AP Photo/Remy de la Mauviniere
AP Photo/Remy de la Mauviniere

Sucesso do Brasil no Salão do Livro de Paris expõe gargalo das traduções

Público comparece e meta de vendas deve ser batida, mas editores e escritores advertem para a falta de tradutores para o português do Brasil

Andrei Netto, O Estado de S. Paulo

23 Março 2015 | 03h00

CORRESPONDENTE / PARIS - A alta frequência de público a debates, sessões de autógrafos e na livraria instalada no pavilhão brasileiro no Salão do Livro de Paris, assim como a repercussão na imprensa da França, confirmam a olhos vistos o sucesso da participação do Brasil como País convidado da 35ª edição da feira. A meta de oito mil livros vendidos em quatro dias deve ser batida nesta segunda-feira, 23, mas acadêmicos, editores e escritores freiam o otimismo e advertem para o gargalo que pode jogar por terra o esforço de divulgação: a falta de tradutores em português brasileiro.

O tema foi um dos centros de debates neste domingo, 22, quando do lançamento da edição especial da revista bilíngue Pessoa, criada em Paris para divulgar a literatura brasileira contemporânea no exterior. No primeiro número, foram publicados textos de 27 autores de prosa, poesia e teatro, sob a organização de Leonardo Tonus, professor de Literatura Brasileira da Universidade de Paris-Sorbonne (Paris IV). Na apresentação, a escassez de tradutores especializados no português brasileiro, tema comentado nos bastidores do Salão do Livro, emergiu com força.

Impulsionado pelo Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiro no Exterior, da Fundação Biblioteca Nacional e do Ministério da Cultura, o Brasil chegou ao Salão do Livro com um total de 1,2 mil títulos traduzidos para o francês, o que ampliou a oferta dos escritores brasileiros e a visibilidade da literatura nacional. Com isso, suplementos literários de jornais tradicionais, como Le Monde, Libération e Le Figaro trouxeram o Brasil como destaque, e livrarias de Paris prepararam estantes exclusivas. Em uma prova de prestígio, no sábado, o presidente da França, François Hollande, passou pelas instalações, como o premiê, Manuel Valls.

No Salão do Livro, obras de autores brasileiros se espalham por mais de 30 estandes de editoras que publicaram um ou mais títulos. Na livraria montada pela Fnac no pavilhão do País, a previsão da Câmara Brasileira do Livro de vendas de oito mil exemplares deve ser superada. A presença de público é grande nos debates e nas sessões de autógrafos, como no caso de autores como Daniel Galera, Bernardo Carvalho, Paulo Lins, Nélida Piñon e Ana Maria Machado.

Mas, para escritores, editores e acadêmicos, o esforço de ampliar a presença da literatura brasileira e o sucesso do Brasil no Salão do Livro podem se perder caso o volume de traduções não continue a aumentar. “O Salão deste ano está muito melhor do que o de 1998. Há muito mais autores publicados. Na época, era sobretudo Jorge Amado. Hoje a diversidade é muito maior”, conta a ensaísta e ficcionista Betty Milan, um dos quatro autores remanescentes de 1998, quando o País foi convidado de honra pela primeira vez. Para Betty, o evento representou um salto de qualidade, mas o gargalo das traduções tem de ser enfrentado. “É importante que formemos mais tradutores literários. A nossa língua é diferente do português de Portugal”, argumenta.

Segundo Tonus, há muito a fazer para garantir que a literatura brasileira não recue e perca penetração mais uma vez, como aconteceu ao longo dos anos 2000. “Vejo o cenário brasileiro como muito bom e, ao mesmo tempo, muito ruim. Os autores são muito bons, audaciosos. Mas é difícil segui-lo do outro lado do Oceano”, diz Tonus. “O fato de o Brasil ser convidado de honra mostra que o lugar foi conquistado. Mas é uma conquista frágil, que precisa ser consolidada. É urgente formar mais tradutores, o que passa pelo ensino da língua no exterior.”

Para Paula Salnot, publisher da editora Anacaona, fundada em 2010 e especializada em literatura brasileira, o momento é favorável, mas o interesse de grandes editores ainda é limitado. “O que está acontecendo nos últimos anos é efervescente. Há uma nova geração de leitores, que cria uma nova geração de escritores”, diz Paula. “Mas ainda faltam editores que se interessem. Eles conhecem pouco da literatura brasileira, e não conhecem seu contexto.”

Nesta segunda-feira, 23, último dia da feira, é esperada a chegada do escritor brasileiro contemporâneo mais célebre na França e em todo o mundo: Paulo Coelho.

Salão de Paris nunca paga cachê a autores

Os organizadores do Salão do Livro de Paris responderam ao princípio de polêmica suscitada por declarações de Luiz Ruffato, que reclamou do não pagamento de cachê aos autores brasileiros. Além de passagens internacionais, da estada em hotéis da capital da França e do transporte urbano, os escritores ganham uma diária de € 50 para cobrir despesas de alimentação. Mas não recebem remuneração pela participação no evento. Essa situação foi criticada por Ruffato. Organizadores da França e do Brasil demonstravam surpresa com as queixas. “Todo ano é assim, com todos os países que já foram convidados. A diária é sempre do mesmo valor, de € 50, e não há pagamento de cachê. É assim independente do País”, afirmou Mansour Bassit, diretor executivo da Câmara Brasileira do Livro (CBL). "Nem gostaria de falar disso. Essa é a prática habitual”, disse Betty Milan. / A.N.

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