Thriller de Paula Hawkins mostra que autora sabe lidar com o suspense

Thriller de Paula Hawkins mostra que autora sabe lidar com o suspense

Com 4 milhões de exemplares vendidos, trama saborosa captura os leitores

Marcelo Mirisola , Especial para o Estado

29 de agosto de 2015 | 04h00

Resenhar um best-seller com todos os ingredientes comuns a produtos que existem para satisfazer aquilo que os marqueteiros chamam de público-alvo é, antes de qualquer coisa, um grande exercício de humildade e autocontrole. Às vezes de satisfação.

Satisfação de desafiar a presunção de nossa superioridade (do leitor que se acha especial porque consome “alta literatura”) quando nos deparamos ou nos obrigamos – como no meu caso – a encarar essa tarefa. Quantas vezes deixamos de ler um livro porque consta da lista dos mais vendidos ou porque o gênero (esotérico, biografia, autoajuda) é “menor”? 

Talvez esse complexo de cachorro grande seja o grande vilão da literatura brasileira contemporânea. Aqui, em nossas plagas, autores estreantes que nem bem publicaram o terceiro livro são comumente aproximados de vultos do feitio de Faulkner, Lispector, Cortázar e daí para cima a estratosfera é o limite. Não tenho notícia de qualquer estreante que tenha sido comparado a Marcos Rey, por exemplo. Os parâmetros comparativos de nossos críticos – às vezes até mais megalômanos que os candidatos a Beckett da vez – são, em última análise, a projeção da nossa literatura. 

Sob esse aspecto, A Garota no Trem (editora Record) – livro de Paula Hawkins que se destacou por 20 semanas no pódium dos mais vendidos do The New York Times – é exemplar. Não é o caso de compará-la a Marcos Rey, longe disso. Todavia Hawkins nos oferece um thriller feijão com arroz cuja “mistura” é saborosíssima. À guisa de três narradoras nada confiáveis, os acontecimentos se sobrepõem em sequência, daí que as revelações e o suspense, e até as pistas falsas, se ajustam em seus respectivos escaninhos e incomodam (ou prendem) o leitor na medida certa. Al dente. Nunca a ponto de chateá-lo. Tudo fora do lugar e dentro dos conformes. O nome disso é trama. Artifício que a grande maioria dos novos talentos de nossa literatura preferiu abrir mão. 

Creio que não será necessário citar figurões da literatura de todos os tempos que usaram e abusaram desse recurso. Infelizmente, hoje, somente escritores “menores” parecem “tramar” sem medo de serem felizes. Às vezes, portanto, é estratégico baixar a bola. Mais “cães da meia-noite”, menos vacas de narizes empinados e nada sutis.

Voltando ao livro que vendeu mais de 4 milhões de exemplares e foi traduzido em 44 idiomas. Apesar de saber lidar com o suspense e, apesar da competência na amarração de ciladas e ganchos narrativos, a única ressalva que faço ao livro de Paula Hawkins é a associação – no caso protocolar e forçada demais – que ela faz entre mulheres desaparecidas e a violência contra as mesmas.

A “garota no trem” não é tão garota assim. Somente uma quarentona deprimida e alcoólatra seria capaz de ensejar as fantasias de domesticidade que a personagem põe em prática ao embarcar todo dia às oito horas e quatro minutos na estação Ashbury rumo a Londres. Paula Hawkins sabe o que é verossimilhança.

A voz da narradora finge (para si mesma e para o leitor e para as outras vozes que a complementam) que embarca rumo ao trabalho, mas, no percurso de todo dia, vislumbra paisagens refletidas através da janela do trem, e acaba idealizando a si mesma. Assim, imagina a vida de um casal que é vizinho de uma residência onde “ela” supostamente morou com um sujeito que a teria trocado por outra mulher – nesse ponto, no futuro do pretérito, Paula Hawkins se aproxima daquilo que o marqueteiro citado no primeiro parágrafo dessa resenha chamaria de público-alvo.

Aquele que não devaneou e não passou por uma experiência de alteridade numa viagem de trem ou de metrô que atire a primeira pedra. 

Capturado o leitor, preso no enredo, ou enredado nas fantasias domésticas da autora/passageira, é chegado o momento de alguma coisa acontecer. Hawkins é um relógio. A especialidade dos relógios é fazer o tempo desaparecer. E é isso o que acontece, é isso o que leitor-público-alvo inconscientemente quer que aconteça, e sabe que vai acontecer.

Quem é que não desejou embarcar numa estação de trem e nunca mais desembarcar na outra, e sumir para sempre? 

A garota do trem, deprimida, sonhadora e alcoólatra cumpre seu destino de tédio, vilipêndio, violência sugerida e amnésia, e desaparece. Os ponteiros dos segundos (ou os outros personagens) funcionam a contento, e evidentemente irão dar testemunhos do tão esperado e eloquente sumiço da heroína que nasceu para ser best-seller e blockbuster. Testemunhos que não seriam muito diferentes da rotina do leitor(a) que subiu na estação Corinthians-Itaquera/Ashbury e vai descer ou desaparecer para sempre na Londres/Marechal Deodoro.

A GAROTA NO TREM

Autor: Paula Hawkins

Tradução: Simone Campos

Editora: Record (378 págs., R$ 35)

MARCELO MIRISOLA É AUTOR DE 'HOSANA NA SARJETA' E 'O AZUL DO FILHO MORTO' (34), ENTRE OUTROS

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