Wilton Junior/Estadão
Visitantes protestam contra tentativa de apreensão de livros LGBT na Bienal do Rio Wilton Junior/Estadão

Tentativa de censura ajuda a promover literatura LGBT na Bienal do Livro do Rio

A Bienal do Livro do Rio de Janeiro terminou no domingo, 8, com menos público, mais venda e uma forte reação de autores e editores contra vontade de Crivella de barrar venda de 'Vingadores - A Cruzada das Crianças' e outras obras

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

09 de setembro de 2019 | 11h45
Atualizado 12 de setembro de 2019 | 07h10

A Bienal do Livro do Rio de Janeiro reuniu, entre os dias 30 de agosto e 8 de setembro, 600 mil pessoas no Riocentro. Se por um lado o número total de visitantes vem diminuindo nos últimos anos - foram 680 mil em 2017 e 677 mil em 2015 - a venda de livros foi comemorada por editores e organizadores. Estima-se que tenham sido vendidos 4 milhões de exemplares - dos 5,5 milhões disponíveis - na Bienal.

O sábado, 7, foi o dia mais cheio, quando a Bienal registrou 100 mil visitantes. Era feriado, mas foi também o dia em que o youtuber Felipe Neto distribuiu cerca de 14 mil livros LGBT - numa resposta à polêmica iniciada na quinta-feira, 5, quando o prefeito Marcelo Crivella emitiu uma notificação exigindo que a Bienal protegesse as edições da HQ Vingadores - A Cruzada das Crianças, que trazia um casal gay, as inspeções dos fiscais da Prefeitura, que foram à feira em busca de "conteúdo impróprio" e as tentativas de barrar a venda de livros LGBT e de garantir a livre circulação de ideias na feira do livro.

Também em resposta à tentativa de recolher ou esconder os livros com o que o prefeito chamou de conteúdo impróprio, as editoras apresentaram seus livros LGBT com mais destaque nos últimos dias da feira, quando os visitantes também se manifestaram dentro do pavilhão. 

Para contextualizar: em 2017, o evento teve um dia a mais, e o 7 de setembro caiu numa sexta-feira, o que aumentou o número de visitantes. A feira esperava receber, este ano, 600 mil, o que resulta na mesma média da edição anterior.

Na coletiva de encerramento, escritores ainda divulgaram um manifesto contra “as insistentes tentativas de censura”, em que defendiam que o ataque de Crivella não era direcionado à Bienal do Livro, mas aos brasileiros. “Não precisamos ter quem determine o que podemos ler, pensar, escrever, falar ou como devemos nos relacionar”, diz o manifesto assinado, até domingo, por cerca de 70 autores.

Foi uma boa Bienal para a Planeta, que registrou aumento de 73% no faturamento, em comparação à edição passada. A Companhia das Letras, de 30%. E a Record, de 10% no geral e 75% no sábado, 7, em comparação com o segundo sábado da Bienal passada. Também no sábado, segundo a editora, a venda dos livros LGBTQI triplicou em relação à média dos dias anteriores desta edição da Bienal, com destaque para autores como David Levithan, Luisa Marilac, Lucas Rocha e Tobias Carvalho. Já a Intrínseca, que teve crescimento nulo em 2017, cresceu 18% agora - e obras como Boy Erased, sobre a ‘cura gay’, esgotaram no estande.

Dos 15.438 exemplares vendidos pela Faro, Destes 2.796 tinham a temática LGBTQI. Muitos deles esgotaram, como Homem de Lata, de Sarah Winman; 1+1: A Matemática do AmorO Garoto Quase Atropelado e Feitos de Sol, os três de Vinicius Grossos; e Rumo ao Sul, de Silas House.

Ao Estado, o diretor da Faro Editorial e curador do Jabuti, Pedro Almeida, disse nunca ter testemunhado algo parecido em 30 anos de indústria do livro, referindo-se ao episódio como um todo. 

"Quando avisaram no estande da Faro que teríamos de tirar os livros de exibição liguei para o meu sócio. Concordamos que faríamos o contrário", explicou. "Que não entrariam em nosso estande sem resistência e estes livros LGBTQI+ foram para a frente do estande. Decidimos colocar o cartaz para marcar o nosso território como se disséssemos 'aqui a censura não entra'. E o público reagiu de uma maneira que não esperávamos. Muita gente se sentiu ameaçada no direito de escolher."

O crescimento de venda geral nos estandes das editoras se justifica, também, porque a Livraria Saraiva, às voltas com sua crise e com a recuperação judicial, não foi à Bienal este ano e o público foi procurar os livros nas próprias editoras. 

Em 10 dias de feira, mais de 300 autores nacionais e estrangeiros, incluindo artistas, acadêmicos, filósofos, cientistas, lideranças religiosas e de movimentos sociais, ativistas e youtubers se revezaram pelos palcos da Bienal - sem contar a programação feita pelas editoras em seus estandes.

Destaques das editoras da Bienal do Livro 2019

A Editora Planeta, que levou 30 autores para a Bienal do Livro do Rio, registrou aumento de 73% nas vendas com relação à edição de 2017. Os livros mais vendidos em seu estande foram Felicidade, de Cortella; Karnal e Pondé, Cães e Gatos, de Carlos Ruas; O Que o Sol Faz Com as Flores, de Rupi Kaur; Aprenda a Viver o Agora, de Monja Coen; e Outros Jeitos de Usar a Boca, de Rupi Kaur. As sessões de autógrafos mais concorridas no estande foram de Fabi Santina, que autografou 130 exemplares de Você Acredita Mesmo em Amor à Primeira Vista?, e Paola Aleksandra, que assinou 100 cópias de Livre para Recomeçar.

O faturamento da Companhia das Letras na Bienal 2019 foi 30% maior do que na edição de 2017. Entre os cinco best-sellers da editora, obras que dialogam com questões atuais e títulos destinadas a jovens leitores, como Quem Tem Medo do Feminismo Negro, de Djamila Ribeiro; A Revolução dos Bichos, de George Orwell; Conectadas, de Clara Alves; O Céu Sem Estrelas, de Isis Figueiredo; e Rainha Vermelha, de Victoria Aveyard.

