Paulo Vitor/Estadão
Paulo Vitor/Estadão

Silviano Santiago: “É preciso des-domesticar as grandes obras”

Em Genealogia da Ferocidade escritor liberta a selvageria de Grande Sertão: Veredas

Rodrigo Esteves Lima, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2017 | 10h46

 

Que Grande Sertão: Veredas seja uma obra canônica da literatura brasileira não há dúvidas. O que no entanto não quer dizer de forma alguma que suas interpretações devam se limitar ao cânone da crítica literária. É o que defende o crítico e escritor Silviano Santiago em seu novo livro, Genealogia da Ferocidade: Ensaio sobre Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (Cepe, 117 págs.) .

Contra grande parte da crítica roseana, que, dotada de um heideggerianismo vulgar, que bradava “a linguagem é a morada do ser” e via na figura de Grande Sertão a encarnação macaqueada do pensamento do filósofo alemão, Silviano destaca a brutalidade da obra: “a selvageria em Grande Sertão é linguística”, algo quase tátil.

Divergindoo da costumeira interpretação que é feita do livro, geralmente introduzido através de Os Sertões, de Euclides da Cunha, Silviano ressalta que Grande Sertão é uma obra de abundância. Diferente do que pode pensar o leitor desavisado, não é o sertão do semi-árido, da caatinga, da seca, que se trata a obra. O que é retratado ali são as veredas dos sertões das Gerais, com toda a abundância, toda riqueza e toda a beleza presentes por todo o vale do São Francisco.

Por toda a natureza linhas retas indicam a ação humana. Na natureza há sim vértices e arestas, no entanto a presença de linhas, sobretudo se paralelas, indica sempre a presença do homem. O crítico demonstra então a mais completa ausência de geometria do romance de Guimarães Rosa, “é um monstro!”, afirma.

“O Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos…”: a abundância na obra de Guimarães Rosa é presente até mesmo nos nomes destinados ao diabo. “É impossível pensar em João Cabral escrevendo 30 nomes diferentes do diabo”, diz Silviano.

Atentando para o romance entre os protagonistas da obra, Riobaldo e Diadorim, o crítico alega que o livro é um grande enclave masculino, todas as outras personagens são apenas convidadas para que o romance se desenrole. Essa seria uma das suas demonstrações de ferocidade e irascibilidade, com passagens de grande lirismo entre dois machões, clamando para o corpo: “Toda minha obra é sobre o corpo, e assim também é com Grande Sertão.”

De acordo com o crítico, a maior parte das leituras de Grande Sertão: Veredas foram equivocadas. A obra traz uma linguagem alegórica, não é um romance histórico como os que figuravam na literatura brasileira à época.  Em todo o livro não é dada nenhuma referência cronológica senão quando Riobaldo diz a seu interlocutor que fala de um tempo em que no sertões das gerais quem fazia a lei eram os jagunços. Parafraseando o historiador da arte francês Georges Didi-Huberman, Silviano diz que o artista quer ver as trevas do seu próprio tempo, não as luzes de sua própria época. É isso que o torna sempre atual. Do contrário, ele envelhece mais rapidamente. Nesse grande chiaroscuro entre modernidade e tradição jaz Grande Sertão: Veredas: “não é coincidência de que Grande Sertão esteja ao lado de Brasília.”

O autor enfatizou a necessidade de desmistificar outras críticas canônicas, “é preciso des-domesticar outras grandes obras, os cânones”. Criticou também a canonização do modernismo, idolatrado por boa parte da crítica literária brasileira desde a Semana de Arte Moderna, em 1922.  Numa de suas obras mais celebradas, Em liberdade, Silviano afirma que tentou des-domesticar Graciliano Ramos, recebendo duras críticas dos familiares do escritor. O livro é uma alterbiografia de Graciliano Ramos, em que narra o que o autor teria escrito em seus diários depois de liberto da prisão em Ilha Grande.

“É uma preguiça mental a crítica canonizadora, um apego a algo que tranquiliza mais do que emociona”, disse, afirmando que seu livro sobre Guimarães Rosa foi feito através da justaposição da leitura canônica com a sentimental. Justamente por temer acabar canonizando contemporâneo, ele prefere não opinar sobre o atual cenário da literatura brasileira.

Apesar de ter tido grande influência do filósofo e de ter sido o organizador do Glossário de Derrida, Silviano alerta para o abuso do conceito de desconstrução, que está por toda parte na boca do povo: “a desconstrução é um trabalho de erudição contra os malefícios da erudição”. Sem a erudição, em primeiro lugar, seria um oxímoro tentar desconstruir algo. Só se pode desconstruir depois de se haver edificado.

Com gloriosa carreira literária, Silviano ostenta grande número de troféus: já foi laureado com o prêmio Jabuti duas vezes, premiado pela Associação Brasileira de Letras, além do prêmio Oceanos e Machado de Assis. Neste ano ele concorre novamente ao prêmio Jabuti, com o romance Machado, em que narra os últimos dias de vida do fundador da nossa academia.

Silviano Santiago provavelmente será muito criticado por sua tentativa de desconstruir a fortuna crítica de Grande Sertões. Que se há de fazer. Como dizia Riobaldo, “viver é muito perigoso…”

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