Daniel Dorsa/The New York Times
Daniel Dorsa/The New York Times

‘Tom Stoppard’ fala de uma vida imensa e vivida em constante movimento

Biografia escrita por Hermione Lee detalha as aventuras do dramaturgo, agora com 83 anos

Dwight Garner, The New York Times

18 de fevereiro de 2021 | 11h00

Tom Stoppard, dramaturgo judeu de origem tcheca, chegou à Inglaterra com sua família em 1946, quando ele tinha 8 anos de idade. Eles conseguiram fugir da Tchecoslováquia antes da chegada dos nazistas e passaram anos em Cingapura e na Índia. Mais tarde, ele se caracterizou como um “tcheco saltitante”.

Stoppard tomou a Inglaterra como seu país adotivo. Ficou impressionado com seus valores, especialmente a liberdade de expressão. Ficou muito impressionado com um de seus esportes: o críquete.

Ele jogou na escola (Stoppard não fez faculdade) e, assim que teve sucesso no teatro, no time de Harold Pinter em Londres, os Gaieties. A rivalidade era com uma equipe do jornal The Guardian. Pinter era um ogro em campo. Ele comandava a equipe, disse Stoppard, “feito um professor de escola preparatória dos anos 1930”. Stoppard era o wicketkeeper, todo estiloso com suas enormes luvas vermelhas e brilhantes.



Stoppard não é um dramaturgo autobiográfico. Mas sua obsessão pelo críquete o levou a um dos grandes momentos de sua obra. Sua peça The Real Thing (1982) fala sobre teatro, relacionamentos e política - uma personagem é atriz, outra tenta libertar um soldado escocês preso por queimar uma coroa de flores durante um protesto. A peça traz aquele que ficou conhecido como o discurso do taco de críquete. Aqui vai um trecho:

“Esse negócio aqui, que parece um taco de madeira, na verdade são vários pedaços de madeira montados de um jeito astuto, de maneira que tudo fique liso, feito uma pista de dança. É para rebater bolas de críquete. Quando você acerta, a bola voa duzentos metros em quatro segundos, e tudo o que você fez foi bater nela como se fosse uma tampa de garrafa de cerveja, e ela faz um barulho, como se fosse uma truta pegando a mosca (Ele estala a língua para fazer o barulho)”.

A maneira como o taco de críquete bate na bola e a faz navegar uma distância improvável, nas mãos de Stoppard, vira uma metáfora para a escrita. Nenhum dramaturgo vivo fez com tanta frequência aquele som tão bonito (estala a língua para fazer barulho).

O adjetivo stoppardiano - empregar humor elegante ao abordar questões filosóficas - entrou no Oxford English Dictionary em 1978. Suas peças são árvores nas quais ele sobe, precariamente, em cada galho. Essas árvores estão sempre balançando. Tem uma eletricidade no ar, como antes de uma tempestade de verão.

Entre as peças mais conhecidas de Stoppard se encontram Rosencrantz and Guildenstern Are Dead, The Real Thing, Arcadia e The Coast of Utopia. (Seu trabalho mais recente, Leopoldstadt, por enquanto está suspenso por causa da covid-19). Ele colaborou no roteiro de Shakespeare Apaixonado e escreveu ou trabalhou em dezenas de outros roteiros de filmes. Também escreveu um romance e uma série de roteiros para rádio e televisão.

Agora com 83 anos, ele leva uma vida imensa. Na nova biografia astuta e confiável, Tom Stoppard: A Life, Hermione Lee consegue enfiar tudo nas páginas. Às vezes você fica com a sensação de que ela está caçando uma raposa na floresta. Stoppard está sempre em movimento - voando de um lado para outro através do Atlântico, cuidando das muitas remontagens de suas peças, mantendo os pratos girando, militando em nome de dissidentes, artistas e prisioneiros políticos no Leste Europeu, proferindo palestras, recebendo prêmios, retocando scripts, dando festas luxuosas, cultivando a amizade de Pinter, Vaclav Havel, Steven Spielberg, Mick Jagger e outros. Uma vida encantadora, vivida por um homem encantador. Alto, elegante, olhos grandes, cabelos desgrenhados; para as mulheres, Stoppard foi um pacote de estímulos ambulante.

Já existia uma biografia de Stoppard, escrita por Ira Nadel e publicada em 2002. Lee diz que Stoppard “não a leu”. Deve ter acreditado em sua palavra.



Lee é uma biógrafa importante, escreveu escrupulosas vidas de Virginia Woolf, Edith Wharton, Willa Cather e Penelope Fitzgerald. Seu livro sobre Stoppard é admirável, mas assustadoramente longo; às vezes fica meio lento. As seções que detalham a pesquisa de Stoppard para suas peças parecem intermináveis, como se Lee nos tivesse arrastado para a biblioteca e nos dado um lápis para anotar tudo. Como muitos de nós durante a pandemia, Tom Stoppard: A Life poderia perder 15% do peso corporal.

Lee é boa de escavar as coisas, mas não espere baixarias. Faz tempo que Stoppard é uma presença constante nos tabloides da Inglaterra; o holofote sobre seus relacionamentos às vezes se tornava uma lâmpada de interrogatório. Mas Lee afirma que as pessoas, até mesmo suas ex-esposas, que são duas, o consideram um cara decente. Ele continuou leal aos velhos amigos. É um homem de família que deixava a porta do escritório aberta para os filhos. Teve o mesmo agente e editor por décadas.

Lee acompanha o arco da política de Stoppard ao longo do tempo. A maioria das pessoas vira para a direita à medida que envelhece; Stoppard foi para o outro lado. Um dos motivos pelos quais este livro diverte é que Stoppard tem opinião sobre quase tudo e, geralmente, essas opiniões são bem espirituosas.

Ele pensa, por exemplo, que a arte surge da dificuldade e do talento. “Técnica sem imaginação”, diz um de seus personagens, “é artesanal e nos dá muitos objetos úteis, como cestas de piquenique de vime. Imaginação sem técnica nos dá a arte moderna”. (O nome do personagem é Donner, e Stoppard disse: “Donner sou eu”).

Stoppard é um leitor maníaco que coleciona as primeiras edições dos escritores que admira. Quando, em 1984, o programa de rádio da BBC Desert Island Discs lhe pediu para escolher o livro que ele levaria para uma ilha deserta, ele respondeu: o Inferno de Dante, numa edição bilíngue italiano / inglês, para que ele pudesse aprender um idioma enquanto lia um de seus livros favoritos. Sua ideia de uma boa morte, ele disse, seria ter uma estante caindo sobre ele, matando-o instantaneamente, durante a leitura.


Tradução de Renato Prelorentzou 

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