Ryan Pfluger/The New York Times
Ryan Pfluger/The New York Times

Stan Lee, mestre dos quadrinhos, morre aos 95 anos

A informação foi divulgada pela sua filha ao site 'TMZ'

André Cáceres, O Estado de S. Paulo

12 Novembro 2018 | 16h52

O escritor, editor e executivo da indústria de histórias em quadrinhos americano Stan Lee morreu nesta segunda-feira, 12, aos 95 anos. A informação foi divulgada pela sua filha ao site TMZ. Ele chegou a ser levado ao hospital Cedars-Sinai, onde morreu. Veja galeria com 27 aparições de Stan Lee em filmes da Marvel.

Nova-iorquino da gema, nascido Stanley Martin Lieber, em 1922, ele foi um dos mais importantes nomes dos quadrinhos por décadas, mas não foi exatamente um quadrinista. Fez história principalmente no nicho dos super-heróis ao escrever argumentos, roteirizar HQs e conceber personagens que viriam a se tornar célebres, como o Homem-Aranha, o Quarteto Fantástico e os X-Men. No entanto, Lee começou a carreira, em 1939, como um mero assistente, sem assumir funções criativas. 

Uma de suas primeiras criações foi o Destroyer (não confundir com o Demolidor, que também foi imaginado por Lee em parceria com Bill Everett), em 1941, mas o herói não obteve o sucesso de suas futuras contribuições. Suas principais obras vieram com a renovação dos quadrinhos nos anos 1950 e 1960, justamente quando Stan Lee estava pensando em mudar de carreira e sua esposa sugeriu que ele contasse as histórias que queria, independente de serem adequadas ou não às fórmulas de super-heróis. Esse conselho coincidiu com a intenção da Marvel de renovar seu rol de personagens, e a partir daí vieram os Vingadores originais, o Doutor Estranho, o Quarteto, os X-Men, entre muitos outros heróis exaltados hoje no cinema. 

Com a ajuda de Steve Ditko (com quem imaginou o Homem-Aranha) e Jack Kirby (parceiro na criação de Hulk, Thor e Homem de Ferro), Stan Lee deu início à ideia de um universo compartilhado para as histórias dos heróis da Marvel no início da década de 1960, o que culminou em diversas sagas que envolviam heróis diferentes e serviu de base para o universo cinemático em que habitam os filmes da empresa. Ditko morreu em junho, brigado com Lee.

Por falar neles, aliás, Stan Lee é o ator que mais estrelou longa-metragens de heróis. Em todas as adaptações cinematográficas de quadrinhos da Marvel, mesmo nas produções da Fox (X-Men, Deadpool) e da Sony (Homem-Aranha), ele faz participações especiais curtas, porém aguardadas pelos fãs. Existe, inclusive, uma teoria não confirmada de que todos os personagens interpretados por Stan Lee no cinema seriam a mesma pessoa.

Embora não tenha efetivamente lutado, Stan Lee serviu o exército durante a 2.ª Guerra Mundial (1939-1945), e retornou às atividades quadrinisticas após cumprir as obrigações militares. A função de Stan Lee, intitulada “playwright” (algo como “roteirista”), consistia em escrever e adaptar textos e foi compartilhada no exército americano por pouquíssimos nomes, como o dramaturgo William Saroyan, o cineasta italiano Frank Capra e o também cartunista Theodore Geisel.

Por mais que sua contribuição pelos quadrinhos de super-heróis tenha sido voltada quase exclusivamente à Marvel, Stan Lee figura nas páginas de algumas HQs da empresa rival, a DC Comics. Quando seu parceiro de longa data Jack Kirby trabalhou na DC, ele criou Funky Flashman, personagem secundário de Mister Miracle (1972). Sem poderes sobre-humanos ou qualquer passado, Funky foi tido por muitos como uma sátira de Stan Lee, embora essa informação não seja canônica.

