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O escritor, crítico literário e teólogo Alceu Amoroso Lima Acervo Estadão

Tristão de Athayde e as muitas viagens que inspiraram sua trajetória intelectual

'Jornada Tristão de Athayde – Seminário Alceu Amoroso Lima' debate a importância da peregrinação para a formação do escritor

Xikito Affonso Ferreira, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2020 | 05h00

1914, Paris. As forças nazistas marchavam a poucos quilômetros da fronteira com França. Diante do risco de invasão, Alceu Amoroso Lima, então um jovem estudante encantado pela Belle Époque, vê-se obrigado a interromper uma viagem de férias com os pais e irmãs e voltar às pressas para o Brasil. A família consegue bilhetes para embarcar de trem para Lisboa e, em seguida, parte de navio rumo à América do Sul. Todos chegam ao Rio de Janeiro a salvo, mas as memórias deste contato tão próximo com a invasão da capital francesa deixaram marcas no jovem intelectual, que só retornaria à Cidade Luz 36 anos depois. 

As estadas em Paris fizeram parte da rotina de Tristão de Athayde durante um longo período. Na infância, era guiado pelas mãos do padrinho, o empresário Antônio Marinhas, para flanar pelos bulevares e comprar brinquedos em lojas requintadas. Entre 1900 e 1914, Alceu passou pelo menos três temporadas na França antes da eclosão da primeira guerra. Numa das ocasiões, foi aluno, junto com os filósofos Jacques Maritain e Ettiene Gilson, de um curso livre de filosofia ministrado pelo também filósofo e professor francês Henri Bergson. O afastamento daquela realidade de efervescência cultural, ocasionado pelas duas guerras, teve impacto em seu olhar e o fizeram debruçar-se sobre a nova realidade europeia que surgia. 

A comparação entre as duas Europas e duas das longas estadas em Paris, a de 1914 e a de 1950, serviu de fio condutor para que ele refletisse sobre o papel de dois diplomatas, escritores e pensadores brasileiros que também viveram no velho continente. As primeiras linhas foram escritas ainda no balançar do navio quando a família (ele, a mulher e os filhos) deslocavam-se para uma série de passeios por Portugal, França e Itália. O resultado desta associação de ideias foi o livro “Europa de Hoje”, publicado em 1951, em que o jornalista analisa que o abolicionista e escritor recifense Joaquim Nabuco sorveu muitas de suas ideias de liberdade do contato com outros intelectuais, durante os três anos em que morou na Inglaterra. Nabuco simbolizaria, então, o modelo de Brasil que importa a cultura europeia. Já o mineiro Afonso Arinos, por sua vez, teria atuado mais como um exportador da cultura brasileira, cativando intelectuais europeus com suas histórias da gente do interior do Brasil, narradas com uma singularidade peculiar e contagiante. Arinos era um sertanista, que teve influência sobre escritores como Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Arinos aos domingos almoçava na Rua do Cosme Velho, na casa onde Alceu cresceu; a estreia literária de Alceu foi a biografia de Arinos.   

Como “Europa de Hoje”, muitos outros títulos de livros de Tristão de Athayde têm nome ou fazem referência a continentes, países, estados, cidades ou a viagens: “Mensagem de Roma”, de 1950. “Manhãs de São Lourenço”, de 1950. “Voz de Minas”, de 1945, e “Companheiros de Viagem”, de 1971, são exemplos. 

Muitas foram viagens que inspiraram sua trajetória intelectual. Alguns textos nasceram de sua própria experiência durante os passeios, como o que relatou uma visita realizada na década de 1950 à pequena cidade de Saint Maximin, no Sul da França. Encantado pelas histórias da Basílica de Santa Maria Madalena, na época ele decidiu aproveitar uma estadia a trabalho em Paris para conhecer a igreja onde estão os restos mortais da santa, e o antigo centro de estudos e pesquisa dos dominicanos franceses. 

Na volta, o advogado contou a experiência num livro de memórias e em artigos publicados na imprensa carioca, mas os detalhes sobre a logística da peregrinação só foram descobertos recentemente, quando o professor Leandro Garcia, investigando arquivos históricos do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (CAAL), em Petrópolis, encontrou duas cartas inéditas trocadas entre Alceu Lima e o então seminarista Lucas Moreira Neves, que havia acabado de ingressar na ordem dominicana. Os documentos, que integram o acervo de mais de 30 mil cartas do CAAL, trazem o simbolismo de ajudar a contar a história da relação entre Alceu e a ordem dominicana. E mostram um Dom Lucas Neves que poucos conheceram.

Tal rico acervo pode ser gratuitamente pesquisado em http://www.alceuamorosolima.com.br/.