O faturamento da Intrínseca cresceu 18% em comparação com a Bienal do Livro de 2017 e livros LGBT+ fizeram sucesso no estande da editora, registrando um aumento de até 600% na venda. Com Amor, Simon, de Becky Albertalli, e Boy Erased, de Garrard Conley, esgotaram. Outros títulos em destaque foram Leah Fora de Sintonia, também de Becky Albertalli; E se Fosse a Gente, de Becky Albertalli e Adam Silvera; e Me Chame Pelo Seu Nome, de Andre Aciman. Os 5 livros mais vendidos no estande da Intrínseca foram: Stranger Things, de Gwenda Bond; A Sutil Arte de Ligar o F*da-se e F*deu Geral, de Mark Manson; O Homem de Giz, de C. J. Tudor; Quem é Você, Alasca?, de John Green.

O dia 7 de setembro foi um dos melhores dias da história do Grupo Record na Bienal do Rio, e as vendas foram quase 75% maiores do que o segundo sábado da Bienal 2017. Segundo comunicado da editora, a venda dos livros LGBTQI triplicou em relação à média dos dias anteriores desta edição da Bienal, com destaque para autores como David Levithan, Luisa Marilac, Lucas Rocha e Tobias Carvalho. “O que nos impressionou foi o desempenho no dia das polêmicas. Um resultado gratificante especialmente por mostrar que o leitor abraçou a defesa da liberdade de expressão e se posicionou contra a censura, a favor da Bienal livre”, afirma a vice-presidente do Grupo Editorial Record, Roberta Machado. 

O livro mais vendido do Grupo Record foi O Diário de Anne Frank - a editora criou um Anexo Secreto cenográfico na feira. O segundo colocado foi Wow! O Primeiro Contato, do chapecoense Pablo Zorzi. O terceiro, A Corrente, de Adrian McKinty. Os dois títulos de não ficção mais vendidos foram O Corpo Encantado das Ruas, de Luiz Antonio Simas, e Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire.

No estande da Sextante, Thalita Rebouças, com o lançamento Confissões de Uma Garota Linda, Popular, e (Secretamente) Infeliz; Bráulio Bessa, com Um Carinho na Alma; Fred Elboni, autor de Coragem é Agir Com o Coração; Augusto Cury, com Inteligência Socioemocional; e Nathalia Arcuri, com Me Poupe!, foram os destaques. Entre os estrangeiros, destaque para o monge budista Haemin Sunin e para a fundadora da Girls Who Code, Reshma Saujani.

Agir e Pensar Como um Gato, de Stéphane Garnier, e Destinos Quebrados, de Sofia Silva, foram os livros mais vendidos no estande da Editora Valentina. Outro destaque segundo a editora foi a coleção Para Quem Tem Pressa. Ainda segundo a editora, a presença constante das brasileiras Tammy Luciano e FML Pepper e da portuguesa Sofia Silva no estande e uma política agressiva de desconto ajudaram no bom resultado da editora na Bienal do Livro Rio 2019.

 

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'O brasileiro não precisa de tutor', diz manifesto assinado por autores na Bienal do Livro do Rio

No encerramento da Bienal do Livro do Rio, marcada pela polêmica envolvendo o prefeito Marcelo Crivella, obras LGBT e até o STF, escritores divulgaram manifesto contra censura

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

09 de setembro de 2019 | 07h33

No encerramento da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro neste domingo, 9, um grupo de escritores como Laurentino Gomes, Thalita Rebouças e Pedro Bandeira, além de editores e membros da organização da feira assinou um manifesto contra as "insistentes tentativas de censura" sofridas desde quinta-feira, 5, quando o prefeito Marcelo Crivella  mandou recolher exemplares da HQ Vingadores - A Cruzada das Crianças, obra da Marvel que mostra um casal gay se beijando.

Depois de algumas idas e vindas na Justiça, fiscais da Prefeitura circulando pelo Riocentro em busca de obras com conteúdo LGBT e uma forte reação de autores, editores e leitores, a Bienal do Livro do Rio terminou com um público de 600 mil pessoas e autores se organizando para defender a liberdade de expressão.

"Se engana quem pensa que o alvo era a Bienal Internacional do Livro. O alvo somos todos nós cidadãos brasileiros, pois não precisamos ter quem determine o que podemos ler, pensar, escrever, falar ou como devemos nos relacionar. O brasileiro não precisa de tutor. Precisa de educação para que cada um possa fazer suas escolhas com consciência e liberdade", escrevem no manifesto.

A Bienal do Livro do Rio de Janeiro reuniu, entre os dias 30 de agosto e 8 de setembro, 600 mil pessoas no Riocentro. Se por um lado o número de visitantes vem diminuindo nos últimos anos - foram 680 mil em 2017 e 677 mil em 2015 - a venda de livros foi comemorada por editores e organizadores. Estima-se que tenham sido vendidos 4 milhões de exemplares - dos 5,5 milhões disponíveis - na Bienal.

 

Manifesto assinado na Bienal do Livro do Rio  

A Bienal Internacional do Livro Rio é a oportunidade que temos, a cada dois anos, para nos reunir, encontrar nossos públicos, nos inspirar e debater livremente sobre todo e qualquer tema, sem restrições e com empatia. Um evento de conteúdo qualificado e diverso, reconhecido nacional e internacionalmente como o maior festival cultural do Brasil.

 

Nos últimos dias, a Bienal se tornou um abrigo democrático, ao lado de 600 mil pessoas que prestigiaram o evento, contra as insistentes tentativas de censura. Se engana quem pensa que o alvo era a Bienal Internacional do Livro. O alvo somos todos nós cidadãos brasileiros, pois não precisamos ter quem determine o que podemos ler, pensar, escrever, falar ou como devemos nos relacionar. O brasileiro não precisa de tutor. Precisa de educação para que cada um possa fazer suas escolhas com consciência e liberdade.

 

Foi com alívio e muito orgulho que recebemos as duas decisões de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) neste domingo (8/9) impedindo que a Bienal Internacional do Livro continuasse sofrendo assédio à literatura e aos seus leitores. Do contrário, se criaria uma jurisprudência que colocaria todos os eventos culturais, autores, editoras e livrarias do Brasil à mercê do entendimento do que é próprio ou impróprio a partir da ótica de cada um dos 5.470 prefeitos do país.

