Ubaldo inédito deve sair ainda em 2014

Escritor deixou contos por publicar; título deve ser 'Noites Lebloninas'; veja entrevista com a atriz Fernanda Torres

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

25 de julho de 2014 | 02h00

RIO - A Editora Objetiva planeja lançar até o fim do ano Noites Lebloninas, o livro de contos que João Ubaldo Ribeiro deixou inacabado. O diretor-geral da editora, Roberto Feith, ainda acertará os detalhes com a viúva, a psicanalista Berenice Batella, que já afirmou a intenção de publicar os últimos escritos do marido. “É um presente dele para os brasileiros, para quem gosta de ler e de rir”, ela anuncia.

“Ele deixou dois contos absolutamente finalizados, fantásticos, deliciosos, e estava escrevendo o terceiro. São muito engraçados e leves. Li e fiquei apaixonada. Tenho certeza de que ele queria que o povo lesse”, garante Berenice, que falou ao Estado na quarta-feira, 23, na saída da sessão da Academia Brasileira de Letras que homenageou Ubaldo. 

“Não são necessariamente contos que deem um livro, mas é questão de o editor ver. Por mim, o livro sai. Faço questão”, disse. Casados há 34 anos, Berenice era a primeira leitora de João Ubaldo. “Ele me dava para ler e ficava olhando qual seria a minha reação”, lembra. 

Segundo o poeta Geraldo Carneiro, amigo que tinha acesso liberado a seus originais desde A Casa dos Budas Ditosos (1999). Noites Lebloninas remete a Livro de Histórias, lançado por Ubaldo em 1981, pelo Círculo do Livro, e reeditado pela Nova Fronteira, dez anos depois, com dois novos contos e com o título de Já Podeis da Pátria Filhos e Outras Histórias. Um narrador popular conta causos divertidos, com a diferença que o cenário deixa de ser a ilha baiana de Itaparica, onde o autor nasceu, em 1941, e passa a ser o Leblon, bairro carioca praiano e boêmio onde viveu os últimos 20 anos.

“O narrador é um porteiro nordestino que fala sobre o que vê na vizinhança. Faz lembrar muito o Livro de Histórias, que é uma das obras mais engraçadas da literatura brasileira, no nível de Mark Twain e Monteiro Lobato. Tem um morador gay com um cachorro que o ajuda a farejar possíveis namorados”, recordou Geraldinho.

Romancista por aptidão natural e cronista por profissão, Ubaldo pouco escreveu contos em suas mais de cinco décadas de atividade, e não tinha a pretensão de contribuir para o gênero. “Eu não sou contista. Não é porque considere o conto como um gênero menor. Mas algo me move em direção ao romance”, revelou, numa entrevista de 1999 publicada pela edição do Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, dedicada à sua obra. Na entrevista, ele já falava de Noites Lebloninas. O projeto não prosperou, e, de lá para cá, o escritor publicou três romances, três coletâneas de crônicas e um livro infantojuventil, 

A Objetiva sabia da ideia do livro de contos, mas, em se tratando de um autor meticuloso e que costumava levar bastante tempo maturando um texto, não o pressionava. “A gente tinha plena consciência de que pressionar seria absolutamente impróprio, e sem nenhum efeito. Ele era movido por seu impulso criativo, e muito mais rigoroso com o texto do que qualquer um poderia ser. Os livros chegavam impecáveis”, disse Feith. 

Foi assim com Budas: entre a encomenda e o e-mail com o texto inteiro pronto anexado foram “três ou quatro anos” –, mas não foi preciso alterá-lo. O livro, o mais vendido da série Plenos Pecados, foi o grande sucesso de Ubaldo na Objetiva: saíram 220 mil exemplares. 

A edição comemorativa dos 30 anos de Viva o Povo Brasileiro, o clássico do escritor, no fim do ano, pode servir de mote para a publicação de Noites

Os contos vão matar a sede dos leitores que vêm procurando mais os livros de Ubaldo desde sua morte – há uma semana, de embolia pulmonar, aos 73 anos. A Objetiva teve de fazer uma reposição de emergência em duas grandes redes, Travessa e Saraiva, que receberam livros já no sábado, dia do enterro. Parte já se esgotou e as livrarias fizeram novos pedidos. Nesta semana, Viva o Povo passou a ser o e-book mais vendido da editora (433 unidades); em seguida, vem Budas (200). 

