Jenn Ackerman/The New York Times
Jenn Ackerman/The New York Times

'The Sentence' está entre os romances mais mágicos de Louise Erdrich

Novo livro da autora vencedora do Pulitzer talvez seja a melhor obra sobre a pandemia até agora

Ron Charles, The Washigton Post

19 de novembro de 2021 | 10h00

A pandemia de coronavírus ainda está se espalhando e Deus sabe que leremos romances sobre ela por anos e anos, mas The Sentence, de Louise Erdrich, talvez seja o melhor que já recebemos. Nem releitura sombria dos lockdowns nem exagero apocalíptico do vírus, seu livro oferece o tipo de reflexão nova que só o tempo pode propiciar e, ainda assim, é tão atual que a tinta parece fresca.

Este é o mistério da obra de Erdrich, e The Sentence está entre seus romances mais mágicos, mudando de tons com a felicidade de um pássaro zombeteiro. Ela observa que a língua nativa americana de seus ancestrais “abrange formas intrincadas de relações humanas e infinitas maneiras de brincar” e explora esse espectro ao longo das páginas: uma história de detetive meio boba dá lugar aos horrores da brutalidade policial; vidas arruinadas se transformam repentinamente na redenção; mortes de meio milhão de americanos acontecem enquanto um fantasma mal-humorado faz suas travessuras. Mas a presença permanente aqui é o amor.

E os livros – muitos e muitos livros. O romance está repleto de outros livros. Eu estava anotando cada um deles até descobrir o apêndice de Erdrich, que lista mais de 150 títulos amados. Esteja preparado: The Sentence é aquele raro romance sobre o efeito transformador da literatura que chega com seu próprio glossário.

A narradora, Tookie, é uma ladra condenada que tem um apreço arduamente adquirido pelas palavras usadas para construir histórias. Ela abre o romance anunciando: “Quando estava na prisão, recebi um dicionário”. Ela imediatamente procurou a palavra “sentença” porque “ouvi uma sentença impossível de sessenta anos dos lábios de um juiz que acreditava na vida após a morte”.

Felizmente, essa punição severa não a leva para o além. Na verdade, depois de ler todos os livros da biblioteca da cadeia “com uma atenção assassina”, Tookie é libertada em 2015, décadas antes do que temia.

Por ter passado tanto tempo sonhando com uma seleção mais ampla do que a prateleira de livros da prisão, ela decide procurar emprego numa livraria. Apenas um empregador responde a seu currículo: “um lugarzinho modesto”, especializado em literatura indígena americana e propriedade de uma romancista chamada Louise.

Os fãs reconhecerão a romancista empreendedora como a vencedora do Prêmio Pulitzer e seu “lugarzinho modesto” como a Birchbark Books, que Erdrich possui em Minneapolis. Não é a primeira vez que Erdrich se inscreve na própria ficção: sua obra-prima, Shadow Tag, de 2010, foi inspirada na dissolução de seu casamento com o escritor Michael Dorris. Mas em The Sentence, Louise é só uma personagem secundária, uma dona benevolente e um tanto distraída que admite: “É um momento sombrio para as pequenas livrarias e provavelmente não vamos sobreviver”, mas oferece o emprego a Tookie.

Parece ser o bastante para Tookie, cujo status de ex-presidiária lhe dá poucas opções. “Sou uma mulher feia”, ela nos diz, “não sou bonita nem por dentro”. Mas ela conhece seus pontos fortes. “Minha roupa favorita era jeans preto, bota de cano alto preta, camisa de futebol preta, piercing no nariz, piercing na sobrancelha, bandana preta justa para prender o cabelo no lugar”, diz ela. “Quem se atreveria a não comprar um livro de mim?”

Não há como negar o charme áspero de Tookie – nem seu orgulho crescente quando ela diz: “Resisti à tentação de roubar o caixa e resisti à tentação de roubar informações de cartão de crédito”. Esse turbilhão de capítulo de abertura mostra até mesmo Tookie encontrando o amor e o casamento com uma pessoa muito improvável. “Sabendo o que sei sobre a história da minha tribo, lembrando o que consigo lembrar da minha própria história”, diz ela, “só posso dizer que a vida que vivo agora é uma vida de paraíso”.

O grande arco dessas primeiras trinta páginas – assaltos arrebatadores! Angústias da cadeia! Opostos-que-se-atraem! Comédia romântica! – poderia fornecer todo o material necessário para um romance inteiro, mas Erdrich tem outra coisa em mente: é uma história de fantasmas – embora diferente de qualquer outra que eu tenha lido. O ectoplasma do romance paira entre os reinos do horror histórico e da comédia cultural.

No final de 2019, a cliente mais chata de Tookie morre. Mas, cinco dias depois, Flora está de volta à livraria, assombrando as pessoas. Tookie pode ouvi-la arrastando os pés, derrubando livros das prateleiras. “Já é bem perturbador quando uma cliente morre”, diz Tookie, “mas a recusa teimosa de Flora em desaparecer começou a me irritar”.

Quando estava viva, Flora era irritante de um jeito muito peculiar: era totalmente devotada às causas dos indígenas americanos – ajudava adolescentes indígenas, arrecadava dinheiro para um abrigo para mulheres nativas, comparecia a todas as reuniões e protestos. Mas havia algo de assustador e ganancioso no ativismo de Flora, no seu desespero para convencer as pessoas de sua herança indígena. “Ela era muito persistente”, diz Tookie. Seu desejo de ser uma nativa americana acabou se tornando uma “ilusão sincera, inexplicável, insistente e obliterante”.

Depois de sua cremação, nada muda. “Assim na morte como na vida”, Tookie suspira, “ela não conseguia se mancar”.

Fazer com que Flora descanse em paz será mais difícil do que qualquer venda que Tookie já tenha feito, e esse exorcismo logo se depara com outros velhos espíritos que assombram o romance, junto com novos espectros surgindo. A pandemia de coronavírus ameaça extinguir a economia, a começar pelas lojas de varejo. E o assassinato de George Floyd desencadeia uma onda de dor e raiva. “Nosso país se arrastava sob um manto de tristeza”, diz Tookie. “Um zumbido contínuo de pânico”.

Quando as pessoas estão morrendo, chorando e se isolando, que tipo de refúgio uma pequena livraria consegue proporcionar?

Ao que parece, um refúgio surpreendentemente eficaz. “Era mais do que um lugar”, diz Tookie, “era um nexo, uma missão, uma obra de arte, uma vocação, uma loucura sagrada, um pedaço de excentricidade, uma coleção de pessoas boas que se mexiam e se reorganizavam, mas se preocupavam profundamente com a mesma coisa: livros”.

Este poderia ser um tema sentimental – há prateleiras e prateleiras de romances celebrando livrarias – mas Erdrich complica esse sentimento caloroso. Movendo-se em seu próprio ritmo peculiar, com um escopo que parece a um só tempo enclausurado e expansivo, The Sentence captura um ano traumático na história de uma nação que luta para valorizar sua própria diversidade. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU.

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