Gustavo Piqueira
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Três novos projetos de Gustavo Piqueira vão às fronteiras dos gêneros

Autor prossegue sua busca para além dos limites dos suportes físicos comuns de livros com 'Ar Condicionado', 'Nove Meses' e 'Desvios'

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 Setembro 2018 | 06h00

Inclassificável é uma palavra corriqueira, porém precisa, para definir o trabalho de Gustavo Piqueira: escritor, artista visual, designer e editor, seus projetos não se encaixam em definições comuns. Três novos “livros”, muito diferentes entre si, chegam agora às livrarias: Ar Condicionado (Veneta), Nove Meses (Lote 42) e Desvios (WMF Martins Fontes).

Os livros serão lançados neste sábado, 29, na inauguração da Sala Tatuí – o novo espaço da Lote 42 no centro de São Paulo. Piqueira também vai levar a sede do seu estúdio de design, a Casa Rex, para o mesmo endereço (R. Barão de Tatuí, 302), um andar abaixo.

Autor de duas dezenas de livros (ele prefere a palavra “projetos”), Piqueira lança agora sua primeira graphic novel – mas não exatamente. “Caro leitor, ainda que não pareça, este livro foi feito para ser lido”, avisa o autor nas primeiras páginas de Ar Condicionado

O aviso vem a calhar porque à primeira vista a conjunção de texto e imagem não é exatamente convidativa, e a narrativa sequencial do livro não se dá quadro a quadro, como num quadrinho comum. O efeito inicial se desfaz, porém, após as primeiras páginas, quando o livro “ensina” o leitor a como ser lido.

O texto ocupa a silhueta dos personagens e aos poucos fica claro que ali estão os pensamentos de cada um – uma torrente frenética e muitas vezes banal.

À primeira vista, o que mais chama atenção em Nove Meses é o inseto inserido num globo de resina acoplado à capa do livro – na verdade, da caixa que contém o livro, e que traz também um folheto de fotos e uma série de cartões postais.

O livro em si é um romance que intercala a história da Doves Press – pequena gráfica particular britânica, cuja tipografia foi centro de uma disputa amarga entre seus sócios, história real que aparece em partes traduzidas do diário de um deles – com uma ficção sobre um pai de primeira viagem.

Os postais ilustram passagens do livro e fazem associações com a história – o folheto com as fotos, tiradas por Piqueira em Londres em 2017, mostra o local no Rio Tâmisa em que as fontes da Doves Press foram descartadas por um dos sócios em 1913. O inseto pode ser uma representação da transitoriedade das coisas que o livro pretende abordar.

Já com Desvios, é melhor o leitor não se enganar com a aparência de livro de arte (ou de fotografia), porque o que a obra busca é justamente questionar como o nosso olhar – o da elite cultural paulistana, nas palavras do autor – é constantemente enviesado. Em uma viagem para o sertão nordestino, Piqueira percebeu que estava indo atrás dos clichês ao observar e fotografar fachadas das casas populares – a percepção o fez pensar e resultou nas interrogações do livro.

“Via de regra, num livro, há uma hierarquia do texto sobre os demais elementos visuais ou editoriais. No meu trabalho, me interessa não me importar com isso", atesta o autor.

“No começo as pessoas achavam que esse meu trabalho era uma bobagem. A crítica, por exemplo, buscava muito a linguagem literária. Mas a pretensão, a sofisticação do projeto, não está no texto isolado do resto”, reflete o autor. “Eu quero que gostem do meu livro, claro. Mas percebi que se fizer algo e achar que está bom, é melhor. Fazer querendo agradar alguém é o primeiro passo para dar uma facilitada. Já desisti da fama”, ri.

A graphic novel Ar Condicionado, por exemplo, tem dois eixos perpendiculares de narração: as imagens contam a história de alguns personagens num dia de trabalho comum; o texto, inserido na silhueta humana dos desenhos, representa o pensamento dessas pessoas, completamente isoladas umas das outras mas ao mesmo ocupando os mesmos espaços. 

“O que me interessa é fazer coisas que vão abrir possibilidades de surgirem processos”, diz o autor. A ideia do processo, para ele, é tão importante, ou até mais, do que o produto final. “Eu não tenho o fetiche do livro. Mas como gosto de trabalhar com linguagem escrita, gráficos e narrativas complexas, é natural que os projetos se transformem em livros”, diz. “Quero fazer projetos que não caibam num post de Instagram.”

O mais incomum dos três projetos, Nove Meses, por exemplo, partiu de uma ideia de livro normal, textual.

“A história da Doves Press, folclórica, é muito interessante hoje num mundo em que você pode usar tudo de qualquer jeito”, diz Piqueira. “O cara que tinha aquela paixão pelo tipo dele… é uma paixão por existir, uma coerência, que parece rara hoje em dia.”

“O Nove Meses surgiu como texto, como ideia de narrativa que ao ler você sabe do que se trata, sabe como ela se organiza. Ela se resolveria bem só como texto. Mas fiquei com pena de ter chegado onde cheguei e não fazer nada, não abrir espaço para outras narrativas e linguagens. Então fui acumulando, e essa montagem levou dois anos”, explica o autor.

Desvios é à primeira vista um projeto de fotografia que retrata fachadas de casas no sertão nordestino. Mas o livro vai além ao questionar o olhar “da elite cultural paulistana” sobre o próprio País. “O livro não serve para achar as casas bonitas ou feias, mas sim para discutir o que a gente olha. Não há respostas. Acho que está faltando mesmo um pouco de perguntas.”

Quando o autor não encontra a “pureza monocromática” que foi buscar no sertão, começa a se interrogar. E conclui: “E, no fim, tudo o que consegui dessa dissociação entre o clichê trazido de casa e as construções encontradas nos vilarejos e cidades foi mesmo um punhado de fotos, este livro e a incômoda sensação de possuir um olhar bem menos independente e apurado do que eu, até ali, acreditava carregar”, diz no livro.

AR CONDICIONADO

Autor: Gustavo Piqueira

Editora: Veneta (128 págs., R$ 49,90)

DESVIOS

Autor: Gustavo Piqueira

Editora: WMF Martins Fontes (120 págs., R$ 65)

NOVE MESES

Autor: Gustavo Piqueira

Editora: Lote 42 (168 págs., R$100)

Lançamento: Sábado, 29/9, a partir das 14h, na Sala Tatuí (Rua Barão de Tatuí, 302, sala 42, São Paulo)

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