Textos curtos de Augusto Monterroso ganham nova edição

Livro de autor hondurenho traz uma simplicidade enganosa

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

04 de julho de 2014 | 20h00

Menos de 50 letras tornaram famoso o escritor hondurenho Augusto Monterroso (1921-2003) - afinal, é assinado por ele O Dinossauro, o microconto mais famoso do mundo e que se limita a uma única frase: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá". “Esse fenômeno de brevidade e concisão correu o mundo em múltiplas traduções, despertando abracadabrantes teorias sobre as suas mais recônditas intenções alegóricas ou metafóricas", escreveu Sérgio Augusto no Estado, em 2003, ano da morte do escritor.

Quando se buscavam explicações para um texto tão enxuto, Monterroso desconversava: "Não me agrada explicá-lo. Prefiro deixá-lo entregue à imaginação de cada um". Na verdade, basta conhecer um pouco mais da obra de um autor tão importante como desconhecido no Brasil para se entender um pouco de seu estilo - homem de estatura mediana (1,60m), aspecto frágil, Augusto Monterroso deixou uma escrita enxuta, irônica, extremamente crítica, que transmitia um bom humor em relação à existência humana.

Um estilo muito semelhante ao de Millôr Fernandes (1923-2012), que também pregava a concisão como melhor caminho para um bom texto. Não foi por acaso, aliás, que Millôr traduziu um dos raros livros de Monterroso publicados no Brasil, A Ovelha Negra e Outras Fábulas, editado pela Record em 1983, que ganha agora uma nova e bem-vinda edição pela Cosac Naify.

Se a nova versão deve algo à da Record, é a ausência das ilustrações de Jaguar. No mais, ali estão 40 minicontos cuja marca principal é a utilização do humor para criticar situações de injustiça social. Como em "O raio que caiu duas vezes no mesmo lugar", um dos menores textos do livro (28 palavras), que mostra a amargura de um raio que, como diz o título, atingiu duas vezes um mesmo lugar e se sentiu deprimido por acreditar que, na primeira vez, fez um estrago suficiente.

"Não se engane, leitor, com a aparente simplicidade desse bestiário", escreve Vilma Arêas, no texto de apresentação de A Ovelha Negra. "Ele é encharcado de veneno. Vira pelo avesso o gênero exemplar da fábula, animando-a com o sopro das grandes paixões do autor: a literatura e a política."

De fato, Monterroso, apesar de nascido em Honduras, passou a juventude na Guatemala e, em 1944, foi obrigado a se exilar no México, fugindo de uma ditadura. Lá, permaneceu mesmo depois que a situação aparentemente se acalmou em seu país. A condição assumida de apátrida aguçou-lhe o senso crítico para as diversas dificuldades com as quais era obrigado a conviver e, antes de semear um espírito beligerante, incentivou-lhe a criatividade, a mordacidade.

Um exemplo clássico está em A Ovelha Negra, uma das melhores fábulas do livro. Ali, Monterroso conta a história de uma ovelha negra fuzilada pelas demais. Passado um século, o rebanho, arrependido, ergue uma estátua em sua homenagem, que orna muito bem o parque. O inusitado vem a seguir: a partir daí, todas as ovelhas negras passam a ser mortas, para que as demais, comuns e vulgares, possam exercitar a arte da escultura. "Assim, a 'moral da fábula', fecho comum à milenar tradição do gênero, transforma-se em imoralidade exposta", observa Vilma Arêas.

A concisão é uma meta que exige trabalho criterioso e também árduo. O mexicano Juan Villoro, cujos novos livros em português são tratados na capa deste Caderno 2, participou, em 1976, de um workshop com Monterroso. Eram poucos alunos, mas o ensinamento ficou sedimentado. "Em suas palavras, a literatura apresentava-se para nós como uma montanha quase intransponível”, escreveu Villoro, em um artigo sobre o mestre. “Nós, que participamos de sua oficina literária, lhe devemos a generosa noção do risco literário."

Villoro e seus colegas aprenderam uma lição detalhada pelo crítico e tradutor Eric Nepomuceno, em artigo publicado no Estado em 1997, no qual afirma, certeiro: "A concisão absoluta de seus relatos breves espelha uma de suas convicções literárias: para Monterroso, ‘a frase não deve aparecer, não deve ser vista: o que deve aparecer, o que deve ser visto, é o que a frase diz'."

"A sátira elegante, que demole a soberba dos poderosos, e a presença de bichos como personagens centrais de muitos de seus contos e suas pequenas fábulas formam outra das características de seu estilo e seu trabalho", continua Nepomuceno. "O manejo da arte de narrar demonstrado por Monterroso abriu novos caminhos para a literatura das últimas décadas na América espanhola, embora não tenha criado exatamente seguidores: ele é um desses escritores cuja influência se espalha muito além de uma eventual quadrilha de copiadores."

A OVELHA NEGRA E OUTRAS FÁBULAS

Autor: Augusto Monterroso

Tradução: Millôr Fernandes

Editora: Cosac Naify (98 págs.,R$ 29,90)

Fábulas

No princípio, a Fé removia montanhas só quando era absolutamente necessário, e por isso a paisagem permaneceu igual a si mesma durante milênios.

Porém, quando a Fé começou a propagar-se e as pessoas começaram a achar divertida a ideia de mover montanhas, estas não faziam outra coisa senão mudar de lugar, e cada vez era mais difícil encontrá-las no lugar em que a gente as tinha deixado na noite anterior: coisa que, se percebe, criava mais dificuldades do que as resolvia.

A boa gente preferiu então abandonar a Fé, e agora as montanhas geralmente permanecem em seu lugar. Quando numa estrada acontece um desmoronamento debaixo do qual morrem vários viajantes é porque alguém, muito longe ou por ali mesmo, teve uma ligeiríssima recaída de Fé."

(A Fé e as Montanhas)

"Em um país distante existiu faz muitos anos uma Ovelha negra.

Foi fuzilada. Um século depois, o rebanho arrependido lhe levantou uma estátua equestre que ficou muito bem no parque. Assim, sucessivamente, cada vez que apareciam ovelhas negras era rapidamente passadas pelas armas para que as futuras gerações de ovelhas comuns e vulgares pudessem se exercitar também na escultura."

(A Ovelha Negra)

"Um menino de cinco anos explicava outra tarde a um de quatro que entre muitos deles se conserva a mais rigorosa pureza sexual e nem sequer se tocam entre sim porque sabem - ou pensam saber - que, se por acaso se descuidam e se deixam arrastar pela paixão própria da idade e copulam, o fruto inevitável dessa união contra a natureza é inexoravelmente um velhinho ou uma velhinha; que dessa maneira se diz que nasceram e nascem todos os dias os anciãos que vemos nas ruas e nos parques: e que talvez essa crença derive de que os meninos nunca veem jovens os seus avós e de que ninguém lhes explique de onde vêm; mas que na realidade a sua origem não é necessariamente essa."

(Origem dos Anciãos)

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