Ubaldo demorou a iniciar os contos lebloninos por enfrentar dificuldade de encontrar o narrador apropriado. “Ele tentou algumas vezes, mas não ficou satisfeito. Adorava o americano Damion Runyon (1880- 1946), que descreveu muito a Broadway, e queria fazer um retrato do Leblon”, explicou Geraldinho, que esteve na casa do amigo oito dias antes da perda. Na ocasião, cobrou de Ubaldo uma autobiografia. Ele lhe respondeu: “Vou esperar ficar velho para isso”.

ENTREVISTA - Fernanda Torres, atriz e escritora

João Ubaldo Ribeiro e Fernanda Torres eram grandes amigos há dez anos, desde quando ela estreou A Casa dos Budas Ditosos no teatro. Sua morte a abalou profundamente. Por e-mail, a atriz falou sobre o vínculo dos dois.

O Ubaldo te mostrou algum texto desse livro que estava escrevendo, Noites Lebloninas?

Não. Jamais conversávamos sobre o que ele estava escrevendo. Diferente da relação que ele tem com o Geraldinho (Carneiro), que é um filho, um irmão das letras, comigo, era um amor a distância. Mas desconfio que o Ubaldo escrevia sem fazer estardalhaço, sem ficar contando, mostrando, era algo natural, uma continuação dele. Diferente de alguém que fica surpreso com o que é capaz de produzir. A Berenice (Batella, viúva de Ubaldo) me falou que são histórias de bar, da vida dele no Leblon, não sei muito mais do que isso. Ele me disse, uma vez, que escrevia em linha reta, sem revisar. Tinha tamanho domínio do português, que não carecia de terceiros. Acho que escrevia para si mesmo.

Você mostrou seu livro (Fim, publicado no ano passado) a ele antes de publicá-lo?

Não, pelo contrário, tive uma vergonha profunda de admitir que estava arriscando um romance. Jamais mencionei o fato com ele. E só continuei por causa da Cia das Letras (editora dela). Não comentávamos os artigos de jornal, nada. Com ele, eu sempre fui atriz. Quando, quatro anos antes do Fim, recebi propostas para publicar as crônicas, liguei para o Ubaldo atrás de informações sobre o mercado editorial, que eu conhecia pouco. Ele ficou pasmo de estarem querendo publicar algo meu e me aconselhou veementemente a pensar vinte vezes antes de seguir adiante. “O ambiente literário é muito violento", me disse, e deu como exemplo uma jornalista que tentou ser cantora, que cantava bem em rodas, mas que gravou um disco e foi cozida viva pela crítica. Quando lancei o livro, a Berenice leu e gostou, eu não sei se ele leu inteiro, acho que leu passagens, e gostou, o que foi como um milagre pra mim. Na nossa última conversa, ele reiterou que achava que eu tinha talento para escrever, ficou como uma benção, uma aprovação de um homem extraordinário, muito gentil, mas muito severo no que diz respeito à gramática.

Vocês trocavam e-mails? Algum que pudesse ser divulgado?

Eu tenho muitos, obras primas dele, mas não sei se ele gostaria de ver publicado, cheguei a copy/paste (copiar/colar) aqui, mas me senti mal, tirei. Descrevo um deles, um e-mail onde ele dizia que foi nomeado, pelo próprio Caymmi, seu “Perpetual Personal Impersonator” (imitador perpétuo), dada a sua interpretação de Não Fazes Favor Nenhum (“Nem eu”, música de Caymmi). E também prometia recitar, numa reunião aqui em casa, o To Be or not To Be inteiro, cantar o estribilho doSenhor do Bonfim, fazer um discurso em japonês, baixar o coronel inglês racista J. P. Bloodsworth, mentir abundantemente, caso solicitado pela anfitrioa, contar a piada do casal carioca cuja mulher foi nadar na lagoa nordestina, e cujo final contém palavras de baixo calão, e contar toda a Ilíada. “Eu sou uma prenda só”, concluía ele, "sei os tempos primitivos dos verbos latinos cuco, pelo e fero, pode pedir". E assinava John Plantagenet. Gênio.

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