 

Encerramos essa edição histórica da Bienal Internacional do Livro Rio com o coração cheio de orgulho e determinação. A Bienal não acaba hoje. Ela seguirá com cada um de nós todos os dias. O festival foi memorável. Deu voz e ouvidos a todos os públicos. Reuniu e celebrou a cultura junto com autores, artistas, pensadores, lideranças de movimentos sociais, pastor evangélico, monge zen-budista, jornalistas, acadêmicos, ativistas, chef de cozinha e muitos outros.

 

Viva a Bienal do Livro Rio! Via a cultura! Viva a liberdade e a democracia!!

 

 

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Presidente do TJ-RJ nega ter censurado livro da Bienal

'O que determinei foi simplesmente o alerta sobre conteúdo delicado', disse o desembargador Cláudio de Mello Tavares

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2019 | 23h21

RIO - Após ter sua decisão de sábado, 7, quanto à venda de livros na Bienal do Rio suspensa por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), desembargador Cláudio de Mello Tavares, divulgou na noite deste domingo, 8, nota em que nega ter imposto censura a livros e diz que sua decisão foi interpretada de forma deturpada.

“Diante da deturpação que tenho visto em comentários sobre minha decisão, decidi fazer o presente esclarecimento. (...) Jamais fiz ‘censura’ alguma. Censura ocorreria se eu houvesse proibido a publicação ou circulação da obra em questão. Como se trata de espaço aberto ao público, o que determinei foi simplesmente o alerta sobre conteúdo delicado, para que os pais pudessem decidir ou participar da decisão de aquisição da obra, voltada ao leitor infanto-juvenil, ainda em formação”, escreveu o desembargador. 

“Da forma como certos grupos vêm publicando as respectivas notícias, tem-se induzido o leitor na errônea premissa de que minha decisão teria obstaculizado a livre circulação de obras, ideias ou pensamentos. Isto é absolutamente falso”, segue o magistrado. “Sempre respeitei a pluralidade das ideias e opções sexuais, mas, ao tratar de crianças e jovens em formação, entendo que o alerta aos pais é devido, até mesmo em respeito a eles”. 

Tavares conclui a nota fazendo uma comparação: “A obra em questão foi oferecida em espaço aberto ao público, e não nos quintais das casas de seus autores, onde podem fazer o que bem entenderem”.

Para o advogado Marcelo Gandelman, do escritório Souto Correa, que representa a GL Events, organizadora da Bienal, não houve desrespeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente. “O STF demonstrou, de forma absolutamente inquestionável, que este tipo de atitude não vai encontrar abrigo na Corte. Não existiu qualquer desrespeito ao ECA por parte da Bienal ou de qualquer dos expositores, pois o desenho representando um beijo entre dois homens não pode ser considerado pornografia. Todas as publicações tinham indicativos de idade, e cabe aos pais a verificação daquilo que cabe ser lido ou não por seus filhos.”

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Editoras e artistas reagem a recolhimento de HQ com beijo gay

Personalidades se manifestaram nas redes sociais; confira postagens

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 17h28

A tentativa de recolhimento do livro em quadrinhos Vingadores - A Cruzada das Crianças por fiscais da Prefeitura do Rio de Janeiro, no início da tarde desta sexta-feira, 6, na Bienal do Rio, gerou repercussão entre editoras e a classe artística nas redes sociais. A maioria se posicionou contra a ação ordenada pelo prefeito Marcelo Crivella.

A ação foi mal sucedida, pois 40 minutos após a abertura da Bienal, o livro já estava esgotado nos 520 estandes. Confira abaixo as principais manifestações feitas no Twitter:

"Diante da censura feita por Marcelo Crivella, prefeito do Rio, e da fiscalização p/ identificar livros considerados “impróprios” na Bienal do Livro, a Companhia manifesta seu repúdio a todo e qualquer ato de censura e se posiciona, mais uma vez, à favor da liberdade de expressão."

Companhia das Letras.

 

"Diante da fiscalização para identificar livros considerados “impróprios” na Bienal do Livro Rio, repudiamos todo e qualquer ato de censura. Ler é um ato revolucionário. Somos a favor da liberdade de expressão e de toda forma de amor."

Editora Arqueiro.

"Diante da fiscalização sobre livros considerados "impróprios" na Bienal do Livro Rio 2019, nós da Harper queremos deixar público nosso repúdio a qualquer tipo de censura. Temos orgulho da nossa equipe e das nossas histórias. Vamos continuar publicando livros nos quais acreditamos." HarperCollins.

 

"Ao tentar censurar os Vingadores, o prefeito do Rio se iguala a facínoras como Ultron, Kang e Thanos."

Chico Barney, escritor

"Ao deixar Sodoma, as filhas de Ló embebedam o pai e dormem com ele para colher sua semente em seus úteros. Está na Bíblia, Gênesis. Crivella manda recolher a HQ dos Vingadores; ela ensina tolerância num mundo witzel-bolsonaro, que se ajoelha todo santo dia ao deus da carnificina."

Marcelo Backes, escritor, tradutor. Doutor em Romanística e Germanística.

Um simples beijo gay em uma HQ foi chamado de material PORNOGRÁFICO pelo maldito prefeito do RJ, Crivella. Violência, adultério, roubo, sequestro, sangue, explosão, nada disso jamais incomodou q estivesse em HQs. O problema é sempre o amor LGBT. Mas CENSURA não será tolerada!"

Felipe Neto, youtuber.

"Não é só um retrocesso, é crime!"

David Miranda (PSOL-RJ), vereador.

"Não foi censura, os gibis ainda estarão à venda mas com selo de recomendação para menores (sic). Está corretíssimo."

Roger Rocha Moreira, músico e idealizador da banda Ultraje a Rigor.

"Repudiamos todo e qualquer tipo de discriminação ou censura e, como sempre, nos posicionamos à favor da liberdade de expressão e da diversidade. Se você estiver na Bienal do Livro este ano, poderá encontrar em nosso estande vários livros com temática LGBT +"

Editora Intrínseca.

"A Estante Virtual é contra a medida da prefeitura do Rio em censurar exemplares da HQ "Vingadores: A cruzada das crianças". Apoiamos a diversidade em todas as áreas, sobretudo, na literatura."

Estante Virtual.

"Posturas como a do prefeito Marcelo Crivella e do governador João Doria – que recentemente mandou recolher uma apostila escolar que falava sobre diversidade sexual – tentam colocar a sociedade brasileira em tempos medievais"

Luiz Schwarcz, CEO e fundador da Companhia das Letras, no perfil da editora no Twitter.