Cópias das duas missivas serão apresentadas num evento virtual que será realizado no próximo dia 11, 19h, com transmissão pelo Youtube. A obra de Alceu Amoroso Lima, por sinal, oferece várias leituras e associações que podem guiar os leitores pelos mais diversos caminhos de estudo da história do Brasil e do mundo. 

Diante de tantas histórias reveladoras, a equipe de pesquisadores do acervo de Tristão de Athayde optou por usar o tema viagens como ponto focal da quinta edição da “Jornada Tristão de Athayde – Seminário Alceu Amoroso Lima”, que vai ocorrer em formato digital por causa das restrições impostas pelo Coronavírus. Num cenário de pandemia, as histórias de Tristão de Athayde prometem ser mais uma janela para escape do isolamento social.

Xikito Affonso Ferreira é neto de Alceu Amoroso Lima e autor da biografia “Histórias de meu avô Tristão — A biografia de Alceu Amoroso Lima”  

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Evento debate a influência das viagens na obra de Alceu Amoroso Lima

Por meio de seu pseudônimo, Tristão de Athayde, o autor usou as viagens como formação intelectual e espiritual

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2020 | 05h00

A Jornada Tristão de Athayde, evento que ocorre desde 2015 para revisitar diversos aspectos do escritor, crítico literário e teólogo, terá em 2020 sua primeira edição inteiramente digital por conta da pandemia do novo coronavírus. O encontro virtual para homenagear Tristão de Athayde, pseudônimo de Alceu Amoroso Lima, nesta sexta-feira, 11, às 19h, é organizado pelo neto do autor, Xikito Ferreira, e conta com a participação do sociólogo Alessandro Garcia da Silva e dos pesquisadores Guilherme Arduini e Leandro Garcia, além do próprio Xikito.

O evento, que já teve uma edição presencial em fevereiro, falando sobre educação e a importância das escolas para Alceu, agora se volta para outro aspecto da trajetória do autor: a importância das viagens para a sua formação. O sociólogo Alessandro, por exemplo, fala sobre o contato que Alceu teve com o filósofo francês Henri Bergson, e como essa relação moldou sua trajetória intelectual.

“O tema central do evento é a questão das viagens, não enquanto turismo, mas enquanto formação intelectual e espiritual”, explica o professor Leandro Garcia, pesquisador e especialista da obra do escritor. “No caso dele, que viajou para muitos lugares, algumas viagens tiveram esse caráter de formação intelectual e religiosa, ele que era um católico praticante. Algumas foram para santuários, locais de peregrinação.”

Garcia, que já publicou oito livros sobre Alceu, incluindo obras contendo a correspondência entre ele e outras figuras importantes da intelectualidade brasileira, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, se prepara para lançar um novo volume, desta vez com missivas trocadas entre Alceu e Murilo Mendes.

Durante suas pesquisas para esse livro no acervo do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (Caal), em Petrópolis, Garcia encontrou, em meio às 32 mil cartas, 75 mil livros e 2,5 mil fotos, duas peças inéditas da correspondência entre Alceu e Dom Lucas Moreira Neves, cardeal brasileiro e imortal da ABL que viveu no Vaticano e chegou a ser cotado para suceder ao Papa João Paulo II, mas morreu em 2002.

As cartas trocadas entre Lucas e Alceu datam de 1950, então o sacerdote ainda era seminarista na École Théologique Dominicaine de Saint-Maximin, no sul da França, já que não havia curso de teologia no Brasil. Na primeira carta, o então frei Lucas convida Alceu a conhecer o convento e a Basílica de Santa Maria Madalena, uma vez que o crítico literário iria participar, em maio de 1950, da assembleia inaugural da Unesco representando o Brasil. A segunda carta, mais próxima da data da viagem, detalha os arranjos logísticos feitos pelos seminaristas com a ajuda do Itamaraty, na figura do embaixador Roberto Assunção.

“Alceu aproveita a estada em Paris e vai conhecer o Convento dos Dominicanos. Aí seria a dimensão intelectual da viagem, porque aquele era um dos maiores centros medievais de estudo e pesquisa de teologia da França desde o fim do século 13. Nesse mesmo lugar, está a Basílica de Santa Maria Madalena, um dos mais antigos centros de peregrinação da França desde antes da Idade Média, no início do cristianismo, onde estão enterrados os restos mortais de Santa Maria Madalena”, explica o pesquisador.

Quando Alceu volta dessa viagem, publica um livro intitulado A Europa de Hoje, em que narra suas passagens pelo continente, incluindo dois ensaios sobre a visita ao convento e à basílica, que serão abordados no evento virtual.

 

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