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Tolstói-Dostói

Esse foi um dos vários Fla-Flu com que topei na vida; nunca me fez sentido cotejar aqueles dois gigantes do século 19

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2021 | 05h00

Era assim, com atrevida intimidade e ditongos acentuados, que nos meus tempos de colégio nos referíamos à granítica zaga da literatura russa. Tolstói vs. Dostói foi um dos vários Fla-Flu com que topei na vida. Outros: Marlene-Emilinha, Drummond-João Cabral, Machado-Alencar, Clair-Renoir, Pelé-Garrincha. Sempre indiferente ao resultado. Até que um dia, no confronto Tólstoi-Dostoievski, alguém replicou "Turgueniev", e a brincadeira mixou para sempre. 

Nunca me fez sentido cotejar aqueles dois gigantes do século 19, menos ainda em escala futebolística. Nem sequer agora com o bicentenário de Dostoievski coincidindo com a volta do Botafogo à Série A. (Segundo o devaneio taxonômico do poeta e alvinegro Paulo Mendes Campos, Dostoievski era – ou teria sido – botafoguense e Tólstoi torceria pelo Flamengo.) 

A rivalidade é antiga, despontou na Rússia e, aqui, durante o Estado Novo, quando as livrarias se encheram de romances russos traduzidos do francês, do italiano e do inglês, praxe rompida preliminarmente pela editora Cultura, do letão Georges Zelkoff, bem ruinzinho de português, e, para valer, só mesmo depois que Boris Schnaiderman traduziu Os Irmãos Karamazov para a Editora Vecchi, em 1944.

Leitura da alta adolescência, familiarizei-me com Dostoievski não pelas edições da José Olympio, assinadas por escritores como Rachel de Queiroz e Rosário Fusco, e sim quando a Aguilar lançou suas obras completas.

Nossas esquerdas, de algum modo influenciadas pela implicância dos soviéticos com Dostoievski, apegaram-se mais a Tólstoi. O restante do espectro – onde cabiam nacionalistas, carolas e até comunistas – preferiu o controverso gênio de São Petersburgo, que mais fundo mergulhou na alma humana e seus conflitos com o vício, a solidão, a pobreza, a sordidez e a redenção, e diagnosticou melhor do que Tólstoi as insânias da modernidade. 

Aprendi com Edmund Wilson que “raskolnik” quer dizer dissidente em russo. Por suas ideias algo raskolnikovianas (via o socialismo ateu e o capitalismo como galhos da mesma árvore), Dostoievski caiu em desgraça nas duas primeiras décadas do domínio bolchevique. “Não perco tempo com porcaria”, reagiu Lênin a uma pergunta sobre o autor de Crime e Castigo, que, aliás, qualificou de “vômito moralizante”. Que eu saiba, só reconheceu algum valor no verismo de Recordações da Casa dos Mortos. No calor dos expurgos stalinistas, os ataques ao “inimigo ideológico” aumentaram. Vilipendiado nos congressos de escritores soviéticos, em 1934 e 1935, só acabou reabilitado depois da morte de Stalin. 

A quem duvidar que ele seja mais atual do que Tólstoi, recomendo a leitura de O Grande Inquisidor, no final de Karamazov. Até o bolsonarismo aquela metafórica narrativa inquisitorial, ambientada na Sevilha do século 16, é capaz de explicar. 

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