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A escritora vencedora do Nobel Toni Morrison no documentário 'The Pieces I Am', de Timothy Greenfield-Sanders. Magnolia Films

Toni Morrison, prêmio Nobel de Literatura, morre aos 88 anos

Escritora americana, autora de 'Amada', foi a primeira mulher negra a ser escolhida como Prêmio Nobel de Literatura, em 1993

Ubiratan Brasil e Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2019 | 10h32
Atualizado 06 de agosto de 2019 | 16h54

A escritora e prêmio Nobel de Literatura Toni Morrison morreu nesta segunda-feira, 5, aos 88 anos. A autora de Amada e outros livros morreu no Montefiore Medical Center, em Nova York, depois de uma breve doença, segundo comunicado da família divulgado pela editora Alfred A. Knopf. Uma porta-voz informou que a causa foram complicações de uma pneumonia.

"Toni Morrison morreu em paz, ao lado da família e de amigos", diz a nota da família da escritora. "A autora completa que tinha em alta conta a palavra escrita, seja dela mesma, dos seus estudantes ou de outros, ela lia vorazmente e quando escrevia, ficava a maior parte do tempo em casa. Apesar de sua passagem representar uma perda tremenda, estamos gratos que ela teve uma vida longa e bem vivida."

Morrison era mais conhecida pelo romance Amada, que lhe rendeu o Pulitzer de ficção em 1988. Jazz (1992) e Paraíso (1997) completaram uma espécie de trilogia. Mas mesmo antes de sua conclusão, em 1993, lhe foi atribuído o Prêmio Nobel de Literatura, transformando-a na primeira mulher negra a ser escolhida para a distinção. Segundo o comitê da Academia Sueca, o prêmio foi dado a Morrison, uma escritora "que, em romances caracterizados por força visionária e e teor poético, dá vida a um aspecto essencial da realidade americana".

Em 2015, ela publicou seu último romance, o décimo primeiro, intitulado Deus Ajude Essa Criança (9 de seus livros foram publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras).

Antes de se tornar uma autora conhecida mundialmente, Morrison trabalhou como editora para a Random House por 19 anos, revelando uma geração de escritores como Angela Davis, Gayl Jones e Toni Cade Bambara. Ela também foi professora da Universidade de Princeton entre 1989 e 2006.

Toni tornou-se famosa nos Estados Unidos por apresentar a história dos afro-americanos (por ser uma, ela se sentia no direito de usar a expressão “negros”) não apenas como figuras determinantes na construção do país, mas principalmente como alvo de uma segregação que ainda se impõe, mesmo que de forma mais velada. 

Nascida em 1931 como Chloe Anthony Wofford (adotou o pseudônimo por considerar seu primeiro nome de difícil pronunciação) na cidade de Lorain, Ohio, Toni foi obrigada ainda pequena a se mudar com os pais para o norte dos EUA, para escapar dos problemas raciais do sul. A situação marcou profundamente a formação e tornou sua obra um exemplo de histórias em que a cor da pele dos personagens é determinante. 

Ao longo dos anos, desenvolveu uma prosa seca, direta, desprovida de dramalhões, e com uma ponta, ainda que pequena, de otimismo. Habituou-se ainda a tratar de temas fortes em sua ficção, como pedofilia, prostituição, preconceito racial. Por isso, ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1993, tornando-se a primeira mulher negra a ser honrada com a premiação.

Em 2006, Toni veio ao Brasil, onde participou da 4ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Foi a mesa mais concorrida daquele evento. Durante a conversa, revelou seu desconforto com o rótulo de representante da literatura negra e feminina – chegou a mudar bruscamente de assunto, respondendo ter ficado feliz com o Nobel de Literatura, o que arrancou risos da plateia.

Toni foi incisiva, na Flip, ao citar a carga de 250 anos de escravidão, garantindo que pretendia tornar a realidade da comunidade afro-americana em algo bonito, mas “palatável”.

Em 2005, em entrevista exclusiva ao Estado, Toni explicou o motivo da presença constante de mulheres lascivas em sua prosa: “Uma mulher 'sem-lei' ou 'fora da lei' apresenta um rico território para se examinar uma cultura. E sempre foi um terreno fértil na literatura: Antígona, Hester Prynne (de A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne), Medeia, Sylvia Plath, Emma Bovary, Anna Karenina – eu poderia continuar citando infinitamente”.

Ao escrever sobre negros, a autora americana garantiu que não utilizava dados biográficos. “Cada um dos meus romances tem sido um esforço de examinar outras percepções, comportamentos contraditórios, o impacto do racismo ‘legalizado’ e contínuo contra aqueles que insistiram em resistir, sobreviver e triunfar. Algumas daquelas estratégias funcionam; outras falham”, disse.

