Charlotte Hadden/The New York Times
Charlotte Hadden/The New York Times

Stanley Tucci aborda tratamento de câncer e amor pela comida em livro

'Taste: My Life Through Food' traz memórias pouco convencionais do ator e relembra pratos horríveis servidos nos sets de filmagem

Alex Marshall, The New York Times

10 de outubro de 2021 | 05h00

Há mais ou menos três anos, o ator Stanley Tucci estava amarrado a uma cama em um hospital de Nova York enquanto fazia radioterapia para se livrar de um tumor na base de sua língua.

Uma máscara cirúrgica feita especialmente foi colocada em seu rosto, para que ele não se mexesse, e um bloco de plástico foi inserido em sua boca, com apenas um pequeno buraco para ele respirar. “Foi horrível”, disse Tucci em uma entrevista no mês passado.

Depois de três sessões de radiação, ele começou a sentir vertigem e a perder o apetite. Depois de uma semana, tudo o que ele comia tinha gosto de papelão molhado “misturado com os excrementos de alguém”. Sua boca se encheu de úlceras.

Ao longo dessa experiência angustiante, Tucci disse, ele não estava com medo da morte. Ele temia perder o paladar. “Quero dizer, se você não pode comer e apreciar a comida, como você vai apreciar todo o resto?”, ele lembra.

Tucci conta essa história em seu novo livro, Taste: My Life Through Food, publicado pela Gallery Books. São memórias não convencionais sobre seu amor – e ódio ocasional – a comer e beber, lembrando da culinária de sua mãe (“prova de que a criatividade culinária deve ser a forma de arte mais perfeita”) e também da comida horrível que comia em sets de filmagem.

“A única coisa que faz um bufê de comida italiana em um set suportável é que sempre tem vinho”, escreve Tucci, de 60 anos. “Trágico para um país que é um oráculo culinário.”

Sua luta contra o câncer vem, surpreendentemente, no final do livro. A maior parte da obra retrata o Stanley Tucci que se tornou um dos maiores sucessos da pandemia com sua série da CNN em seis partes, Stanley Tucci: Searching for Italy, na qual fez uma viagem encantadora pelo país de origem de seus avós, comendo. “A coisa toda é quase obscena”, escreveu Helen Rosner na New Yorker com aprovação, depois de descrever o “êxtase sensorial” que Tucci sentiu ao cheirar um queijo Parmigiano-Reggiano.

Ainda assim, quando Tucci fez aquele programa, ele ainda estava se recuperando do tratamento de câncer. “Foi duro porque eu podia sentir o gosto de tudo, mas não conseguia necessariamente engolir.”

Tucci – que mora em Londres com sua esposa, Felicity Blunt, uma agente literária, e seus filhos, incluindo Emília, que nasceu em meio ao seu tratamento – disse que não pensou duas vezes sobre fazer o programa. “Não tinha como não fazê-lo”, ele contou. “Queria há muito tempo contar a história da Itália e da culinária diversa de cada região.”

Foi também sobre recuperar uma sensação de normalidade em sua vida? “Sim, acho que sim”, observou.

Tucci, que cresceu em Katonah, Nova York, já escreveu livros de culinária antes, e Taste traz várias receitas, incluindo uma simples para um Negroni e uma mais complexa para um tímpano, uma espécie de tambor de massa assado recheado com macarrão, ragu, almôndegas, ovos e outras delícias que aparecem em seu filme de 1996, A Grande Noite.

O livro contém tributos nostálgicos a restaurantes sino-cubanos perdidos e uma lembrança de quando ele comeu carne de baleia na Islândia (“Nunca uma culpa vagamente atenuada teve um gosto tão bom”). Mas o foco está no papel que a comida desempenhou em sua vida, seja quando, aos 13 anos, viu sua avó na varanda esfolando um esquilo (“Eu olhei para ela como se ela fosse louca”, escreve Tucci. “E ela olhou para mim intrigada, como se eu fosse o louco”), ou quando ele depenou faisões com sua esposa.

“Para qualquer pessoa não interessada em comida, teria sido muito chato”, comentou Blunt sobre suas conversas gastronômicas. “Mas para mim foi um deleite.”

Outra surpresa do livro é que ele mal toca na carreira de décadas de Tucci, que inclui papéis em Julie & Julia, Jogos Vorazes e O Diabo Veste Prada. Não há acerto de contas ou mesmo fofocas sobre celebridades, a menos que você considere a história da andouillette com sua coestrela de Julie & Julia, Meryl Streep. Andouillete é uma linguiça francesa às vezes feita com o cólon da vaca. Tucci notou que parecia o pênis de um cavalo, Streep concorda, tenta comer um pedaço, e diz, “Tem um toque de curral, é verdade”.

“Tudo isso é terrivelmente chato”, Tucci confessa, quando questionado sobre o porquê de não falar sobre sua carreira.

O que é muito mais interessante, ele disse, “é que você está vivendo sua vida, tem essa trajetória e essa visão, então, de repente, toda essa outra coisa boa é como um carro lateral preso a você, e você vai para outra direção”.

Stanley Tucci atribui seu amor pela comida a sua família. Sua mãe, uma excelente cozinheira, o mandava para a escola com sanduíches feitos da berinjela à parmegiana da noite anterior, enquanto ele olhava com ciúme para os sanduíches de pasta de amendoim e geleia de seus amigos.

Mas sua paixão só floresceu realmente depois que ele começou a trabalhar no filme A Grande Noite, sobre dois imigrantes italianos tentando salvar um restaurante decadente em New Jersey. Enquanto pesquisava, ele trabalhou em uma cozinha conduzida pelo chef Gianni Scappin e percebeu que não conseguia parar de fazer perguntas sobre como os pratos eram feitos e quais ingredientes eram usados neles.

Scappin disse que, naquela época, não tinha ideia de quem era Tucci e o deixou ficar em sua cozinha, em grande parte, porque era mão de obra gratuita. Mas logo Tucci mostrou que tinha um verdadeiro talento, lembrou Scappin.

“Ele era tão focado”, acrescentou. “Ele ficava observando tudo: como eu corto uma cebola, como faço uma fritada. Uma vez eu o vi olhando para este trapo que coloco em meu avental para limpar minhas mãos, e pensei: ‘Por que esse cara está me encarando?’”. O trapo apareceu em A Grande Noite.

Tucci realmente tenta trazer seu amor pela boa gastronomia e pela boa bebida para seu trabalho diário. Ele leva duas máquinas Nespresso para seus sets: uma para seu trailer, outra para o caminhão de maquiagem. Ele embrulha comida caseira em sacos térmicos para evitar o bufê. À noite, às vezes, prepara coquetéis para colegas ou os convida para jantar.

A recuperação do tumor parece ter afetado alguns desses rituais. Ele preparou um risoto milanês para Colin Firth, sua coestrela, quando trabalharam juntos no filme Supernova, lançado no início deste ano. Em um e-mail, Firth disse que foi o melhor que já comeu, mas Tucci “estava convencido de que tinha um gosto horrível e ficou mortificado”.

“Ele simplesmente não estava sentindo o mesmo gosto que nós”, observou Firth. “Era preciso imaginar como isso era angustiante, porque na maior parte do tempo ele assumia uma expressão muito corajosa e impassível.” / TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

Tudo o que sabemos sobre:
Stanley Tuccicâncerlivro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.