 

"A Companhia manifesta seu repúdio a todo e qualquer ato de censura e se posiciona, mais uma vez, à favor da liberdade de expressão."

Companhia das Letras.

 

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'Mandamos um recado claro para a censura', diz Felipe Neto após distribuir livros LGBT na Bienal

Youtuber disponibilizou 14 mil livros com temática LGBT para serem distribuídos gratuitamente no último sábado, 7, no Rio de Janeiro

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2019 | 15h44

O youtuber Felipe Neto falou sobre o resultado da ação em que distribuiu gratuitamente cerca de 14 mil livros com temática LGBT durante a Bienal do Livro no Rio de Janeiro no último sábado, 7

"O dia em que mandamos um recado claro para a censura e os opressores: vocês nunca irão calar o amor! O bem sempre vence e sempre vencerá. Foram 14 mil livros de temática LGBTQ+ distribuídos gratuitamente", escreveu Felipe em seu perfil no Instagram.

Na sequência, prosseguiu: "Foi lindo, foi amor, foi luta por um mundo melhor! No final, chegaram os carros dos agentes da censura de Crivella e 20 homens armados prontos para recolher todos os livros. Só tinha um problema: todos já tinham sido entregues de graça."

"Hoje, o amor venceu! Hoje, o Brasil venceu! Feliz 7 de setembro. Comemore hoje, a luta continua amanhã", encerrou o youtuber.

Os 14 mil livros, comprados na própria Bienal, foram envolvidos em plástico preto acompanhados de um adesivo: "Este livro é impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas."

Livros como Confissões de Um Garoto Tímido, Nerd e (Ligeiramente) Apaixonado, de Thalita Rebouças, Arrase!, de RuPaul e O Mau Exemplo de Cameron Post, de Emily M. Danforth estiveram entre os exemplares entregues ao público na praça central da Bienal.

Entenda a polêmica envolvendo a Bienal do Rio de Janeiro

A decisão de Felipe Neto foi tomada após o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB) ter determinado o recolhimento de um livro dos Vingadores com personagens homossexuais por suposto "conteúdo sexual para menores" na quinta-feira, 5.

Fiscais da Secretaria Municipal de Ordem Pública do Estado estiveram na Bienal do Livro do Rio no início da tarde desta sexta-feira, 6, e foram vaiados por parte do público.

Porém, os fiscais não encontraram nenhum exemplar do livro, pois em cerca de 40 minutos após a abertura do evento a HQ Vingadores - A Cruzada das Crianças já havia se esgotado.

No último sábado, 7, Bienal do Livro do Rio anunciou que iria recorrer ao Supremo Tribunal Federal contra a decisão do presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Claudio de Mello Tavares, que autorizou a prefeitura do Rio de fazer busca e apreensão de livros com conteúdo considerado impróprio para crianças e adolescentes que estejam sendo vendidos sem lacre e alerta escrito quanto à temática.

Com a medida, a Bienal pretende "garantir o pleno funcionamento do evento e o direito dos expositores de comercializar obras literárias sobre as mais diversas temáticas – como prevê a legislação brasileira".

Ainda no sábado, à noite, um grupo de manifestantes realizou um protesto contra o que classificam como censura do prefeito Marcelo Crivella. Carregando livros com temática LGBT, o grupo circulou pelos corredores da Bienal gritando palavras de ordem como "não vai ter censura". 

Em dado momento, próximo ao local onde fiscais da prefeitura permaneciam em reunião com organizadores da Bienal, um casal de homens se beijou na boca. O grupo também declamou o artigo da Constituição Federal que proíbe a censura, além de versos  da oração de São Francisco.

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, que barre a busca e apreensão se livros com a temática LGBT na Bienal do Rio de Janeiro.

Em requerimento encaminhado ao ministro na manhã deste domingo, 8, ela se manifesta pela suspensão da decisão do presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Cláudio de Mello Tavares, proferida no sábado, 7.

A PGR pede urgência ao Supremo que decida, posto que a Bienal se encerra ainda neste domingo. Raquel vê a decisão de Tavares como ‘lesiva à ordem pública’ (clique aqui para ler mais).

Uma decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, suspendeu liminarmente despacho do presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Cláudio Tavares, que havia voltado a autorizar ação de fiscais da gestão Marcelo Crivella no evento.

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, também determinou que a gestão Marcelo Crivella, se abstenha de apreender livros de temática LGBT na Bienal do Rio. Em seu despacho, afirmou que a Prefeitura fez ‘verdadeira censura prévia’ e promove ‘patrulha do conteúdo de publicação artística’.

Clique aqui para ler as decisões de Toffoli e Gilmar que derrotam Crivella na Bienal do Rio.

Entrevista com Felipe Neto

Na última sexta-feira, 6, Felipe Neto falou ao E+ sobre a sua intenção com a distribuição dos livros na Bienal.

"A ideia foi minha, nascida de um absurdo que a gente está experimentando e vivenciando quase todos os dias no governo brasileiro como um todo. Foi uma resposta a essa intolerância. Num mundo onde a gente precisa incentivar cada vez mais a diversidade, o amor e a aceitação, nós temos líderes políticos e religiosos no Brasil lutando pelo oposto, pelo autoritarismo, pelo excesso de regras baseadas no próprio conceito de moral e não no amor e na aceitação", explicou.

Segundo o youtuber, foram disponibilizados apenas "livros que tenham como pauta a diversidade, aceitação e o LGBT como uma coisa natural da humanidade."

"Sejam personagens protagonistas LGBT, histórias de superação, histórias reais, sempre voltado para que, quem leia, leia uma história que tenha a pauta da diversidade como algo absolutamente natural da humanidade", prosseguiu.

Questionado sobre a possibilidade de represálias por parte do público, Felipe respondeu: "Se alguém quer ter algum tipo de represália contra histórias de aceitação, de amor, realmente essa pessoa tem muito ódio dentro de si."

"Não imagino que as pessoas vão ficar contra livros serem distribuídos gratuitamente para a sociedade. Num país onde a gente precisa aumentar e incentivar a leitura e o consumo de livros, acho que é uma ação onde só tem coisas positivas acontecendo. Se alguém enxergar algo negativo nisso, acho que essa pessoa precisa buscar ajuda", concluiu, na ocasião.

