Laura Capelhuchnik/ESTADAO
Laura Capelhuchnik/ESTADAO

Svetlana Aleksiévitch combina conversas e olhar simpático para tratar de temas difíceis

Prêmio Nobel de Literatura de 2015 é a principal atração deste sábado, 2, na 14.ª Festa Literária Internacional de Paraty

Ubiratan Brasil - Enviado Especial, O Estado de S. Paulo

02 Julho 2016 | 05h00

PARATY - Svetlana Aleksiévitch é uma escritora com olhar doce e fala pausada e tranquila. Desfia seus pensamentos com a certeza de encantar seu interlocutor. Mas, o que realmente surpreende nessa mulher de 68 anos, nascida hoje onde se localiza a Ucrânia, é a verdade cortante de suas palavras. “Não tenho motivos para ser otimista”, disse ela ao Estado, em Paraty, onde participa neste sábado da 14º edição da Festa Literária Internacional, a Flip, como um dos destaques – afinal, ganhou, em 2015, o Nobel de Literatura. “A Rússia não tem líderes capazes suficientes para substituir Putin no poder. Com isso, só podemos esperar por um novo ditador.”

Tal ceticismo sempre norteou a carreira de Svetlana. Jornalista de formação, ela sempre se preocupou mais com a situação das pessoas envolvidas em um fato do que com o fato em si. Com isso, escreveu livros poderosos como Vozes de Tchernóbil, relatos cortantes de parentes e sobreviventes da explosão da usina atômica, em 1986, e A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, sobre memórias da bravura feminina durante conflitos como a 2ª Guerra. Em ambos, destacam-se vozes convincentes que gritam com raiva, lamentam-se no desespero e que, ocasionalmente, também se revelam exultantes. 

Qual a importância de um prêmio Nobel para uma jornalista no momento em que a profissão enfrenta drásticas mudanças por causa da internet?

Hoje, as mudanças são muito mais rápidas e as situações, de uma forma geral, perderam seu significado. Uma enorme tragédia é assunto mundial durante dois, três dias, mas logo perde sua importância pois outra tragédia surge para substituí-la. Em todos os aspectos, em qualquer profissão, é preciso encontrar novo foco e novos caminhos. No meu trabalho, sempre procuro distintas emoções de um fato. Faço isso desde minha época da escola de jornalismo. Na minha aldeia, onde cresci e onde só havia mulheres, eu me importava mais pelas lembranças daqueles habitantes do que pelas notícias que vinham de fora. E, quando comecei a rodar meu país em busca de fatos, descobri que me interessava mais a impressão das pessoas que o fato em si.

Como assim?

Tive uma conversa, certa vez, com uma pessoa que retornou a Leningrado depois de encerrada a 2ª Guerra Mundial. Ela contou que teve de pisar em cadáveres de soldados alemães e russos, todos jovens, pois não havia outro jeito, tamanha a quantidade de corpos. E, o mais aterrador, essa pessoa disse: “Tínhamos que carregar nossos pertences porque cavalo algum aceitava passar por cima dos cadáveres”. Frases como essa é que indicaram o caminho que eu devia seguir no jornalismo. Faço como um escultor que conheço, que faz seu trabalho a partir do mármore e, com suas ferramentas, retira o excesso. Ao escrever, eu também deixo de lado o que é demais para ficar apenas com a essência. Por isso que insisto: meu trabalho não é jornalístico, mas literário. Não me preocupo com o fato.

Vozes de Chernobyl é um bom exemplo dessa metodologia. E o que impressiona não são apenas os relatos dolorosos, mas também uma inesperada dose de humor. Como foi lidar com isso?

