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Simon Sebag Montefiore recupera a imagem de Catarina II, a Grande, e Grigóri Potemkin em livro

Historiador inglês é um dos convidados da próxima Flip

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2018 | 06h00

Foi no mesmo ano em que Vladimir Putin assumiu a presidência da Rússia que um romance recém-editado logo se transformou em seu livro de cabeceira. Publicado em 2000, Catarina, a Grande & Potemkin, do historiador inglês Simon Sebag Montefiore, não interessou apenas pela ardente relação entre a monarca do Império Russo e seu amante, um talentoso estadista, mas por apresentar um vívido relato das ações militares dos dois governantes. Foi justamente esse detalhe que interessou Putin, especialmente a estratégia utilizada por Potemkin em lugares como a Ucrânia, o Mar Negro e, principalmente, a Crimeia, região que Putin mandou invadir em 2014.

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Autor de alentadas biografias sobre figuras russas (do famigerado ditador Stalin e dos Romanov, família que transformou um principado arruinado pela guerra em um dos maiores impérios do mundo), Montefiore se ocupa aqui de histórias extraordinárias. Conhecida como Catarina II, a Grande (1729-1796), foi imperatriz de 1762 (quando depôs o próprio marido, o patético Pedro III, em uma conspiração forjada) até sua morte. Nesse período, o Império Russo se expandiu e se modernizou, transformando-se em uma das maiores potências europeias. Conhecida como uma déspota esclarecida, Catarina governou com firmeza, mas implementou medidas progressistas.

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Fogosa, colecionou amantes e o mais famoso (e quem mais lhe interessou) foi Gregório Alexandrovich Potemkin (1739-1791), um exímio marechal de campo, cujo talento foi responsável pela colonização das estepes selvagens do sul da Ucrânia, região escassamente povoada. Dono de uma vasta cabeleira vermelha e de uma insaciável disposição para o sexo, Potemkin foi o companheiro ideal para Catarina, tanto na cama (como revelam as picantes cartas trocadas entre ambos) como no campo político e militar.

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Com seu livro, Montefiore recupera a imagem de Catarina e Potemkin que, durante dois séculos, “foram relegados aos becos libidinosos, românticos e até mesmo escusos da história, escarnecidos como obcecados por sexo e poder, ou como ridiculamente ineptos”, como escreve ele na introdução. Terminada a leitura de um livro caudaloso, mas recheado de histórias deliciosas, o que se sobressai é a figura de um casal visionário, que ampliou as fronteiras do império, fundando cidades como Odessa e estabelecendo uma frota naval no Mar Negro. “Brilhantes e imaginativos, tolerantes e magnânimos, apaixonados e excêntricos, extravagantes e epicurianos, trabalhadores e ambiciosos, eram personagens muito diferentes dos governantes atuais, filhos insensíveis da União Soviética”, continua a escrita de Montefiore, convidado da próxima Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, em julho - ele é destaque da mesa intitulada O Poder na Alcova, no sábado, ao meio-dia. O historiador respondeu por e-mail às seguintes questões.

O livro, que tem como subtítulo Uma História de Amor na Corte Romanov, possui uma curiosa coleção de fãs, de Mick Jagger a George W. Bush. Qual é o fascínio desses personagens que atraem leitores tão ilustres?

Bem, um monte de gente adorou aquele livro. Lembro-me de Elton John e Madonna, que também gostaram muito. O presidente Bush leu pouco antes de se encontrar com Putin pela primeira vez. Muitas pessoas na Rússia também gostaram, acho que até Putin. Para os ocidentais, uma explicação seria porque Potemkin é um personagem glamouroso - ele é como uma estrela de rock muito inteligente e sério. Já para os russos, o livro reabilita Catarina, que chegou a ser encarada como uma espécie de ninfomaníaca, e Potemkin como um bufão que inventou vilarejos. Na verdade, eles foram dois dos maiores estadistas da história da Rússia.

Que diferença você apontaria entre Vladimir Putin, Joseph Stalin e os czares?

