Damon Winter/The New York Times
Damon Winter/The New York Times

Toni Morrison situa novo romance num mundo estranho, hoje

‘God Help the Child’, da ex-professora de Harvard, ex-editora e Nobel de 1993, reflete sobre raça, amor e egocentrismo

Hillel Italie , Associated Press

25 de abril de 2015 | 03h00

NOVA YORK - Toni Morrison escreveu 11 romances e conquistou todos os grandes prêmios, mas viu-se em dificuldades com seu novo livro, God Help the Child – A Novel. Grande parte da sua obra, de Amada a Jazz, se situa num passado distante. Mas a história de God Help the Child se desenrola numa época mais próxima, no presente, de início ela não sabia ao certo como definir.

“É muito autorreferencial. Uma das coisas mais importantes que vêm ocorrendo é ‘Eu, eu e eu’. ‘Olhe-me. Olhe a minha foto. Olhe meu romance. Escrevo sobre mim. Veja minha história’”, disse ela durante nossa entrevista no seu apartamento, em Manhattan. “Não me entenda errado. Em parte, isso é muito bom. Mas não é uma invenção de algo que você não conhece. É sobre você.”

Não existe ninguém que se assemelhe a Toni Morrison em seu romance, ninguém que viva mesmo que remotamente como esta famosa escritora de 84 anos, laureada com o prêmio Nobel em 1993. Pelo contrário, ela escreveu um conto de fadas moderno, com personagens com um único nome, características mágicas e transformações e perguntas sobre raça e amor e como pôr fim à desgraça do egocentrismo.

Bride, uma mulher negra de pele tão escura a ponto de sua mãe, Sweetness, cujo tom de pele é mais claro, ter pavor da filha, é uma empreendedora do setor de cosméticos, obcecada por uma terrível transgressão cometida na infância: estimulada pela mãe, acusou inescrupulosamente um professor da escola de abusar dela sexualmente. Ao mesmo tempo, seu desnorteado amante, Booker, jamais se recuperou do assassinato do irmão por um adulto em que todos confiavam, um homem aparentemente “a pessoa mais afável do mundo”. Bride e Booker não conseguem fugir das suas inquietações, nem deles próprios. Ele é um homem excessivamente traumatizado para sustentar um relacionamento longo, ao passo que ela está tão paralisada pela dúvida e a aversão a si mesma que os sentimentos desaparecem. “Memória é a pior coisa quando se trata de cura”, ela observa.

Toni Morrison acredita que seu trabalho como escritora é mudar drasticamente as ideias convencionais, seja sobre raça (uma criação da sociedade, diz ela) ou felicidade. O amor romântico ou a realização profissional é a solução ideal em muitas histórias; Morrison defende a “aquisição da consciência”; Sweetness, por exemplo, é uma mãe irresponsável, mas, pelo menos, admite isso.

“Eu era bonita”, ela pensava, “realmente bonita e achava que isto bastava”, afirma Sweetness. “Bem, na verdade, foi assim até o momento em que tive de me tornar uma pessoa real, ou seja, alguém que pensava.” Inteligente o bastante para saber que excesso de peso era uma condição e não uma doença; inteligente o bastante para ler as mentes de pessoas egoístas, imediatamente. Mas a inteligência chegou tarde para seus filhos. 

Nascida em Lorain, Ohio, em 1931, Toni Morrison era uma leitora compulsiva desde a infância. Deu aula por vários anos na Howard University, antes de ingressar na Random House em meados da década de 1960 como editora, na época a única mulher negra nesse setor – o que pouco mudou durante décadas. Foi também uma mãe solteira que no seu tempo livre trabalhou no que foi seu romance de estreia, O Olho Mais Azul (The Bluest Eye), publicado em 1970.

Nos 20 anos seguintes, ela ascendeu ao topo do mundo literário, vencendo o National Book Critics Circle em 1977 pelo seu romance A Canção de Solomon (Song of Solomon), depois o Prêmio Pulitzer em 1988 por Amada (Beloved) e o Prêmio Nobel em 1993. Um dos seus segredos, diz ela, é a “tinta invisível”, a capacidade de enviar uma mensagem sem fazer pregação, como omitir a cor da pele das suas personagens em Paraíso (Paradise). Somente se libertando do “olhar branco”, do “pequeno crítico que o provoca”, a tinta invisível pode fluir. 

“Era esta linguagem, esta cultura e estas pessoas, e eu conseguia me expressar a respeito da mesma maneira que Tolstoi escreveu sobre os russos”, afirma ela. “Sempre achei que isso não elimina o leitor branco. Basta ser um que se concentra nesta cultura e nessas pessoas e torne tudo algo relevante para todos.”

Escrever é o caminho enveredado por Morrison para sair de si mesma, um caminho que ela empreende sozinha, na sua imaginação: a era da Guerra Civil em Amada, os anos 20 em Jazz, os tempos coloniais em Compaixão (A Mercy). 

Professora emérita da Universidade Princeton, ela lembra de ter abordado com seus alunos a criação literária: “Não quero saber das suas vidinhas. Vocês não sabem nada”. Então pediu que eles escrevessem histórias sobre outros tempos, outras pessoas. Um projeto foi escrever sobre a escravidão, não a escravidão americana, mas qualquer tipo de escravidão. 

“Uma garota da Índia escreveu sobre eunucos”, lembra ela. “Eu achava que eram todos conselheiros dos romanos ou algo parecido. Mas ela escreveu sobre eunucos na sociedade e o que eles significavam e onde tinham de colocar seu sexo, uma caixa que era enterrada com eles quando morriam. E como as pessoas tocavam neles para terem boa sorte.” Ampliem a imaginação, ela aconselhou. Escrevam sobre algo que vocês não entendem.

“Assinei um contrato com a Knopf para um livro de memórias, há alguns anos. Mas, então, decidi não escrever esse livro. Pensei, ‘não é interessante. Não há nada novo’. Quero dizer, tudo aquilo que eu escrever já é conhecido.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

GOD HELP THE CHILD: A NOVEL

Autora: Toni Morrison

Editora: Knopf (192 págs.; US$ 24,95, importado)

Tudo o que sabemos sobre:
CulturaLiteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.