++ Bienal do Livro do Rio, Crivella, 'Vingadores' e censura: saiba o que aconteceu

Felipe Neto também publicou um vídeo falando sobre a distribuição de livros na Bienal. Assista:

 

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Censura, Estatuto da Criança e do Adolescente: entenda a questão jurídica da HQ de 'Vingadores'

Prefeito Marcelo Crivella determinou recolhimento de exemplares do livro durante Bienal do Rio

Roberta Tziolas Jansen Machado, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 19h40

A decisão do prefeito Marcelo Crivella de determinar o recolhimento da novela gráfica Vingadores: a Cruzada das Crianças na Bienal do Livro é considerada um ato de censura pela Ordem dos Advogados do Brasil.

Para o prefeito, no entanto, trata-se do cumprimento da seção 1 do capítulo 2 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que trata da informação, cultura, lazer, esportes, diversão e espetáculos, nos artigos 74 a 80.

O artigo 78 sustenta: “As revistas e publicações contendo material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes deverão ser comercializadas em embalagem lacrada, com advertência de seu conteúdo.” E ainda: “As editoras cuidarão para que as capas que contenham mensagens pornográficas ou obscenas sejam protegidas com embalagem opaca”.

No fim da tarde desta sexta-feira, Crivella voltou a defender sua posição em uma postagem nas redes sociais.

“A decisão de recolher os gibis na Bienal do Livro teve apenas um objetivo: cumprir a lei e defender a família. De acordo com o ECA, as obras deveriam estar lacradas e identificadas quanto ao seu conteúdo. No caso em questão, não havia nenhuma advertência sobre o assunto abordado”, escreveu o prefeito.

Esta não é, no entanto, a interpretação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e do Instituto dos Advogados do Brasil (IAB), segundo nota divulgada também no fim da tarde desta sexta-feira.

“A tentativa de recolhimento da obra em quadrinhos Vingadores: a Cruzada das Crianças, sob o argumento de que violaria o Estatuto da Criança e do Adolescente, não se justifica, já que inexiste na capa da publicação qualquer reprodução de ato obsceno, nudez ou pornografia”, sustenta a nota. “O conteúdo da obra tampouco infringe as normas vigentes, visto que as famílias homoafetivas são reconhecidas legalmente no Brasil desde 2011, estando alinhadas com as garantias constitucionais do cidadão.”

A nota oficial explica ainda que não cabe ao Poder Executivo Municipal ações contra eventuais desrespeitos ao ECA. Esta função seria da Justiça.

“A postura da Prefeitura, portanto, revela-se como ato de força e censura e deve ser repelido”, conclui a nota.

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Bienal do Livro do Rio, Crivella, 'Vingadores' e censura: saiba o que aconteceu

Prefeito do Rio enviou ao evento fiscais da prefeitura para verificar de que forma um quadrinho estava sendo vendido; 'Vingadores - A Cruzada das Crianças', que não é destinado ao público infantil, tem um casal de namorados homens

Redação, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2019 | 18h24

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, ocupou as manchetes nesta sexta-feira, 6, ao pedir o recolhimento de um livro na Bienal do Livro do Rio. A Bienal reagiu, anunciando que não iria interferir na venda dos livros — mas o exemplar em questão esgotou em menos de 40 minutos nesta sexta-feira, 6.

Outras entidades reagiram, da OAB a editores, e até o ministro do STF Marco Aurélio Mello se manifestou. Veja a seguir os principais fatos sobre a história.

Crivella manda recolher livro

O prefeito anunciou na noite da quinta-feira, 5, que determinou aos organizadores da Bienal do Livro que recolhessem um livro que, segundo ele, oferece “conteúdo sexual para menores”. Na obra Vingadores - A Cruzada das Crianças, lançada em 2010 e não destinada ao público infantil, os personagens Wiccano e Hulkling são namorados. Na postagem o prefeito não esclarece com base em qual norma legal emitiu a determinação.

Bienal anuncia que não vai interferir na venda dos livros

A Bienal do Livro afirmou na sexta-feira, 6, pela manhã, que é um direito do consumidor solicitar a troca de um produto que ele comprou, e não gostou, como prevê o Código de Defesa do Consumidor. Essa foi a resposta dada, em comunicado, depois que o prefeito do Rio mandou recolher a HQ da Marvel Comics, com a justificativa de que é preciso proteger as crianças.

Fiscais da prefeitura visitam Bienal

Fiscais da prefeitura estiveram no início da tarde desta sexta-feira, 6, na Bienal do Livro do Rio para checar de que forma o livro em quadrinhos estava sendo comercializado. Sob vaias de parte do público, os fiscais percorreram vários estandes, mas não encontraram nenhum exemplar do livro.

Exemplares foram esgotados

Menos de 40 minutos depois da abertura da Bienal nesta sexta-feira, o livro já estava esgotado nos 520 estandes. A Marvel não participa da Bienal do Livro do Rio com estande, mas seus livros estavam à venda no espaço de outros expositores.

Editoras, escritores e políticos reagem à tentativa da prefeitura

A tentativa de recolhimento do livro em quadrinhos gerou repercussão entre editoras e a classe artística nas redes sociais. A maioria se posicionou contra a ação ordenada pelo prefeito Marcelo Crivella.

Ministro do STF Marco Aurélio Mello diz não ter visto 'nada de mais' no livro

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), disse na sexta-feira, 6 ao Estadão/Broadcast, que não viu nada “de mais” no livro em quadrinhos Vingadores, a Cruzada das Crianças. Para o ministro, em pleno século 21 é preciso ter uma “visão tolerante” de mundo.

Entendimento sobre o ECA

A prefeitura alega que não se trata de homofobia, mas sim do respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que recomenda que “publicações com cenas impróprias a crianças e adolescentes sejam comercializadas com lacre”. 

De acordo com a presidente da Comissão de Direitos da Criança e do Adolescente da OAB, Suzana do Monte Moreira, porém, a determinação do estatuto só se aplica a casos em que há imagens de nudez ou sexo explícito. No caso do livro da Marvel, há somente uma imagem dentro do livro de um beijo entre dois homens inteiramente vestidos, não na capa.

OAB/Rio e Institudo dos Advogados Brasileiros acusam censura

"A postura da Prefeitura do Rio, portanto, revela-se como ato de força e censura, que deve ser repelido. Vigilante à efetiva legalidade dos atos das autoridades públicas, a OAB/RJ reafirma seu papel na preservação do Estado democrático de Direito e, caso necessário, recorrerá às medidas cabíveis com vista à defesa da sociedade fluminense", diz uma nota da OAB emitida nesta sexta-feira.