Nenhum é igual aos outros, o que seria simples demais e não representaria nada na História. Putin, porém, olha para trás, para fatos passados, e avalia os governantes pelo seu sucesso em vez da ideologia. Assim, Stalin e Pedro, o Grande são czares de sucesso, enquanto Gorbachev e Nicholas II são fracassados. Ele se compara a Stalin e a Pedro, o Grande e aspira a ser um grande czar hoje.

Você considera, portanto, correto chamar Putin um czar dos dias modernos?

Em muitos aspectos, ele tenta se igualar aos grandes czares e a Stalin, e governa da mesma forma majestática a mesma especial civilização russa e acredito que ele encare esta sagrada fé de uma forma antiquada. E a sua forma de governar por meio de decisões pouco transparentes em um pequeno grupo de pessoas muito ricas é exatamente a mesma dos czares.

A história hoje está muito interessada nos detalhes. A literatura está assumindo esse lugar?

A história não é sempre sobre detalhes? Deveria ser, mas não há nada de bom sobre os detalhes. Minha história é literária, mas também é precisa. Sem os detalhes, tudo poderia ser inventado.

Você se vê como um escritor político, ou acredita que escritores são inevitavelmente criaturas políticas?

Todos os escritores, mesmo os romancistas, são escritores políticos especialmente em sociedades opressivas e, sim, sou um escritor político, pois meu assunto essencial é poder.

David Sloan Wilson, em seu ensaio Evolutionary Social Constructivism, observa que nós constantemente construímos e nos reconstruímos para atender às necessidades das situações que encontramos. Ele acredita que fazemos isso com a orientação de nossas memórias do passado e as nossas esperanças e medos para o futuro. O que você pensa sobre isso?

Bem, as memórias são sempre reconstituídas e depois congeladas de modo que possamos repeti-las de novo e de novo. Mas é claro que a história é assim também e cada época escreve a história da qual necessita e quer.

Como a História pode realmente nos ajudar a compreender melhor o que está acontecendo no mundo?

A História deve ser um aviso do passado e do futuro, mas deve ser também um entretenimento e ter uma qualidade literária. Em minhas histórias dos Romanov e de Jerusalém, cidade sagrada para as três grandes religiões monoteístas, e agora de Catarina e Potemkin, tento alcançar isso.

TRECHOS

“Pouco depois do meio-dia de 5 de outubro de 1791, uma lenta fila de carruagens servidas por lacaios de libré e um esquadrão de cossacos com a farda da Hoste do Mar Negro, deteve-se numa estradinha de terra, numa desolada encosta no meio da estepe bessarábia. Era um lugar estranho para o séquito de um grande homem descansar: não havia taverna à vista, nem sequer um casebre de camponês. A grande carruagem-dormitório, puxada por oito cavalos, foi a primeira a parar. As outras - ao todo eram provavelmente quatro - diminuíram a velocidade e pararam ao lado da primeira sobre a relva, enquanto os lacaios e a escolta de cavalaria se apressavam para ver o que se passava. Os passageiros abriram as portas de suas carruagens. Ao ouvirem o desespero do senhor, dirigiram-se às pressas para a sua carruagem.

“Chega!”, disse o príncipe Potemkin. “Chega! Não faz sentido continuar.” Dentro da carruagem-dormitório, havia três médicos aflitos e uma esbelta condessa, de maçãs salientes e cabelos castanho-avermelhados, todos em volta do príncipe. Ele suava e gemia. Os médicos chamaram os cossacos para remover o paciente. “Tirem-me da carruagem...”, instruiu Potemkin. Todo mundo entrava logo em ação quando a uma ordem sua, e ele tinha mandado em praticamente tudo na Rússia por muito tempo. Cossacos e generais se amontoaram em volta da porta aberta, e lenta e suavemente começaram a carregar para fora o gigante ferido.”

CATARINA, A GRANDE, & POTEMKIN

Autor: Simon Sebag Montefiore

Tradução: Berilo Vargas

Editora: Companhia das Letras (840 págs., R$ 89,90 livro, R$ 39,90 e-book)

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