Intrínseca
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Stephenie Meyer fala do estresse envolvendo o lançamento de um livro durante uma pandemia

'Os fãs estão tão entusiasmados para fazer alguma coisa, qualquer coisa, e não podemos oferecer isto a eles. É um pouco frustrante', disse a autora da Saga 'Crepúsculo', que acaba de lançar mundialmente seu novo livro 'O Sol da Meia-Noite'

Entrevista com

Stephenie Meyer

Concepción de León, NYT

05 de agosto de 2020 | 11h00


Neste ano, quando Stephenie Meyer decidiu lançar Midnight Sun (Sol da Meia-Noite), uma releitura do seu best-seller Twilight (Crepúsculo), um romance do ponto de vista dos vampiros, ela achou que possivelmente “ninguém iria ligar mais”.

Ela deixou o livro de lado depois de vários capítulos vazados online em 2008. Agora, mais de uma década depois, suas legiões de fãs finalmente poderão ler a sequência da obra. Ela pretendia um lançamento discreto, mas quando anunciou a data de publicação, em maio, tanta gente acessou seu website que ele rapidamente saiu do ar.

“Isto é muito lisonjeiro, mas também estressante”, disse ela em uma entrevista concedida no mês passado. “Estou segura de que as pessoas não terão exatamente o que estão esperando. Porque durante todo esse tempo elas têm imaginado como seria a história e ninguém consegue atender a essas expectativas.

A saga Crepúsculo, que acompanha o romance da adolescente Bella Swan com Edward Cullen, um vampiro de mais de um século, tornou a marca multimilionária após o lançamento do primeiro livro em 2005, resultando em cinco filmes e milhões de fãs em todo o mundo, muitos deles clamando por Midnight Sun.

Maren Abercromble e Emily Mensing, que administram o podcast Remember Twilight? são duas fãs. “Acho que deixamos manifestado o desejo desse lançamento, honestamente”, disse Mensing.

Depois de ler a versão do romance que vazou em 2008, Maren Abercromble disse ter ficado ansiosa para Meyer lançar a obra concluída. “Bella é ótima, todos os outros também, mas para mim o personagem mais interessante é Edward”, disse ela. “Tudo o que sempre desejei era ter Midinight Sun completo”.

Antes da sua publicação Stephenie Meyer falou do estresse envolvendo o lançamento de um livro durante uma pandemia, o que os leitores devem esperar e porque não devem aguardar algum outro. Abaixo trechos editados da entrevista.



 

Por que decidiu publicar o livro agora?


Porque eu o terminei. A razão de não ter sido publicado antes foi que não estava acabado e quando vi a luz no fim do túnel – quando percebi que conseguiria terminá-lo, iniciei o processo de publicação, porque sabia que havia pessoas que o estavam aguardando pacientemente, e ansiosamente, há um bom tempo.

E então surgiu a covid-19. Seria caso de parar com tudo? Ficou logo óbvio que não há um fim em vista da covid-19. Eu fiquei empolgada para lançar um livro para ser lido neste momento porque não há muita coisa estimulante, esperando que as pessoas estivessem sentindo a mesma coisa.


 

O que aconteceu em 2008? Por que decidiu adiar o livro indefinidamente?


Não sei exatamente o que ocorreu e esta é uma das razões que me chocam. Não acho que houve alguma má intenção. Penso que as pessoas fizeram cópias em vez de retorná-lo para mim quando pediram para lerem. Mas não foi tão assustador. Mas quando imaginei que talvez alguém estivesse lendo coisas no meu computador, isto foi o que me deixou mais aterrorizada.

E na época foi difícil porque ninguém quer ter seu rascunho de um livro liberado para a crítica. Você sabe que pode melhorar. Literalmente está extraindo coisas do seu cérebro e colocando na página. Faz muito tempo e foi um grande contratempo, eu diria.

O real motivo do livro demorar tanto para ser escrito é porque é um livro enorme, cansativo para escrever. No caso de alguns dos meus livros, era como eles estivessem se escrevendo e o meu trabalho era simplesmente acompanhar o ditado. Esse tipo de escrita é divertido e empolgante. Neste caso, cada palavra foi uma luta.


 

O que os leitores devem esperar deste novo episódio?


As coisas que eu mais gosto estão ali – gosto de não ser o ser humano. Gosto dessa experiência de extirpar sua humanidade e ser alguma outra coisa.

Acho que a parte que as pessoas não esperam é: Edward é um personagem muito ansioso. Descrevê-lo deixou-me mais nervosa e esta é uma das razões pelas quais foi difícil fixar nessa história. A ansiedade dele combinada com a minha foi forte. 