Lee ajudou o gênero de super-heróis a se reerguer após um período fraco. Os quadrinhos chegaram a ser extremamente políticos no início dos anos 1940 — Superman enfrentou Hitler antes mesmo dos Estados Unidos entrarem na 2.ª Guerra Mundial e o Capitão América surgiu como uma resposta patriótica americana à ascensão do nazismo. Mas com a crescente censura imposta pelo código de conduta da Comics Code Authority, formada em 1954, aliada a um momento de crise nas vendas, os super-heróis perderam relevância. 

Foi com o surgimento do Quarteto Fantástico, primeira colaboração de Stan Lee e Jack Kirby, em 1961, que o estilo se refrescou, dando início a uma nova era capitaneada por ele. A reboque do sucesso, a Marvel deu carta branca para Lee conceber histórias e personagens que hoje são clássicos, como o Homem-Aranha, Thor e Doutor Estranho.

Nos anos 1960, Stan Lee não apenas criou heróis que permaneceram no imaginário coletivo, mas foi um dos grandes responsáveis por um maior engajamento no gênero. Ao mesmo tempo em que os X-Men refletiam a discussão pelos direitos civis dos negros em voga nos EUA — o conflito entre Professor Xavier e Magneto tem paralelos evidentes com as disputas entre Martin Luther King Jr. e Malcolm X —, a superequipe também foi uma metáfora da luta LGBT: os mutantes tinham poderes, mas precisavam ocultá-los de uma sociedade preconceituosa que os reprimia. O Pantera Negra, criado antes mesmo do partido homônimo, também foi um herói que abriu as portas para a representatividade e a discussão sobre racismo nos quadrinhos. Já o Demolidor foi o primeiro super-herói deficiente físico, e usava sua cegueira não como um problema, mas como uma vantagem, dando um excelente exemplo de empoderamento social. 

A variedade temática que Stan Lee abarcou é enorme: desde o misticismo oriental do Doutor Estranho à mitologia nórdica de Thor, passando pela ode à ficção científica de Hulk, um misto de Frankenstein com O Médico e o Monstro. Não por acaso foi o grande maestro da orquestra cósmica que a Marvel criou com seu universo compartilhado, e que agora é replicada com sucesso nos cinemas. Stan Lee é certamente um dos responsáveis pelo atual momento da cultura pop, e sua marca permanecerá gravada no mundo nerd por anos a fio. 

Repercussão

A atriz Kaley Cuoco, que interpreta Penny na série The Big Bang Theory, lamentou a morte de Stan Lee em suas redes sociais: "Ele deixou sua magnífica marca em nossa série de tantas maneiras e nós estamos eternamente gratos. Eu adorava suas visitas, abraços e fantásticas histórias. Ele era um super-herói épico e eu nunca o esquecerei", escreveu.

Robert Downey Jr., que desde 2008 dá vida nos cinemas ao Homem de Ferro, um dos personagens cocriados por Stan Lee, também se manifestou a respeito do ocorrido: “Eu devo tudo isso a você”, disse o ator, ao publicar uma foto dele com o escritor. O CEO da Disney, atual dona da Marvel, afirmou à imprensa americana que Lee “tinha o poder de inspirar, entreter e conectar. A dimensão de sua imaginação foi superada apenas pela de seu coração”. 

Kevin Feige, o diretor executivo do Marvel Studios, responsável pela produção dos filmes que a empresa lança, afirmou em suas redes: “Ninguém exerceu mais impacto sobre minha carreira e tudo o que fazemos no Marvel Studios do que Stan Lee. Stan deixa um extraordinário legado que sobreviverá a todos nós.”

O quadrinista Rob Liefeld, criador de Deadpool, lamentou a perda de um “titã da criatividade”. “Eu o agradeci por ser um visionário, não só criativamente”, disse o artista na internet. “Ele deu início à era dos quadrinhos da Marvel e à era dos filmes de super-heróis que vivemos hoje.” 

Capitão América no cinema, o ator Chris Evans externou suas condolências: “Nunca haverá outro Stan Lee. Durante décadas, ele ofereceu para jovens e velhos aventuras, escapismo, conforto, confiança, inspiração, força, amizade e alegria. Ele exalava amor e gentileza e vai deixar uma marca inapagável em tantas vidas.”

 

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