Não quero ser uma colecionadora de horrores. Sempre procuro pela alma humana, tento romper essa cortina de choro e mágoa e procurar a essência da pessoa, que tanto pode ser uma atitude elevada ou mesmo animalesca. Em termos de horror, basta ligar as notícias hoje que qualquer um consegue enlouquecer. Procuro o lado humano na humanidade. Demorei vários anos para escrever a história do comunismo. As pessoas, principalmente as dos países mais pobres, sempre querem voltar a esse tema. Assim, eu quis mostrar, com fatos, que, o que no início era algo bonito, terminou em um mar de sangue. Por experiência própria, quando morava na Suíça, percebi que talvez lá pudesse existir algum tipo de socialismo porque as pessoas têm um certo nível e estabilidade para conseguir algum tipo de igualdade e não as pessoas que saem da miséria, por não ter capacidade humana de desenvolver uma ideia dessa. Como hoje as pessoas estão decepcionadas até com o capitalismo, haverá algumas tentativas de recuperar o socialismo e quero mostrar como isso era um grande erro.

É curioso a forma como o povo russo lida com o passado diante de uma realidade de incertezas. Essa situação explicaria a presença de Putin no poder?

Putin está no poder porque milhões de pessoas pensam como ele. A perestroika não deu certo porque os russos não estavam preparados para lidar com a nova situação. O povo foi afastado do poder por bandidos que estavam mais bem preparados, sabendo como causar pânico e medo no povo. Enquanto corríamos pelas praças gritando ‘liberdade’, os maiorais simplesmente fatiavam a União Soviética. O povo foi roubado até na sua dignidade, enquanto os poderosos culpavam a democracia pela situação. O poder de Putin é representado pela KGB e pela oligarquia muito rica. A situação chegou a um ponto em que ditadores como Putin simplesmente não se preocupam mais em dar uma satisfação – apenas leiloam o poder, indiferente do que pensa a população. E, de uma forma incrível, o povo acreditava ser o culpado ao ter desejado a democracia. Quando houve uma iniciativa de tentar reverter essa situação, entre 2010 e 2011, essas pessoas foram presas e ainda tentam sair da prisão.

A Ucrânia seria hoje o único país determinado a romper com esse passado totalitário?

Sim, acredito que a Ucrânia é o único país a encontrar forças para resistir, embora enfrente a resistência de Putin que, por ser a história ucraniana muito ligada à russa, não tem interesse em deixar seu país perder força com a independência. Afinal, a Rússia quer continuar império.

Em uma entrevista, a senhora disse que não gosta de revoluções, preferindo processos mais lentos de desenvolvimento. Isso seria possível hoje, diante de uma situação tão delicada?

Essa revolução já ocorreu, até em duas etapas. Sou contra revoluções porque implicam em produzir cadáveres. Como artista, jamais conseguiria dizer a uma mãe que, para ela desfrutar de sua liberdade, teria de ceder a vida do próprio filho. Participei da revolução na época de Yeltsin e fiquei decepcionada, pois percebi que não havia líderes que dessem continuidade às conquistas. Há algum tempo, eu me encontrei na Inglaterra com Mikhail Khodorcovsky (milionário russo que foi preso em 2005 sob acusação de lavagem de dinheiro, mas que, na verdade, era uma ameaça política para Putin, que o anistiou no final de 2013) e lhe perguntei o que ele estava fazendo. Respondeu que estava preparando as pessoas para que, quando acontecer uma nova revolução russa, talvez em dez anos, tenhamos líderes capacitados. Na verdade, fazendo uma análise de todas as revoluções, inclusive a russa, é possível constatar que elas não produziram nada – a não ser sangue. Pois veja: a Revolução de 1917 nasceu para implantar o socialismo, mas, cem anos depois, vivemos um retorno para o capitalismo. E isso mexe com a rotina das pessoas. Certa vez, tomei um táxi, em Moscou, e perguntei para o motorista, um senhor de idade, como estavam as coisas. Ele respondeu que os russos estavam construindo o capitalismo debaixo das botas da KGB. A situação hoje se parece com as de 1905 e 1930, quando ditadores estavam prontos para tomar o poder. Sim, não há base para ser otimista.

 

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