AP Photo/Mark Lennihan
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'Stephen King usa bem protagonistas crianças', diz tradutora

Regiane Winarski diz que, no trabalho da versão, fica assustada com os trechos que revelam maldade humana

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2022 | 05h00

Em sua escrita, Stephen King usa a expressão dos personagens para revelar sua condição social e mesmo seu estado de espírito. "São sotaques, gagueiras e ceceios que, muitas vezes, são difíceis transpor para o português", comenta Regiane Winarski, que traduziu os mais recentes livros de King para o idioma nacional - será dela também a tarefa de verter os próximos lançamentos.

Na seguinte entrevista, realizada por e-mail, Regiane lembra que seu maior desafio foi o de traduzir It - A Coisa. "Especialmente por abordar questões complexas como racismo, homofobia e violência contra a mulher, entre outras", argumenta. 


 

O que é mais desafiante na tradução dos livros de Stephen King? 

O maior desafio é o uso de recursos de fala nos personagens, como sotaques, gagueira, ceceio e outras questões de pronúncia. Muitos são difíceis de transpor para o português e é preciso tomar cuidado para não cair no ridículo ou ficar uma caricatura. Quanto a estilo, os livros do Stephen King costumam ter trechos bem descritivos e ter um bom desenvolvimento de personagem, detalhes que acabam tornando o texto dele bem familiar não só para mim, mas para os leitores que acompanham fielmente as obras dele. 

 

Qual foi a obra mais difícil de traduzir e por quê? E, se houve, qual a mais fácil?

A mais difícil foi It - A Coisa. Foi difícil por ter sido meu primeiro (e um começo desafiador, sendo uma das maiores obras dele, além de ser uma das mais icônicas) e também por abordar questões muito complexas e importantes como racismo, homofobia, violência contra a mulher e tantas outras. Eram trechos muito sofridos emocionalmente para mim, pois é impossível não me envolver com a história que estou traduzindo.

Acho que o mais fácil foi A Hora do Lobisomem, por ser curtinho e bem direto. Mas também considero que Depois foi bem fácil porque eu me senti "em casa" com o livro desde a primeira página. Foi como estar num parque de diversões.

 

Qual sua obra preferida? Por quê?

Essa é uma pergunta bem difícil. Eu gosto de vários livros dele. Depois se tornou um dos meus queridinhos porque o personagem principal é um menino, e eu sempre adoro quando Stephen King usa protagonistas crianças. Eu acho que ele faz isso muito bem.

 

Confesso que senti verdadeiros arrepios ao ler 'O Iluminado' - você sentiu isso traduzindo alguma de suas obras?

Em geral, não chego a sentir medo quando traduzo ou leio os livros do King, mas todas as partes que dizem respeito à maldade humana sempre me deixam assustada. Isso porque são coisas bem realistas, que podem acontecer de verdade. A maldade humana é o que há de mais assustador para mim.

 

Você gosta das versões para o cinema? Acredita que são, na medida do possível, fiéis à obra dele?

Eu fico dividida sobre isso. Há algumas versões de que eu gosto bastante, mas muitas de que não gosto. Acho que as que mais acertam são as que focam mais nas complexidades dos personagens e menos em dar susto.

 

Há algum livro que você identificaria como um momento de ruptura na obra dele?

Eu acho que A Metade Sombria é um livro bem impactante para quem conhece a história de vida do Stephen King. Eu tinha lido quando adolescente e não sabia de nada da vida do autor. Quando fiz a tradução uns anos atrás, já sabendo tudo pelo que ele tinha passado com alcoolismo e drogas, enxerguei nas entrelinhas do livro muita coisa importante que tinha deixado passar. Acho também que muita coisa mudou para ele como autor e como pessoa depois desse livro.

 

Você acredita que existe um parentesco profundo entre a literatura de suspense e a psicanálise, no sentido em que há sempre, em ambas, uma verdade encoberta a ser desvendada?

É um paralelo interessante. Acho também que ambas seguem o caminho do desconforto para chegar ao objetivo final. E nem sempre essa verdade é aquilo que esperamos ou imaginamos.

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