Suzy Allman/The New York Times
Suzy Allman/The New York Times

Trajetória de David Foster Wallace é revista com nova coletânea lançada nos EUA

Numa ficção fatiada e notas sarcásticas para a mãe, um gênio cósmico destilado

Jante Maslin, The New York Times

24 Dezembro 2014 | 14h42

NOVA YORK - É o momento certo para The David Foster Wallace Reader (Little, Brown and Company), uma antologia pensada para servir a propósitos diferentes de leitores diferentes.

Para os casuais, se Wallace tem algum, é uma coletânea sólida, mas compacta, de Maiores Sucessos: David Foster Wallace Light. Afinal, ele é mais conhecido por Infinite Jest (1996) (publicado no Brasil como Graça Infinita), um romance de 1.079 páginas que sozinho é 110 páginas mais longo do que esta coletânea.

Como reintrodução, ou mesmo introdução, a Wallace, que cometeu suicídio em 2008, é um lembrete do deleite transgressivo, digressivo, que ele podia causar. Para professores, é um manual adequado para estudantes avessos à ortodoxia capazes de furar a carapaça da reputação de Wallace e ler sua obra com olhos frescos. E mesmo para aqueles que se aventuraram superficialmente por ele, é uma sacudidela de puro gênio - de um horror. Há prazeres imensos, intricados, a serem experimentados ociosamente aqui, e eles não deveriam ser vislumbrados como a paisagem de um trem em movimento acelerado.

Os editores deste livro tentaram expor todo o alcance de seus talentos, sabendo perfeitamente que esta é uma tarefa impossível. Tudo que eles puderam fazer foi oferecer uma seleção de sua ficção (trechos que ocupam 600 páginas do texto), e acrescentar uma amostra menor de sua não ficção e jornalismo.

O material original que cobre a distância entre ficção e não ficção parece mais excitante do que acaba sendo. Trata-se de uma seleção de apostilas de aulas de Wallace (Renata Adler, George Saunders, J. D. Salinger e Joan Didion estavam entre os escritores sobre os quais lecionou) e os deliciosos e-mails cheios de segredos gramaticais que ele trocava com sua mãe e colega de magistério, Sally Foster Wallace.

Ler os planos de aula de Wallace conjura o sonho de ouvi-lo ensinar sua própria obra. Ele rotineiramente pedia para alunos nomearem os textos que eram significativos para eles e “explicar por que cada história o interessou tanto, se puder”. Ele fazia o melhor que podia para conseguir respostas honestas. E era muito melhor discutindo textos bons do que cozinhando exemplos de material ruim. Por mais desconjuntados que sejam os trechos de sua ficção nesta antologia, não têm como eles não enfatizarem que a única verdadeira falha de Wallace, a verborragia, era uma virtude oculta.

The David Foster Wallace Reader teria se beneficiado de um ensaio biográfico que acrescentasse algum contexto ao homem e sua vida.

Leitores não precisariam extrapolar da ficção, mas ele torna isso inevitável. Sim, ele foi um ótimo jogador de tênis em seus anos de escola, ao ponto de esta ter sido uma das experiências mais eufóricas de sua vida. Sim, ele também travou (e finalmente perdeu) uma longa e terrível batalha contra a depressão.

Este livro começa com o conto de 1984. The Planet Trillaphon as It Stands in relation to the Bad Thing, a primeira obra de ficção publicada por Wallace. Ele apareceu durante seus anos de graduação no Amherst College e descreve as razões porque seu personagem central está vivendo como um extraterrestre graças a ajuda de uma droga antidepressiva e a eletroconvulsoterapia (tratamento com eletrochoques). Todo o problema começou “depois de um incidente altamente ridículo envolvendo eletrodomésticos na banheira sobre as quais eu realmente não desejo falar muito”, ele admite cautelosamente.

Além de ser o tipo de ilustração de má construção de frase que Wallace mais tarde daria a seus alunos, essa citação oferece uma prova de que não havia muita coisa que ele não pudesse transformar em matéria-prima de humor, mesmo quando ela tão claramente fosse verdadeira. Com seus vinte e poucos anos, ele podia escrever com arrepiante presciência sobre depressão (“the Bad Thing”) como algo que devorava o corpo, e suicídio como uma questão de “apenas ser organizado”. O estratagema todo do conto é ressaltar as coisas sinistras que ocorrem ao “soldadinho encrencado” que o narra. O que parece notável, olhando retrospectivamente, é o absoluto controle que o jovem escritor tinha do material que deve ter sido uma considerável fonte de angústia, além de inspiração criativa.

É mais fácil antologiar contos do que um romance monumental. E os livros grandes sofrem com o fatiamento inevitável. Os editores e críticos que ocuparam cargos de consultoria fornecem os comentários sobre trechos desconjuntados de Graça Infinita (cerca de 200 páginas dele) e The Pale King, entre outras obras. Juntos, eles oferecem um espectro de vislumbres de livros longos e movimentados que não podem ser captados desta maneira.

A única vantagem concebível do fatiamento é oferecer uma noção do virtuosismo de Wallace, seja como um fantasista, um radical, uma pessoa ética (em sua não ficção), um turista (no navio de cruzeiro Zenith, que ele mentalmente rebatizou Nadir, para sua clássica peça de viagem, A Supposedly Fun Thing I`ll Never Do Again), ou crítico cultural (E Unibus Pluram). Alguns leitores, com apetites estimulados por um mero livro levantável, poderão sair desta coletânea prontos para revisitar os textos de David Foster Wallace em seu estado nativo integral. / Tradução de Celso Paciornik 

THE DAVID FOSTER WALLACE READER

Autor: David Foster Wallace

Editora: Little, Brown and Co. (976 págs., R$128,50, importado)

POR AQUI

‘Graça Infinita’ (2014)

‘Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo’ (2012)

‘Breves Entrevistas Com Homens Hediondos’ (2005)

Mais conteúdo sobre:
David Foster Wallace

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