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Templos do saber

A Da Vinci foi a livraria mais próxima da Shakespeare & Co. que conheci e frequentei

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2021 | 03h00

Ontem, 23 de abril, foi o Dia Mundial do Livro. A celebração, criada na Catalunha, em homenagem a Cervantes, nos pegou num momento particularmente adverso para a produção e consumo de livros. Não bastassem a pindaíba geral e a retração presencial nas livrarias impostas pela pandemia, o ministro Paulo Guedes inventou de taxá-los como uma mercadoria qualquer, não um insumo mental e espiritual com 80 anos de isenção tributária na lombada. 

A julgar pela míngua de volumes em suas estantes domésticas, o mais perverso e desastrado ministro da Economia das últimas sei lá quantas décadas não parece muito chegado à leitura. Mas, ainda que afinado com a arrogante incultura do presidente e sua corja de adulões, não precisava ter ido tão longe na contramão das políticas de incentivo à leitura que todos os governos do Brasil a.B. (antes de Bolsonaro) ao menos tentaram implementar. 

“Pobre não lê”, argumentou Paulo Guedes, como se estivesse justificando uma sobretaxa no preço do hadoque. Para o pobre, o chamado “pão do espírito” (o livro) é mesmo artigo de luxo, e por isso necessitado de estímulos vários, não de carga tributária.

Estímulos que deveriam incluir algum tipo de subsídio ou alívio fiscal às livrarias físicas, que, afinal, são templos do saber – com livreiros no lugar de padres e pastores. 

Enquanto isso, os templos do saber se viram como podem para enfrentar a concorrência de feiras, supermercados, farmácias – e da Amazon. No início de abril, oito livrarias do Rio – Leonardo da Vinci, Argumento, Berinjela, Folha Seca, Blooks, Lima Barreto, Malasartes e Janela – uniram-se para fundar o grupo colaborativo Livrarias Cariocas. O espírito que as anima é o mesmo dos três mosqueteiros de Dumas: uma por todas, todas por uma. Dos múltiplos problemas a serem enfrentados, a taxa proposta pelo ministro da Economia é o que mais se assemelha à espada de Dâmocles. 

Animados pelas comemorações do Dia do Livro e por uma perceptível alta no índice de leitura proporcionada pelo isolamento social, usuários do Twitter e do Facebook distraem-se há dias com enquetes do gênero “quantos livros você já leu durante a pandemia?”, “qual o livro que mais te marcou na vida?”. 

São perguntas difíceis de responder para quem, como eu, não tem o hábito de contar os livros que consome e até hoje não sabe se o que impactou na infância (A Ilha do Tesouro) deve ter precedência sobre o que impactou na adolescência (A Educação Sentimental) e na idade madura (Desonra).

Outra curiosidade, supostamente mais fácil de atender porque factual, revelou-se, contudo, irrespondível: “Qual foi a primeira livraria de sua vida?”. 

Pureza d’alma, não faço ideia. 

As crianças da minha geração tinham seus primeiros livros comprados em papelarias de bairro, hábito que perdura até hoje no interior do Brasil. Certamente, veio de uma papelaria, para mim, apaixonante, Os Grandes Benfeitores da Humanidade, de F. Acquarone, em cujas páginas descobri quem foram e que benefícios nos proporcionaram Gutenberg, Pasteur, Edison e o casal Curie. 

O que me leva a especular sobre em qual livraria adquiri meu primeiro livro pagando do próprio bolso. Se nascido na segunda metade do século 19, teria sido numa daquelas lojas especializadas da Rua do Ouvidor (Laemmert, Garnier), quase diariamente visitadas por Machado de Assis, Bilac, mas desaparecidas antes de eu vir ao mundo. 

Lembro-me de compras remotas na Zahar, na Ler, na Civilização Brasileira, nas legendárias São José e José Olympio, todas mais ou menos vizinhas, no Centro do Rio. Meus mais insistentes flashbacks afetivos me levam, contudo, à Casa Crashley (no 58 da Ouvidor) e à Leonardo da Vinci (até hoje no subsolo do Edifício Marquês de Herval, na Avenida Rio Branco, 185).

Era na Crashley que eu e todo mundo assinávamos revistas de língua inglesa, da Encounter aos mensários de cinema (Sight & Sound, Films and Filming), no início dos anos 1960. Elas não nos eram entregues em domicílio ou na redação do jornal; tínhamos de ir buscá-las pessoalmente com o mesmo senhor Anthony, cujo sobrenome britânico esqueci. 

A Da Vinci é um caso à parte. Foi a livraria mais próxima da parisiense Shakespeare & Co. que conheci e frequentei. Tinha até uma sucedânea de Sylvia Beach, a italiana Giovanna Piraccini, a mítica dona Vanna, hoje com 94 anos e há muito aposentada, que parecia ter lido todos os milhares de livros que vendera e vendia. Não peguei a primeira Da Vinci (na Avenida Rio Branco), mas peguei os últimos quatro ou cinco anos do circunspecto e algo sartriano Andrei Duchiade, romeno de nascença, marido de dona Vanna, no comando da casa.

Comprei lá minhas primeiras revistas de cinema francesas e tudo mais que a cultura francesa nos exportava, em suas duas salas conheci um punhado de futuros amigos. Segundo lar dos intelectuais residentes no Rio, de seus cronistas e poetas, dois dos quais, Carlos Drummond de Andrade e Antonio Cícero, dedicaram-lhe um poema, a Da Vinci era um boteco sem bebidas, onde passávamos horas trocando dicas e impressões sobre o que havíamos lido ou ansiávamos ler. Seus fregueses, não todos, presumo, tinham uma conta numerada, quitada sem açodamento e prazos rígidos. 

Espero voltar a falar da Da Vinci neste espaço. Ou da “Davinte”, como a empregada de meus pais anotava os recados sobre a chegada de novas encomendas que dona Vanna comunicava por telefone. Se não me falha a memória, 527192. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

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