Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

Torneio nacional de slam reúne mulheres poetas em São Paulo

Idealizado pelo Slam das Minas, o Singulares – 1.º Torneio Nacional de Slams Protagonizados por Mulheres é aberto também para pessoas transgênero

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2019 | 03h00

Os papéis se invertem agora. Quatro meninas que se descobriram poetas nos saraus periferia adentro estão possibilitando que outras meninas e mulheres também encontrem nos versos um caminho, uma forma de expressão, uma força para lutar por espaço e pela palavra. 

Luz Ribeiro tem 31 anos. Mel Duarte e Carolina Peixoto, 30. E Pam Araújo, 24. Elas formam o coletivo Slam das Minas e recebem neste domingo, 24, no Sesc Ipiranga, 12 mulheres para o Singulares – 1.º Torneio Nacional de Slams Protagonizados por Mulheres, incluindo homens transgênero. Trata-se de uma batalha de slam (elas surgiram nos EUA nos anos 1980 e chegaram aqui nos anos 2000), onde cada participante tem três minutos para apresentar sua poesia, que será avaliada por um júri. Pode haver improviso, mas geralmente os textos são escritos previamente e ensaiados – a performance ajuda.

O Slam das Minas acaba de completar três anos e nasceu deu uma necessidade, elas contam. Em 2015, na segunda edição do Slam BR, o primeiro campeonato de poesia falada do Brasil, participaram 7 homens e 8 mulheres. Só uma foi para a semifinal e ficou por ali, recordam. 

“As rimas e as poesias eram equiparadas, mas percebemos que a recepção do público e dos jurados para os versos femininos era diferente. Mesmo sendo um ambiente cultural onde se tem uma discussão sobre gênero, raça e classe, um lugar para fomentar vozes pouco ouvidas, vimos ali um quê da sociedade: homens sendo mais bem aceitos que as mulheres”, diz Luz Ribeiro ao Estado. 

Naquele dia, quando a competição estava premiando um homem pelo segundo ano, algumas poetas começaram a discutir a criação de slams exclusivamente femininos. O primeiro Slam das Minas foi realizado em Brasília. Poucos dias depois, em março de 2016, surgiu o de São Paulo. Hoje, são 17 do gênero pelo Brasil.

Nesses espaços dedicados a mulheres, elas treinaram e ganharam confiança – e foram batalhar nos slams mistos. Luz Ribeiro, eliminada na primeira fase do Slam Br em 2015, voltou no ano seguinte e ganhou – e foi representar o Brasil em campeonato na França. Em 2017, Bell Puã foi a vencedora. No ano passado, quem ganhou foi Pieta Poeta.

Se o objetivo inicial era garantir uma vaga feminina na final das competições nacionais, os ganhos foram muito além. Aumentou o número de mulheres nos saraus e nas batalhas – e não apenas na plateia – e aumentou o número de mulheres escrevendo e publicando livros. “Percebemos que, no fundo, essa história da vaga é o de menos perto do público que conseguimos angariar nos slams, perto das questões que estavam sendo discutidas e das redes que formamos”, diz Mel Duarte. “E tem um contexto histórico também, esse levante das mulheres. A questão do feminismo está sendo cada vez mais abordada e isso contribuiu para que o slam tivesse o crescimento que teve e está tendo. Estávamos no lugar certo na hora certa”, completa.

 

E quais são as questões que mobilizam a escrita? Sobre o que se fala nos slams? “Sobre o que mexe comigo e, infelizmente, a maioria dessas coisas é ruim por conta da sociedade em que vivemos”, responde Carolina Peixoto.

 

“No modo macro, escrevo sobre coisas que eu não consegui vocalizar durante a vida: machismo e racismo. E ainda que as temáticas sejam afetivas, que o poema seja sobre meu filho (Ben dormia tranquilo no seu colo), não tem como não encontrar um viés de negritude e de feminino porque isso me compõe”, comenta Luz.

 


Pam Araújo descobriu por acaso um sarau no meio do seu caminho e depois, também por acaso, o Slam da Guilhermina – e passou a levar a sério uma paixão da infância: a escrita. “Sou poeta porque essa foi uma válvula de escape que encontrei para me livrar dos maus psicológicos e escrevo sobre tudo.” 

 


“A poesia, do jeito que ela bater no seu coração, ela fica, e pode te despertar para alguma coisa e ajudar a entender como estamos próximos, que fazemos parte de um todo e que ela é para todo mundo, não para ficar no pedestal”, diz Mel que também viu sua vida, e sua relação com a literatura, mudar num sarau. “Foi ali que eu criei a minha coerência. Foi no sarau que eu consegui me reconhecer como mulher negra e ter discernimento social e político. Ali entendi que algo que fez parte do que eu vivi pode fortalecer outra pessoa, que a palavra pode mudar vidas, nos fazer refletir.” Aprendeu isso nos saraus que passou a frequentar em 2008, e vê isso no dia a dia no Slam das Minas.

Participantes do Singulares – 1.º Torneio Nacional de Slams Protagonizados por Mulheres

Bruna Mara - Slam das minas (SP)

Ayo Lima - Slam Marginalia (SP)

Sabrina Azevedo - Slam Chicas da Silva (RJ)

Bor Blue Slam - Dandaras do Norte (PA)

Ca Jota - Slam Luana Barbosa Presente (SP)

Gigi Reis - Slam das Manas (MG)

Rool Cerqueira - Slam das Minas (BA)

Gênesis - Slam das Minas (RJ)

Priscila Ferraz - Slam das Minas (PE)

Lara Nunes - Slam das Mulé (BA)

Marcela Venturim - Slam Camelias (MS)

Tiatã - Slam das Minas (RS)

 

SINGULARES - TORNEIO NACIONAL DE SLAMS PROTAGONIZADOS POR MULHERES 

Sesc Ipiranga. R. Bom Pastor, 822. Dom. (24), 14h. Grátis

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