Vereadores do Rio pedem investigação ao Ministério Público

Os vereadores Tarcísio Motta e Renato Cinco, do PSOL, entraram com representação junto ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro para que seja aberta investigação sobre a atuação da Prefeitura na Bienal nesta sexta-feira. Para os parlamentares, a ação da Secretaria de Operação Pública (Seop) tem indícios de improbidade administrativa, censura prévia e violação do direito à liberdade expressão.

Movimentos LGBTQ+ convocam ato pelas redes sociais

Movimentos de defesa dos direitos LGBTQ+ convocaram nas redes sociais um ato de repúdio ao que chamaram de censura por parte do prefeito Marcelo Crivella, que pedira o recolhimento dos livros Vingadores: a Cruzada das Crianças, por conta de um beijo entre dois homens. Eles pretendem fazer um "beijaço" na Arena Sem Filtro, na Bienal do Livro, às 19h de sábado, quando estará ocorrendo um debate sobre a temática LGBTQ.

Marcelo Crivella é reincidente em casos semelhantes

Esta não é a primeira vez que o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, é acusado de censura a manifestações culturais. Em 2017, em meio à polêmica gerada pela exposição Queermuseum (que reunia obras de arte explorando questões de gênero) em outras capitais, o prefeito vetou a montagem da mostra no Museu de Arte do Rio. A exposição acabou sendo montada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

No mesmo ano, o prefeito vetou o incentivo fiscal a diferentes projetos culturais da cidade, entre eles a Parada LGBTI em Copacabana, na zona sul. A alegação foi que o evento não se adequava às exigências do modelo de propostas. No ano passado, também foi proibida a montagem da peça O Evangelho segundo Jesus, rainha do céu, na mostra Corpos Visíveis, em que Jesus Cristo era interpretado por uma atriz transexual.

Crivella volta às redes sociais para justificar pedido de recolhimento de HQs

“A decisão de recolher os gibis na Bienal do Livro teve apenas um objetivo: cumprir a lei e defender a família. De acordo com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), as obras deveriam estar lacradas e identificadas quanto ao seu conteúdo. No caso em questão, não havia nenhuma advertência sobre o assunto abordado”, escreveu o prefeito.

Ele também publicou um vídeo sobre o tema: “Há uma certa controvérsia na mídia sobre a decisão da prefeitura para recolher os livros que tinham conteúdo de homossexualidade, atingindo um público infantil, um público juvenil. O que nós fizemos é para defender a família, esse assunto tem que ser tratado na família. Não pode ser induzido, seja na escola, seja nos livros, seja onde for. Nós vamos sempre continuar em defesa da família.”

TJ-RJ dá liminar e impede apreensão de obras LGBTs na Bienal do Rio

O desembargador Heleno Ribeiro Pereira Nunes, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), concedeu nesta sexta-feira, 6, uma liminar para impedir que a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Secretaria Municipal de Ordem Pública do município apreendam obras de temática LGBTQ. A decisão do desembargador atende a um pedido do Sindicato Nacional dos Editores de Livros e impõe uma derrota à administração do prefeito Marcelo Crivella (PRB).

O sindicato acionou a Justiça sob a alegação de que a Bienal do Rio é um evento cultural relevante, que expõe alguns livros que  “espelham os novos hábitos sociais, sendo certo que o atual conceito de família, na ótica do Supremo Tribunal Federal, contempla várias formas de convivência humana e formação de células sociais”. Também alegou que a fiscalização do município do Rio reflete ofensa à liberdade de expressão constitucionalmente assegurada.

Felipe Neto distribuirá 10 mil livros com temática LGBT na Bienal: 'Resposta à intolerância'

O youtuber Felipe Neto anunciou que distribuirá gratuitamente mais de 10 mil livros com temática LGBT durante a Bienal do Livro no Rio de Janeiro a partir do próximo sábado, 7 de setembro. 

Livros como Confissões de Um Garoto Tímido, Nerd e (Ligeiramente) Apaixonado, de Thalita Rebouças, Arrase!, de RuPaul e O Mau Exemplo de Cameron Post, de Emily M. Danforth devem estar entre os cerca de 10 mil exemplares que serão empilhados na praça central da Bienal e serão entregues ao público por uma promotora de vendas. O youtuber não estará presente na ocasião.

 

Censura, Estatuto da Criança e do Adolescente: entenda a questão jurídica da HQ de 'Vingadores'

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TJ-RJ dá liminar e impede apreensão de obras LGBTs na Bienal do Rio

A decisão atende a um pedido do Sindicato Nacional dos Editores de Livros e impõe uma derrota à administração do prefeito Marcelo Crivella

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 19h38

O desembargador Heleno Ribeiro Pereira Nunes, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), concedeu nesta sexta-feira, 6, uma liminar para impedir que a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Secretaria Municipal de Ordem Pública do município apreendam obras de temática LGBTQ. A decisão do desembargador atende a um pedido do Sindicato Nacional dos Editores de Livros e impõe uma derrota à administração do prefeito Marcelo Crivella (PRB).

O sindicato acionou a Justiça sob a alegação de que a Bienal do Rio é um evento cultural relevante, que expõe alguns livros que  “espelham os novos hábitos sociais, sendo certo que o atual conceito de família, na ótica do Supremo Tribunal Federal, contempla várias formas de convivência humana e formação de células sociais”.

Também alegou que a fiscalização do município do Rio reflete ofensa à liberdade de expressão constitucionalmente assegurada.

“Desta forma, concede-se a medida liminar para compelir as autoridades impetradas a se absterem de buscar e apreender obras em função do seu conteúdo, notadamente aquelas que tratam do homotransexualismo. Concede-se a liminar, igualmente, para compelir as autoridades impetradas a se absterem de cassar a licença para a Bienal, em decorrência dos fatos veiculados”, determinou o desembargador.

Tolerância. O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), disse nesta sexta-feira, 6, ao Estadão/Broadcast que não viu nada “de mais” no livro em quadrinhos Vingadores, a Cruzada das Crianças, criticado por Crivella por apresentar personagens homossexuais. Para o ministro, em pleno século 21 é preciso ter uma “visão tolerante” de mundo.

