Renato Parada
Renato Parada

Trama com mafiosos inspira novo romance do mexicano Juan Pablo Villalobos

Escritor fala em SP sobre 'Ninguém Precisa Acreditar em Mim'

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2018 | 06h00

O humor é um assunto sério para o escritor mexicano Juan Pablo Villalobos. “O riso é uma maneira de pensar, de se comunicar, até mesmo quando se trata de assuntos trágicos e dolorosos”, disse ele, certa vez, ao Estado. Foi o que o impulsionou a escrever uma trilogia crítica sobre seu país, construída basicamente por tramas absurdas e, por isso mesmo, hilariantes. O sarcasmo volta em seu mais recente romance, Ninguém Precisa Acreditar em Mim (Companhia das Letras), que ele lança nesta quinta-feira, 28, no Sesc Avenida Paulista, em conversa com as escritoras Andrea del Fuego e Vanessa Ferrari.

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A trama acompanha o mexicano Juan Pablo (sem relação com o autor), que decide viajar com a namorada Valentina para Barcelona, onde pretende fazer um doutorado sobre a presença do humor na literatura latina do século 20. Antes de embarcar, no entanto, ele acaba envolvido por um primo desastrado em um grupo de mafiosos, que vai conduzir todos seus passos na cidade catalã. Inicialmente um ato libertário, a viagem se torna outro tipo de prisão, como se Juan Pablo não conseguisse se desprender do México.

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Villalobos, o autor, também vive em Barcelona e seu país também inspira sua escrita e, principalmente, alimenta seu humor cáustico. Se aqui não é tão acentuada como nos romances anteriores, a ironia é decisiva para tornar seu olhar muito particular. Por e-mail, ele respondeu as seguintes questões.

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O doutorado de Juan Pablo sobre os limites do humor na literatura latino-americana do século 20 é uma forma de esclarecer que o romance tem consciência de si mesmo?

Há uma disposição para explorar os mecanismos do humor na literatura, por meio de digressões (dos narradores ou dos personagens em seus diálogos), e, mais importante, por meio da apresentação desses mecanismos. O protagonista, Juan Pablo, uma paródia de mim mesmo, sofrerá na própria pele o exercício desses limites de humor. É um personagem que pertence ao mundo acadêmico, teórico, e que, no romance, tem um encontro violento com a realidade.

É necessário ser pessimista para mostrar humor cáustico?

Não é imprescindível, mas, no meu caso, é a realidade mexicana que impõe o tom dos meus romances. Eu vejo o humor não apenas como uma ferramenta de entretenimento, mas como uma estratégia para refletir sobre os problemas do país, capaz de criar consciência crítica. Infelizmente, a realidade mexicana não convida ao otimismo.

Algumas reflexões que já estavam em romances anteriores tornaram-se explícitas, como a questão sobre os limites do humor. Por que isso aconteceu agora neste romance?

O romance é uma paródia do mundo acadêmico, da vida universitária dos estudantes de doutorado, da autoficção do latino-americano aspirante a escritor que vai morar na Europa. Há uma oposição entre os personagens que pertencem a este mundo e aqueles que vêm do mundo do crime. Nesse choque, coloco em prática os limites do humor. Em certo sentido, é um romance de teses: tem sua teoria e sua prática.

Por ter escrito uma tragicomédia, você acredita que é possível dizer que alguns momentos da história são absurdos?

Toda ficção tenta responder uma questão elementar: o que aconteceria se...? No caso deste romance, a questão é diferente: o que teria acontecido se...? O que teria acontecido se, quando eu fosse morar em Barcelona para fazer um doutorado, uma rede de criminosos me tivesse ameaçado para trabalhar para eles? A resposta, é claro, é uma paródia da autoficção e das literaturas íntimas. Por esse motivo, há quatro narradores que usam, todos, as formas de literatura narrativa íntima: Juan Pablo escreve um romance autobiográfico, Valentina um diário, a mãe e o primo de Juan Pablo, cartas. A ideia não era usar as convenções desses gêneros, mas colocá-los em uma ficção cada vez mais absurda e implausível. Daí o título do romance. No chamado “pacto autobiográfico”, o autor pede ao leitor que acredite nele. Eu peço que você não acredite em mim.

A presença de Roberto Bolaño parece-me muito forte.

Estou interessado em Bolaño como escritor, como expatriado e imigrante, como alguém que não podia mais ser considerado um escritor chileno, estritamente falando, mas nem mexicano nem catalão. Isso acontece não apenas nos temas e enredos de seus romances, mas, especialmente, no nível da linguagem: em que espanhol escreve Bolaño? É aí que me sinto identificado. Na ideia de fazer uma literatura que transcenda as fronteiras do nacional. Moro fora do México há 15 anos e não posso e não quero fingir que sou, exclusivamente, um escritor mexicano. Quero reivindicar toda a literatura latino-americana, a espanhola e a catalã, a brasileira também (a tradução da narrativa brasileira tem tido uma grande influência no meu trabalho). Portanto, neste romance, há registros de língua espanhola do México, é claro, mas também a fala espanhola e catalão, a argentina, ou o espanhol falado pelos italianos, chineses ou paquistaneses em Barcelona. É um romance transnacional, embora isso soe como uma empresa farmacêutica, sobre a Barcelona multicultural da imigração.

No romance, o que mais te interessa é mostrar a importância da literatura na nossa vida?

Todo romance tem a aspiração de dizer algo profundo sobre a existência, mas eu gosto de fazer isso na superfície. Acredito que banalidade ou frivolidade são essenciais para entender nossa época.

NINGUÉM PRECISA ACREDITAR EM MIM

Autor: Juan Pablo Villalobos

Tradução: Sérgio Molina

Editora: Companhia das Letras (264 págs.,R$ 54,90)

Lançamento: Sesc Avenida Paulista. Av. Paulista, 119. Hoje (5ª), 20h. Grátis. Retirada com 1 h de antecedência 

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