Ele começa bastante confiante, mas desmorona no final. Bella realmente o deixa em pedaços. Acho que em Crepúsculo ele parece muito forte e seguro de si mesmo, quando na verdade nunca foi o caso.


 

Sem dar margem a spoilers, há alguma coisa que pode dizer sobre o que os leitores irão saber a respeito de Edward ou que novas perspectivas terão em momentos como os do livro 'Crepúsculo'?


É difícil falar em spoiler. Edward está apaixonado por Bella. Todo mundo sabe, e assim é difícil dizer que isto pode estragar a história.

O que vai ser novidade, como eu disse, é o ponto de vista não humano e depois o tempo que transcorre. As melhores partes para escrever foram nos momentos em que Bella não estava presente e eu não fiquei presa a um determinado conjunto de diálogos e ações. Foi quando senti Edward podia ser mais ele mesmo.

Algumas pessoas irão gostar mais de alguns personagens e de outros menos, porque não só ele passa mais tempo com elas, mas está lendo suas mentes o tempo todo. É uma reação automática que ele não consegue controlar, e assim você tem não só uma imagem das pessoas, mas a história delas o tempo todo, o que é algo contundente. Para ter uma ideia, pense em ter constantemente vozes de pessoas em sua cabeça.

 

A senhora planeja escrever a série inteira através dos olhos de Edward?


Não. Escrever da perspectiva dele me deixa mais ansiosa. E a experiência de escrever este livro não foi muito agradável. De modo que não, não gostaria de fazer isso – especialmente porque essa New Moon (Lua Nova) seria um pesadelo de depressão e vazio.

 

Muita coisa mudou no mundo desde que o primeiro livro foi publicado em 2005, incluindo o movimento #MeToo, que lançou uma nova luz sobre nossas instituições culturais mais queridas. Você pensou sobre como a relação de Bella e Edward poderia ser entendida de maneira diferente nos dias atuais, quase duas décadas depois?


Eu tive feedback desde o início de pessoas que reagiram a algumas coisas e não gostei do que ouvi. Não sei se Midnight Sun tornará isso melhor ou pior para elas.

Acho que você tem uma noção de Edward da perspectiva de ele não ser alguém que segue regras humanas. E o pior disto não é que, você diria, ele a espia. Na verdade, ele é um animal muito curioso que não pensa desta maneira. Mas de fato o problema real é que ele matou muitas pessoas, e a pior coisa é que você é um assassino muitas vezes.

Mas de novo, isto decorre do fato de que este é um livro de ficção que não está ambientado num mundo real. É fantasia e assim você tem este personagem que não é humano e não faz parte do que é social como nós. Ele é diferente. 

Isto não muda o fato de que, para uma pessoa que viveu algo terrível isto pode ser horrível e eu me sinto mal a respeito, porque para mim é apenas uma fantasia que não existe. Não foi minha experiência, e assim acho que a história é um outro mundo totalmente distinto.


 

Como vem sendo o processo de lançamento do livro?


Insano e estressante. Quero ter tudo planejado e conhecido com antecipação, o que tenho de fazer, onde devo ir, e planejar tudo, seriamente, com seis meses de antecedência. Então fico satisfeita. Agora não sei o que vamos fazer. 

Tinha planos e estava empolgada, mas então esses planos desmoronaram. Acho que vamos fazer muita coisa virtual. O que provavelmente será divertido, mas para mim não é a mesma coisa. Os fãs estão tão entusiasmados para fazer alguma coisa, qualquer coisa, e não podemos oferecer isto a eles. É um pouco frustrante.


 

A senhora escreveu em seu blog que livros são o maior meio de fuga no momento. O que está lendo?


O último livro que li realmente adorei – são histórias curtas. O nome da autora é Martha Wells. É uma série de ficção científica chamada Murderbot Diaries. All Systems Red é a primeira. É excelente. 

É sobre um ciborgue que não é homem nem mulher, que está sob controle, mas o usam para assistir basicamente TV e o pobre coitado tem fobia social, não consegue olhar ninguém no rosto, e quer apenas ficar em paz para assistir aos seus programas. Eu me identifiquei com o personagem (risos).


 

Quais são seus planos de escrever no futuro?


Tenho três candidatos no momento sobre os quais tenho escrito de vez em quando. Quando Midinight Sun for lançado, então vou ver qual me atrai. Gostaria de fazer alguma coisa de fantasia, em que você tem um mapa no começo do livro, mas vamos ver se esta será a história escolhida.


Tradução de Terezinha Martino 

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