EFE/Quique Garcia
EFE/Quique Garcia

Três escritores com pseudônimo de mulher ganham o prestigioso Prêmio Planeta

Resultado foi criticado por entidades femininas após escritores até mesmo criarem uma biografia para a autora fictícia

Miriam Berger, The Washington Post

18 de outubro de 2021 | 11h30

O trabalho de uma mulher era, ao que parece, o equivalente ao de três homens. Esse foi pelo menos o caso da principal escritora de thrillers policiais da Espanha, uma professora e mãe que escrevia sob o pseudônimo de Carmen Mola, supostamente para manter seu anonimato.

Mas, na noite de sexta-feira, 15, durante a cerimônia de entrega do prêmio literário Planeta de 1 milhão de euros (cerca de US$ 1,16 milhão) a Mola por seu thriller histórico A Besta, três homens subiram ao pódio e reivindicaram o prêmio.

Os romances emocionantes e frequentemente sangrentos de Mola, estrelados por fortes protagonistas femininas, foram comparados à obra de Elena Ferrante, pseudônimo de uma escritora italiana amplamente popular.

Mola é mais conhecida por uma trilogia estrelada por uma "peculiar e solitária" inspetora de polícia "que adora grappa, karaokê, carros clássicos e sexo em SUVs", segundo a editora Penguin Random House. Essa trilogia foi traduzida para 11 idiomas e está sendo adaptada para a televisão.

No ano passado, uma filial do Instituto da Mulher da Espanha listou A Garota, de Mola, que faz parte da trilogia, como uma das obras de leitura obrigatória por mulheres porque "nos ajudam a entender a realidade e as experiências das mulheres".

História de Carmen Mola

O último trabalho de Mola, A Besta, é um thriller histórico centrado no assassinato de crianças em Madri durante um surto de cólera em 1834. E os autores dessa história são Jorge Díaz, Agustín Martínez e Antonio Mercero, roteiristas consagrados da televisão espanhola, cujas idades giram em torno de 40 e 50 anos.

“Carmen Mola não é, como todas as mentiras que temos contado, uma professora universitária”, disse Díaz, após ganhar o prêmio Planeta, informou o Financial Times. "Somos três amigos que um dia, há quatro anos, decidiram combinar nosso talento para contar uma história."

O trio disse que escolheu o nome por acaso e por diversão - sem prestar atenção especial ao gênero do nome ou às possíveis implicações. "Não sei se um pseudônimo feminino venderia mais do que um masculino, não tenho a menor ideia, mas duvido", disse Mercero ao jornal espanhol El País. "Não nos escondemos atrás de uma mulher, nos escondemos atrás de um nome."

Controvérsias

Mas há quem discorde.

“Além de usar um pseudônimo feminino, esses caras passaram anos dando entrevistas como uma autora”, disse Beatriz Gimeno, ex-diretora do Instituto da Mulher, em sua conta no Twitter após o anúncio do prêmio. "Não é apenas o nome - é o perfil falso que eles usaram para convencer os leitores e jornalistas. Eles são golpistas."

A página de Mola no site do agente inclui uma foto em preto e branco de uma mulher magra de costas para a câmera.

"Não passou despercebido a ninguém que a ideia de uma professora universitária e mãe de três filhos, que dava aulas de álgebra pela manhã e depois escrevia romances ultraviolentos e macabros em pouco tempo livre à tarde, era uma grande operação de marketing", publicou o jornal El Mundo, da Espanha, no texto com uma entrevista com os autores.

No passado, inúmeras mulheres publicaram sob pseudônimos masculinos para proteger sua privacidade e contornar preconceitos comerciais e sociais contra escritoras.

Em uma reviravolta adicional, A Besta foi primeiro submetido para a disputa do prêmio sob um pseudônimo diferente; os autores então atribuíram o trabalho a Mola. O prêmio é concedido a textos inéditos que, como reza o regulamento, deverá ser publicado pela editora do Grupo Planeta. O livro deve ser lançado no próximo mês, supostamente com Mola listado como o autor.

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