Toni via também uma dificuldade em dissociar arte da política. “A arte determinada a ser apolítica é algo meramente favorável a manter o status quo, portanto, acaba agindo como algo político de qualquer forma”, disse. “O debate completo sobre arte política versus não política é algo não apenas político, como também relativamente novo. Afinal, quem teria questionado sobre isso a respeito de Shakespeare, Tolstoi ou qualquer outro antes de 1939 e a eclosão da guerra?”

E a escritora americana revelou ser conhecedora da literatura brasileira. “A indiferença dos editores norte-americanos em traduzir livros de outros países é notória. Apenas conhecemos alguns poucos. Mas já li Jorge Amado, Nélida Piñon, Clarice Lispector e Rubem Fonseca. Atualmente, há um incentivo maior (graças ao Pen e seus prêmios literários) para aumentar o número de traduções de todas as partes do mundo. O que certamente é um alívio para nossa impenetrável estupidez.”

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Toni Morrison: Obama, Beyoncé e outras personalidades lamentam morte

A autora de 'Amada', prêmio Nobel de Literatura de 1993, morreu em um hospital em Nova York, após uma breve doença

Redação, AP

06 de agosto de 2019 | 16h19

NOVA YORK — A morte da escritora norte-americana Toni Morrison provocou reações no mundo político e das artes nesta terça-feira, 6. A autora de Amada, prêmio Nobel de Literatura de 1993, morreu na segunda-feira, 5, em um hospital em Nova York, após uma breve doença.

"Toni Morrison morreu em paz, ao lado da família e de amigos", diz uma nota divulgada pela família da escritora. "A autora completa que tinha em alta conta a palavra escrita, seja dela mesma, dos seus estudantes ou de outros, ela lia e escrevia vorazmente em casa."

Veja a reação à morte de Toni Morrison

Barack Obama (ex-presidente dos EUA):

"Toni Morrison era um tesouro nacional. Sua escrita não era apenas bela, mas significativa — um desafio para a nossa consciência e um chamado para maior empatia. Ela era tão boa contadora de histórias, tão cativante, em pessoa quanto na página. E enquanto eu e Michelle sentimos sua perda e enviamos nossas simpatias mais calorosas para sua família e amigos, sabemos que suas histórias — que nossas histórias — sempre estarão conosco, e com aqueles que virão depois, e depois e depois, para todo o sempre."

Beyoncé (cantora):

"'Se você se deixar levar pelo ar, você pode montá-lo'. Descanse no paraíso."

Deputado John Lewis:

"A morte de Toni Morrison é um mandato para todos os outros no campo para completar a vocação elevada que seu trabalho e sua vida manifestaram. Suas palavras, sua sabedoria, seu amor imortal e comprometimento com o seu povo estão para sempre gravados nas páginas da história, mas sua voz literária inconfundível e artística fará muita falta." 

Kerry Washington (atriz):

"Não consigo imaginar crescer num mundo sem suas palavras. Rezo para que você descanse em paz e no Poder. Vamos celebrar sua vida com gratidão infinita e amor. Sempre."

Barry Jenkins (diretor):

"Eu apenas assumi que a Sra. Morrison viveria para sempre. E de várias maneiras em vários corações, mentes e espíritos, ela vai."

Walter Mosley (escritor):

"Ela era a melhor de nós: nossa força, nossa esperança, e mais importante, nossa história. Eu lamento sua morte embora saiba que ela nunca, nunca, irá embora."

Elizabeth Gilbert (escritora):

"Meu coração dói. Sua grandeza era absoluta. Suas palavras mudaram mundos. Seu trabalho sempre pertenceu ao imortal, e seu nome nunca será esquecido."

Shonda Rhimes (escritora e diretora):

"Ela me fez entender 'escritora' como uma profissão decente. Eu cresci querendo ser ela. Um jantar com ela é uma noite que eu nunca vou esquecer. Descanse, Rainha."

Roxane Gay (escritora e crítica cultural):

"Essa é uma perda devastadora para o mundo das palavras, para o nosso entendimento do poder e seu alcance, para o cultivo da empatia, para a narrativa rica, nuançada, elegante. Seu trabalho foi um presente para todos aqueles que tiveram o prazer de lê-la."

Chance The Rapper (músico):

"Toni Morrison me ensinou a palavra rememoração. Descanse em paz para uma mulher incrivelmente poderosa e impactante."

 

Bette Midler (cantora e atriz):

"Toni Morrison morreu. Justo quando mais precisávamos de sua voz, ela se foi. Obrigado pelos insights, pelas histórias e pela poesia do seu pensamento que nos enriqueceu por todos esses anos. Deite o seu fardo."

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Toni Morrison: os livros disponíveis no Brasil

Escritora americana deixou uma obra concisa mas poderosa: foram 11 romances entre 1970 e 2015, nove deles publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras

Redação, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2019 | 15h44

A escritora norte-americana Toni Morrison, morta nesta segunda-feira, 5, em Nova York, aos 88 anos, deixou uma obra concisa mas poderosa. Foram 11 romances entre 1970 e 2015, nove deles publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras.

