Andre Chung/The Washington Post
Andre Chung/The Washington Post

Sobrevivente de atentado ao 'Charlie Hebdo' relata trauma em livro

'O Retalho', de Philippe Lançon, é um livro de memórias que narra o massacre e rastreia suas consequências em sua vida e na vida de muitas outras pessoas

Dwight Garner, The New York Times

21 de março de 2020 | 07h00

Os escritores e artistas do Charlie Hebdo, o semanário satírico francês, tinham talento para perturbar a paz. Eles se entregavam por inteiro, especialmente durante as reuniões de pauta, a travessuras e absurdos, a opiniões antirreligiosas que corroíam e acabavam com o tédio. Seus inimigos: a farsa, a hipocrisia, o fingimento, o embotamento das emoções.

Quase todas as edições do Charlie Hebdo conseguiam fazer com que os juízos do The Onion, a publicação satírica dos Estados Unidos – igualmente inestimável, ainda que bem mais branda – parecessem brincadeira de criança.

Foi durante uma sessão de brainstorming do Charlie Hebdo, na manhã de 7 de janeiro de 2015, que dois homens armados que alegaram lealdade ao Estado Islâmico entraram nos escritórios da revista em Paris e mataram doze pessoas. Outras onze ficaram feridas.

Na mente fanática dos terroristas, a carnificina foi uma vingança pelos desenhos que o Charlie Hebdo havia publicado – caricaturas do profeta Maomé, cuja representação é proibida em muitas interpretações do islã. O diretor editorial do jornal, Stéphane Charbonnier, cartunista conhecido como Charb, estava entre os mortos. “Temos que continuar”, disse ele certa vez, “até que o islã se torne tão banal quanto o catolicismo”.

Entre os gravemente feridos no ataque estava o crítico e romancista Philippe Lançon, que tinha pouco mais de 50 anos. Ele agora escreveu um livro de memórias poderoso e profundamente civilizado, O Retalho (Todavia), que narra o massacre e rastreia suas consequências em sua vida e na vida de muitas outras pessoas.

Lançon quase não foi à reunião do Charlie Hebdo naquela manhã. Ele tinha de entregar uma crítica teatral ao Libération, o jornal diário que Jean-Paul Sartre ajudou a fundar em 1973. Lançon planejava escrever a crítica na redação do Libération.

Ele foi de bicicleta e a deixou acorrentada do lado de fora do Charlie Hebdo. Acabou passando para dar um “oi”. Estava animado. Tinha planos de viajar para Cuba no mês seguinte. No outono, daria aulas de literatura em Princeton, “com um sentimento de completa ilegitimidade”, a respeito de romances sobre ditadores latino-americanos.

Para um literato francês, Princeton era empolgante não apenas por ser “a universidade de Einstein e Oppenheimer”, mas “também a do grande primeiro tradutor de Faulkner, Maurice-Edgar Coindreau”. A viagem lhe permitiria passar um tempo com sua namorada, Gabriela, que morava na cidade de Nova York.

Os escritores e artistas sentados ao redor da mesa de conferência do Charlie Hebdo mal tiveram tempo de se esquivar antes que os homens armados os atacassem. Quando caiu no chão, Lançon foi atingido por pelo menos três balas; uma arrancou a maior parte de sua mandíbula. Ele abriu os olhos e se viu no meio de uma poça quente de sangue e cérebro. Para sobreviver, se fingiu de morto.

Depois de uma dilacerante descrição do ataque, O Retalho faz um giro e se torna a história de uma recuperação longa e difícil. Lançon viria a passar quase um ano em dois diferentes hospitais, entre eles o lendário Pitié Salpêtrière, no 13.º arrondissement, lugar que quase se torna um personagem desse livro de memórias.

Ao longo de quase três anos, Lançon passou por dezessete operações. Tiraram um osso da perna direita para construir uma nova mandíbula. A pele do pescoço teve de ser “inflada” e esticada, para cobrir e compor a parte inferior do rosto. 

Houve muitos contratempos. Chegaria o dia em que ele conseguisse comer comida sólida novamente?

Lançon é um homem sensível, cheio de referências, um companheiro confiável ao longo das páginas. Não se trata de uma daquelas memórias esbeltas e contidas sobre catástrofe e tentativa de recuperação – como Onda, de Sonali Deraniyagala, ou O Escafandro e a Borboleta, de Jean-Dominique Bauby.

Lançon é, a seu modo suave, um maximalista. Como Proust, que está entre seus escritores favoritos, ele não se apressa. Seus humores cardinais são tolerantes. Seu livro de memórias percorre mais caminhos de cabras do que estradas, enquanto seu autor se debruça sobre amizades, livros, comida, sexo, moralidade, jornalismo, cuidadores, banheiros e Bach.

Eu não queria que esse livro de quase 500 páginas fosse ainda mais longo. Ele já se alonga o bastante. Mas me senti comovido e provocado, sempre querendo voltar à leitura.

Recomeço. A vida de Lançon foi arrasada. Testemunhar sua tentativa de se reconstituir é como assistir a um fazendeiro juntando os pregos ainda quentes depois que sua casa e seu celeiro foram consumidos pelas chamas.

Ele é um humorista gentil. Ao sentir que seus dentes parecem bolas de gude na boca, seu primeiro pensamento é ter pena do dentista. Ele consome um prato a que chama de “o gaspacho da melancolia”. E se refere a uma de suas feridas abertas como “a costeleta”. Uma enfermeira é “fleumática feito um gnu”.

Ao mesmo tempo, ele vive em um estado de constante ansiedade. Teme que os terroristas voltem. Imagina que estão do outro lado da janela do hospital, ou correndo pelos corredores. Ele é escoltado por policiais que vão trocando de turnos, com fuzis Beretta.

Tem nojo dos muçulmanos fanáticos (“Quem eram esses zumbis? De que zona eles estavam voltando?”). É um liberal que sente que, no que diz respeito aos fundamentalistas religiosos, a esquerda meteu os pés pelas mãos. Tem medo da “guerra total” e da “extinção”, não apenas dos valores ocidentais, mas da própria civilização.

Lançon foi aplaudido nas manifestações espontâneas pela liberdade de expressão nas ruas de Paris logo após o massacre. Todo mundo ficou bem no Instagram segurando cartazes “Je Suis Charlie”. Ele também achou as manifestações um pouco irônicas. Ressalta, não sem amargura, que na manhã de 7 de janeiro, “poucas pessoas na França estavam dispostas a dizer “Eu Sou Charlie”.

A revista havia perdido seus amigos na mídia e muito de sua importância depois de publicar charges sobre Maomé em 2006. Ridicularizar o islã era algo muito próximo do racismo. Naquele que talvez seja o parágrafo decisivo desse livro de memórias, ele escreve, como um dentista raspando o nervo:

“Foi um momento crucial: a maioria dos jornais, até alguns famosos por suas tirinhas, se distanciaram de um semanário satírico que publicava essas caricaturas em nome da liberdade de expressão. Alguns deles o fizeram por se declararem preocupados com o bom gosto; outros, porque falar a verdade para os muçulmanos poderia levá-los ao desespero”.

Ele continua: “Essa falta de solidariedade não foi apenas uma desonra profissional e moral. Isolar e apontar o dedo para o Charlie ajudou a torná-lo alvo dos islâmicos”. Esse livro de memórias fala sobre os princípios que Lançon acha que vale a pena defender, mesmo diante da morte.

Em inglês, o livro se chama Disturbance (Perturbação), um nome que parece ser muito anódino para um livro como este. Ele poderia ter tomado de empréstimo este título de Doris Lessing: Instruções para uma Descida ao Inferno. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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