Walter Craveiro/Divulgação
Walter Craveiro/Divulgação

Tradutores de clássicos discutem a Bíblia e Safo em mesa 'cabeçuda' da Flip

Frederico Lourenço e Guilherme Gontijo Flores apresentaram seus novos trabalhos em discussão instigante em Paraty

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

27 de julho de 2017 | 21h36

PARATY - Dois tradutores dos clássicos se juntaram na noite desta quinta-feira, 27, em Paraty, para discutir seus novos trabalhos. Frederico Lourenço, português e professor da Universidade de Coimbra, veio ao Brasil lançar o primeiro volume da sua nova versão da Bíblia, traduzida diretamente do grego, pela Companhia das Letras. 

Guilherme Gontijo Flores, brasileiro e professor da Universidade Federal do Paraná, publicou a tradução dos fragmentos poéticos de Safo, pela editora 34. O mediador Ángel Gurría-Quintana brincou que na mesa seriam definidos “amor, ódio, história da literatura... e se ainda sobrar um tempinho, Deus”.

Ambos leram trechos das obras em grego - Gontijo inclusive cantou os versos de Safo, em grego e em português, com base na "partitura rítmica" criada pela língua original.

Lourenço definiu seu novo projeto (depois de traduzir diferentes autores clássicos, de Homero à própria Safo) como o mais “apaixonante” de sua vida. “A novidade é sobretudo não ser uma Bíblia teológica, mas sim crítica e histórica”, disse. Ele comentou que “mudou a chave” em relação aos outros textos literários. “Faz parte do meu projeto de apresentar uma tradução da Bíblia tão isenta quanto possível e simultaneamente tão literal quanto possível. Muitas vezes quando consultava as traduções antigas, perguntava a mim mesmo por que eles traduziram tão afastados do texto grego.”

Gontijo justificou sua nova tradução de Safo, agora a terceira completa no Brasil. “Não havia nenhuma tradução que tentasse aliar filologia, rigor da leitura, com a poesia que se pretendesse poética mesmo”, comparou. “Tentei recusar a polaridade, mas fazer as duas coisas.”

Ambos os tradutores comentaram as diferenças entre verter textos clássicos para o português de Portugal e o português do Brasil.

"Notamos que a unificação nos mercados de língua espanhola é muito maior do que nos de língua portuguesa", disse Gontijo. "Traduções do mesmo texto de Portugal e do Brasil se afastam, mas felizmente isso não impede que possamos ler, por exemplo, as do Frederico estão aqui, de Homero e da Bíblia."

Lourenço concordou. "É de uma riqueza extraordinária termos diferentes maneiras de usar a mesma língua", disse, e mencionou uma colega de universidade do Ceará que foi a Coimbra apresentar o seu "Aristofánes cearense". "Foi uma experiência riquíssima", concluiu.

Bíblia. Um dos pontos altos da mesa foi o comentário de Lourenço sobre controvérsias entre os textos bíblicos dos evangelhos, especialmente sobre a palavra "virgem" para definir Maria, a mãe de Jesus. "Isso nunca é dito explicitamente em Marcos e João. A questão é se existiria algum versículo nesses dois textos em que poderíamos entender que a mãe de Jesus era virgem: essa é uma grande diferença entre a leitura teológica e a leitura histórica", comparou.

"Não há nenhuma palavra no evangelho de Marcos que diz que Maria era virgem. É um dado objetivo." Lourenço também comentou que o apóstolo Paulo, autor de vários livros do Novo Testamento, nunca se refere à Maria. "É uma pessoa que para ele não existe. Talvez para os primeríssimos cristãos ainda não havia essa crença tão forte de ligar a mãe de Jesus ao versículo de Isaías. Historicamente, esse tema não era importante, ou era até inexistente. Mas ainda no século 1 se desenvolveu a ideia de que a mãe de Jesus era virgem."

Para ele, as abordagens históricas e teológicas da Bíblia são complementares, "uma não substitui a outra".

"Os evangelhos são textos literariamente tão extraordinários que a tradução acaba assim também. Isso é visível em qualquer versão. Sobretudo os quatro evangelhos são de uma beleza verbal tão grande que isso acaba por transparecer sempre", concluiu.

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