No início da tarde desta sexta-feira, fiscais da prefeitura estiveram na Bienal do Rio, para checar de que forma o livro estava sendo comercializado. Sob vaias de parte do público, os fiscais percorreram vários estandes, mas não encontraram nenhum exemplar.

Na véspera, Crivella havia criticado a obra. A prefeitura alega que não se trata de homofobia, mas sim do respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que recomenda que “publicações com cenas impróprias a crianças e adolescentes sejam comercializadas com lacre”.

"É a visão dele, cada qual tire a sua conclusão. Quem sabe ele recolhe as TVs também. Estou cansado de ver beijo homossexual em novela”, ironizou Marco Aurélio, ressaltando que não vê problema nenhum na abordagem de personagens da comunidade LGBT.

“Estamos em pleno século 21, é preciso ter uma visão aberta, uma visão tolerante e distinguindo sempre religião e Estado, preservando a liberdade de expressão. Esta (a liberdade de expressão) é intocável em um Estado democrático, mas em um Estado totalitário, religioso, não”, completou.

De acordo com a presidente da Comissão de Direitos da Criança e do Adolescente da OAB, Suzana do Monte Moreira, a determinação do estatuto só se aplica a casos em que há imagens de nudez ou sexo explícito. No caso do livro da Marvel, há somente uma imagem dentro do livro de um beijo entre dois homens inteiramente vestidos, não na capa.

 

No fim da tarde desta sexta-feira, 6, Crivella voltou às redes sociais para justificar pedido de recolhimento de HQs na Bienal do Rio.

 

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Mauricio de Sousa se manifesta contra censura de HQ na Bienal do Livro do Rio

Durante o evento, o prefeito Marcelo Crivella enviou fiscais da prefeitura para verificar a HQ 'Vingadores - A Cruzada das Crianças'

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 12h51

O quadrinista e escritor Mauricio de Sousa se manifestou nesse sábado, 7, sobre o pedido de recolhimento dos quadrinhos "Vingadores - A Cruzada das Crianças" feito pelo prefeito Marcelo Crivella. O criador da "Turma da Mônica" é o homenageado na 19ª Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro.

Na postagem, ele assina a mensagem escrita: "Contra a censura, a favor da liberdade de expressão e do respeito." O filho do autor, Mauro Sousa, que é gay, comentou: "Meu pai é meu herói." 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Rio de Janeiro, Bienal do Livro - 2019

Uma publicação compartilhada por Mauricio de Sousa (@mauricioaraujosousa) em

 

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Com nova decisão do TJ, fiscais da prefeitura voltam à Bienal do Rio para 'checar' livros

Antes de iniciar busca por conteúdo considerado impróprio, agentes se reuniram com organizadores do evento

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 19h23
Atualizado 09 de setembro de 2019 | 15h50

RIO - Um dia após a fiscalização que não conseguiu localizar livros com conteúdo impróprio para crianças e adolescentes na Bienal do Livro do Rio, fiscais da secretaria municipal de Ordem Pública (Seop) voltaram ao evento neste sábado, 7, mas não chegaram a visitar os estandes. Quando chegaram ao evento, às 18h15, os agentes se reuniram com organizadores da Bienal e, segundo a assessoria, às 21h37 a conversa continuava.

A ação ocorreu horas depois de a Justiça suspender decisão desta sexta-feira, 6, que proibia a prefeitura de realizar busca e apreensão de livros com conteúdo considerado impróprio para crianças e adolescentes.

A Bienal chegou a combinar com os agentes que eles fariam a fiscalização à paisana, para não chamar a atenção dos frequentadores do evento, segundo a assessoria, mas a tarefa acabou não sendo cumprida.

Um beijaço que estava previsto em protesto contra a fiscalização e o risco de apreensão de livros acabou não ocorrendo - embora anunciado, o ato não teve adeptos. Um outro protesto reuniu autores e apoiadores que caminharam pelos estandes aos gritos contra o que classificaram como censura.

Carregando livros com temática LGBT, o grupo circulou pelos corredores da Bienal gritando palavras de ordem como "não vai ter censura". Em dado momento, próximo ao local onde fiscais da prefeitura permaneciam em reunião com organizadores da Bienal, um casal de homens se beijou na boca.

O grupo também declamou o artigo da Constituição Federal que proíbe a censura, além de versos  da oração de São Francisco.

O ato se estendeu das 20h15 até por volta das 21h30.

A escritora Thati Machado, que também é editora e na Bienal atua em um estande especializado em livros com temática LGBT, levou um susto quando chegou ao evento, na sexta-feira, 6: "Ainda não sabia da ordem do Crivella, e vi todos os livros lacrados. Só depois entendi a razão. É um retrocesso, mas estamos reagindo", afirmou. 

Coordenação da Diversidade

A prefeitura do Rio envolveu-se em outra polêmica com a organização da Bienal do Livro neste sábado. A Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual, órgão da prefeitura, emitiu nota afirmando que uma visita oficial do coordenador do órgão, Nélio Georgini, que estaria prevista para este domingo, 8, foi vetada pela organização do evento. Alegou ainda que, em protesto, servidores do órgão farão uma visita ao evento de forma extraoficial.

Em nota, a direção da Bienal do Livro informou não ter recebido nenhum pedido para visita da comitiva da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual. "O festival está de portas abertas para as autoridades", ressalta a Bienal.

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TJ do Rio cassa liminar e permite que prefeitura apreenda livros na Bienal

Para o desembargador Claudio de Mello Tavares a conduta da prefeitura foi correta: "Em se tratando de obra de super-heróis, que aborda o tema da homossexualidade, é mister que os pais sejam devidamente alertados"

Fábio Grellet/RIO, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 16h03

A Prefeitura do Rio obteve neste sábado, 7, decisão judicial que a autoriza a fiscalizar a Bienal do Livro e apreender livros que tenham conteúdo considerado impróprio para crianças e adolescentes e não estejam devidamente lacrados e com alerta aos responsáveis.

A decisão, emitida pelo presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio (TJ-RJ), desembargador Claudio de Mello Tavares, suspende a eficácia de liminar pedida pelos organizadores da Bienal e concedida na sexta-feira, 6, por outro desembargador, Helio Ribeiro Pereira Nunes, da 5ª Câmara Cível. O magistrado da primeira instância tinha proibido a prefeitura de fazer busca e apreensão de obras em função de seu conteúdo, além de proibir que o poder público cassasse a licença de funcionamento da Bienal.

