ele pensa depois do romance terminar. Nós, os leitores, temos outros indícios, a começar pelas epígrafes das cantigas de amigo ("Em Lixboa, sobre lo mar /barcas novas mandei lavrar"). Agora, já disse que obviamente o romance não tem a verve nem o humor, nem talvez a agressividade de Memórias Póstumas, por exemplo. É bem possível (e bem compreensível) que a "criatividade" tenha tido um declínio nos anos finais do autor. Perdera a mulher, estava ele mesmo doente, etc., etc. E é bom lembrar que Machado sempre tivera auges criativos, e grandes problemas de composição - pensem nos anos 80, com seus quase 50 contos em dois anos, e a imensa luta que foi Quincas Borba. Os contos finais também não têm a originalidade e a verve dos dos anos 80. Os traços biográficos - não sei. A distância implícita no fato de que o conselheiro é ludibriado pelo feliz casal (Fidélia e Tristão) não pode ser esquecida, mas um dos jogos de Machado com Bentinho, com o conselheiro, até com Brás Cubas, é que ele se identifica com eles para melhor entendê-los, e bem possivelmente põe traços dele mesmo, Joaquim Maria, para construir uma personagem convincente. O conselheiro gosta de música, Machado também gostava muito... Mas as fronteiras são muito difíceis de estabelecer em questões como essas. É citada no livro Por Um Novo Machado de Assis uma crônica em que o autor se opõe à destruição do cortiço Cabeça de Porco em 1893 e que revelaria sua posição diante da chegada da modernidade ao Rio, opondo-se a ela, se fosse preciso, para preservar a memória da cidade. Essa atitude deve ser vista como saudosista ou Machado era um visionário, que via com ceticismo as decisões unilaterais da classe dominante? Essa crônica, de 29 de janeiro de 1893, para mim, contém conflitos, como não podia deixar de ser. Machado tinha, sim, um certo lado saudosista, diria melhor, um desejo de preservar a história da cidade, que os partidários do "bota-abaixo" não tinham em absoluto. Agora, pretender que ele queria preservar um cortiço infecto como foi o Cabeça de Porco, só porque fazia parte da história da cidade, é outra coisa. Há alguns indícios na crônica que Machado percebia ser o problema maior não o da preservação da cidade, mas o de fornecer à população pobre alojamento decente. Também via - disso também há indícios na crônica - que esse "bota-abaixo" servia aos interesses da classe média, e que lá entrava também um bom elemento de corrupção, de gente que queria construir nessa terra. Ou seja, de tudo há nessa crônica, mas Machado também sabia que não podia resistir à História, com "h" maiúsculo. Tanto é assim que a cena viria a repetir-se, com variantes, muitas vezes no século 20. A paródia, em Machado, não seria um exercício isolado, como o senhor defende em seu novo livro? Essa atitude paródica sobre a obra de escritores como Alencar teria apenas o propósito de zombar da linguagem melodramática de autores brasileiros ou seria uma carta de intenções pré-modernista? Para mim, nem uma coisa nem outra. O uso da paródia é fundamental para a criação machadiana, e estende-se para além da ficção puramente dita - parodia a história do Brasil, parodia a Bíblia, parodia Fernão Mendes Pinto (tudo bem, pode ser ficção...), parodia a Revolução Francesa. Chega um momento em que a palavra paródia quase que não parece adequada, porque nos damos conta que é um procedimento criativo básico, e muito abrangente. E, muito mais que parodiar a linguagem, parodia os enredos, as situações, como Roberto Schwarz mostrou no caso de Lucíola em Memórias Póstumas. E muitas vezes com fins realistas - isto é, repensa uma situação falsa, calculando como teria sido realmente, sem óculos românticos, ou naturalistas (o caso de Eça de Queiroz, que também parodia). Acho difícil que existissem "intenções pré-modernistas" em Machado - confesso que não vejo a utilidade do adjetivo, porque definir um momento histórico pelo que veio no fim dele, e do qual não podia ter consciência, é impor uma finalidade histórica que não existia nesse momento, e, até esse ponto, distorcer. Podem existir paralelos entre o que Machado fez e o que fez um Oswald, mas temos que definir muito melhor nossos termos, e não estamos (diria eu) ainda na posição de fazê-lo com um mínimo de confiança. Ensaístas como Abel Barros Baptista já aventaram a hipótese de Machado ter sido indiferente ao modo como seus leitores leriam seus romances. Em que documentos podemos confiar para confirmar essa possível indiferença? Bem, documentar uma coisa negativa, como é a indiferença, sempre vai ser difícil. É verdade que Machado quase nunca comenta a sua ficção, e quando a comenta, fá-lo dentro dos pressupostos dessa mesma ficção (pequena exceção, que quase prova a regra, é o prefácio à terceira edição de Memórias Póstumas). Outro sinal negativo é o fato de que tirou certos indícios que podiam ajudar o leitor a compreender o romance, como é o caso da epígrafe à primeira versão, em folhetins, de Memórias Póstumas, tirado de Como Gostais (As you like it) de Shakespeare, e que dá uma dica básica acerca do narrador, que principalmente se critica a si mesmo. Em outros textos do período da grande transição (a de 1880), vê-se que Machado aprendeu a deixar fora esse tipo de indício "exterior", e não comentar, por exemplo, seus narradores. Sobre o tipo de indiferença que isso representa, o seu significado, questão sobre a qual nossos pontos de vista (de Abel e meu) diferem bastante, já expus um argumento detalhado no capítulo 9 de Por Um Novo Machado de Assis. Resumindo muitíssimo (quase ao ponto de distorção), para mim essa "indiferença" é um desafio ao leitor, com uma dose de agressão, ou um convite a uma espécie de auto-análise; para Abel, é indiferença mesmo. Hoje, discute-se no Brasil se Machado seria um escritor local ou universal, revivendo uma questão levantada por Schwarz sobre o paradoxo de ter sido um autor enraizado no próprio tempo e ainda assim tão avançado. Para o senhor, seu tradutor, ele é "local" ou "universal"? A resposta óbvia é que ele é ambas coisas, local e universal. Não queria abordar a questão, que tem elementos realmente muito importantes, de um modo excessivamente abstrato, e não sei se tenho respostas a certos problemas. Apenas algumas sugestões, portanto: um é que Machado tinha perfeita consciência da sua universalidade, pelo menos no sentido de querer ser lido fora do Brasil - esforçou-se para ser traduzido para o alemão, e Brás Cubas foi publicado em parte num jornal do Porto, em 1883 (descoberta recente, de Arnaldo Saraiva). Ambos esforços malograram. Essa ambição transparece em Instinto de Nacionalidade, e de fato em toda a sua carreira. 

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