Ao longo dos anos, a escritora desenvolveu uma prosa seca, direta, desprovida de dramalhões, e com uma ponta, ainda que pequena, de otimismo. Habituou-se ainda a tratar de temas fortes em sua ficção, como pedofilia, prostituição, preconceito racial. Por isso, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1993, tornando-se a primeira mulher negra a ser honrada com a premiação.

Veja a seguir uma lista com os livros de Toni Morrison disponíveis no Brasil

O Olho Mais Azul (1970)

Romance de estreia, sobre menina negra que sonha ter olhos azuis numa época em que o modelo de beleza é o da atriz branca Shirley Temple

Amada (1987)

Baseado em uma história real, é ambientado em 1873, época em que os Estados Unidos começavam a lidar com as feridas da escravidão recém-abolida

Jazz (1992)

Em 1926, o Harlem, bairro negro de Nova York, é povoado por camponeses que vieram em busca das promessas da cidade grande. O que se sobressai, porém, são injustiças contra mulheres

Paraíso (1998)

Primeiro romance publicado pela autora depois de receber o Nobel de Literatura. A ação se passa em Ruby, cidade onde todos têm o sangue cem por cento negro e são tementes a Deus

Amor (2003)

Por meio das lembranças de seis mulheres, a história de ódios e paixões em que o falecido proprietário de um hotel à beira-mar é o pivô dos conflitos

Quem Leva a Melhor? (2008)

Três fábulas originalmente contadas por Esopo e La Fontaine (A Cigarra e a Formiga, O Leão e o Rato e O Vovô e a Cobra), ganham nova versão, com tom contemporâneo

Compaixão (2008)

A condição da mulher negra nos Estados Unidos, desta vez situando a narrativa em 1690, nos primórdios da nação americana

Voltar Para Casa (2012)

Veterano de guerra vive em profundo conflito com seus fantasmas, perturbado pela enorme culpa de ser um sobrevivente e pelas atrocidades que cometeu

Deus Ajude Essa Criança (2015)

Em um conto de fadas moderno, propõe uma difícil questão: o que fazer com o erro cometido por uma criança, quando ele foi motivado por uma força contra a qual ela era incapaz de lutar?

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TV ESTADÃO: Toni Morrison: Eu sei como escrever para sempre

Anúncio foi feito após a recontagem de 10% das urnas, escolhidas ao acaso; oposição reclama de fraude

29 de junho de 2009 | 14h34

O Conselho dos Guardiães, principal órgão eleitoral do Irã, afirmou nesta segunda-feira, 29, que a eleição do dia 12 no país foi válida. O anúncio foi feito após uma recontagem parcial dos votos. Os resultados oficiais apontaram para a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Partidários da oposição, porém, reclamam de fraudes generalizadas.

 

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Segundo a televisão estatal, o citado órgão - que deve validar os resultados - não encontrou grandes irregularidades, após fazer uma apuração parcial que afetou 10% das urnas, escolhidas ao acaso. "O secretário-geral do Conselho, aiatolá Ahmad Jannti, informou por carta tanto ao Ministério do Interior quanto aos candidatos" derrotados, afirmou a fonte.

 

Poucas horas antes que a citada apuração começasse "frente às câmeras da televisão estatal", um dos aspirantes derrotados, o reformista Mehdi Karroubi, voltou a insistir em que a única solução aceitável é a repetição das eleições. Uma postura compartilhada também pelo reformista Mir Hussein Mousavi, o vencedor do pleito, segundo a oposição, que denunciou uma fraude "em massa e premeditado" a favor de Ahmadinejad e não aceita a apuração Ambos rejeitaram esta semana participar de uma comissão especial proposta pelo próprio Conselho para supervisionar o processo de recontagem dos votos, ao considerar que não poderia ser "imparcial".

 

O Conselho de Guardiães admitiu na semana passada que houve irregularidades - como o fato de que, em 50 cidades, tenha havido mais votos que eleitores recenseados -, mas disse que era algo "habitual" em qualquer processo eleitoral, por isso descartou a exigência da oposição de novas eleições. "A apuração acontece em frente às câmeras de televisão em várias províncias e cidades do país, e seu resultado será divulgado", disse o porta-voz do Conselho, Abbas Ali Khadkhodai.

 

A televisão estatal "Press TV" transmitiu ao vivo o processo em um distrito em Teerã, onde foram abertas 34 urnas que deram, segundo o representante do Conselho de Guardiães, "um balanço positivo, sem grandes irregularidades".

 

Os protestos após a eleição já deixaram pelo menos 20 mortos no país, segundo informações oficiais, sendo 17 manifestantes e sete membros da milícia pró-governo Basij. Os números não podem ser confirmados, por causa das restrições impostas ao trabalho da imprensa internacional. A oposição exige uma nova eleição e rejeita a recontagem parcial.

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