Para o presidente do TJ-RJ, a conduta da prefeitura foi correta: “A notificação feita pela administração municipal foi feita visando evidente interesse público, em especial a proteção da criança e do adolescente, no exercício do poder-dever de fiscalização e impedimento ao comércio de material inadequado, potencialmente indutor e possivelmente nocivo à criança e ao adolescente, sem a necessária advertência ao possível leitor ou à família diretamente responsável, e sem um capeamento opaco, exigido expressamente na legislação”, escreveu Tavares.

O desembargador afirmou na decisão que não houve impedimento ou embaraço à liberdade de expressão. Ele afirmou que, “em se tratando de obra de super-heróis, atrativa ao público infanto-juvenil, que aborda o tema da homossexualidade, é mister que os pais sejam devidamente alertados, com a finalidade de acessarem previamente informações a respeito do teor das publicações disponíveis no livre comércio, antes de decidirem se aquele texto se adequa ou não à sua visão de como educar seus filhos”, prosseguiu o desembargador.

“Frise-se que não está a presidência (do Tribunal) antecipando entendimento a ser adotado no julgamento do recurso que porventura venha a ser interposto, nem emitindo juízo de valor a respeito da solução encontrada para o conflito. O que se pretende é tão somente evitar riscos de lesão à economia do ente público, o que ficou demonstrado”, escreveu Tavares. “Ante o exposto, defiro o pedido de suspensão com fundamento no artigo 4º da Lei nº 8.437/92, para sustar, de imediato, os efeitos da decisão proferida pelo desembargador Heleno Ribeiro Pereira Nunes nos autos de mandado de segurança”, decidiu o presidente do TJ-RJ.

Para o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), “exagerou” ao determinar o recolhimento da HQ Vingadores - A Cruzadas das Crianças, que traz um beijo entre dois personagens masculinos. “Foi além do que poderia ter ido, mas não deixo de respeitá-lo”, disse Doria, que não quis usar o termo censura.

Doria alegou que a situação não pode ser comparada ao recolhimento de livros didáticos que determinou na rede estadual de Educação, anunciado na terça-feira, 3. O material trazia um texto sobre diversidade sexual e de identidade de gênero. “Aquilo contrariava o currículo no Estado de São Paulo", disse o governador.

 O Estado tentou ouvir os organizadores da Bienal sobre a nova decisão, na tarde deste sábado, mas não obteve retorno até a publicação dessa reportagem.

O caso

Na noite de quinta-feira, 7, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), anunciou em publicação nas redes sociais que determinou aos organizadores da Bienal do Livro, evento promovido em um centro de exposições da zona oeste, que recolhessem o livro. Segundo ele, a publicação oferece “conteúdo sexual para menores”. Tratava-se da novela gráfica (história em quadrinhos) Vingadores - A Cruzada das Crianças, da Marvel Comics.

Na obra, que foi lançada em 2010, chegou ao Brasil em 2016 e não é destinada ao público infantil, os personagens Wiccano e Hulkling são namorados. Numa cena, eles se beijam na boca. Segundo Crivella, que postou um vídeo nas redes sociais anunciando a determinação de recolhimento da obra, “livros assim precisam estar em um plástico preto, lacrado, avisando o conteúdo”. Em texto que acompanha o vídeo, o prefeito escreveu: “Pessoal, precisamos proteger as nossas crianças. Por isso, determinamos que os organizadores da Bienal recolhessem os livros com conteúdos impróprios para menores. Não é correto que elas tenham acesso precoce a assuntos que não estão de acordo com suas idades”.

A decisão de Crivella foi alvo de muitas críticas. Ao meio-dia deste sábado, em protesto contra o prefeito, o youtuber Felipe Neto distribuiu na Bienal, por meio de auxiliares, 10 mil livros com temática LGBT, embalados em plástico preto onde se lia a frase “este livro é impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas”. Às 18h haverá nova rodada de distribuição, de mais 4.000 obras com a mesma temática.

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Crivella volta às redes sociais para justificar pedido de recolhimento de HQs

'O que nós fizemos é para defender a família, esse assunto tem que ser tratado na família. Não pode ser induzido, seja na escola, seja nos livros, seja onde for', disse o prefeito em vídeo

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 18h45

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, voltou a publicar mensagens de texto e vídeo nas redes sociais sobre o livro Vingadores: a Cruzada das Crianças - uma novela gráfica que apresenta super-heróis gays e um beijo entre dois homens.

A decisão de recolher os gibis na Bienal do Livro teve apenas um objetivo: cumprir a lei e defender a família. De acordo com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), as obras deveriam estar lacradas e identificadas quanto ao seu conteúdo. No caso em questão, não havia nenhuma advertência sobre o assunto abordado”, escreveu o prefeito.

Ele também publicou um vídeo sobre o tema: “Há uma certa controvérsia na mídia sobre a decisão da prefeitura para recolher os livros que tinham conteúdo de homossexualidade, atingindo um público infantil, um público juvenil. O que nós fizemos é para defender a família, esse assunto tem que ser tratado na família. Não pode ser induzido, seja na escola, seja nos livros, seja onde for. Nós vamos sempre continuar em defesa da família.”

 

 

Vereadores entram com representação no Ministério Público contra atuação da Prefeitura na Bienal

Os vereadores Tarcísio Motta e Renato Cinco, do PSOL, entraram com representação junto ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro para que seja aberta investigação sobre a atuação da Prefeitura na Bienal nesta sexta-feira,6. Para os parlamentares, a ação da Secretaria de Operação Pública (Seop) tem indícios de improbidade administrativa, censura prévia e violação do direito à liberdade expressão.

Movimentos de defesa dos direitos LGBTQ+ convocam ato de repúdio na Bienal

Movimentos de defesa dos direitos LGBTQ+ estão convocando nas redes sociais um ato de repúdio ao que chamaram de censura por parte do prefeito Marcelo Crivella, que pedira o recolhimento dos livros Vingadores: a Cruzada das Crianças, por conta de um beijo entre dois homens. Eles pretendem fazer um "beijaço" na Arena Sem Filtro, na Bienal do Livro, às 19h de sábado, quando estará ocorrendo um debate sobre a temática LGBTQ.

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